Um dos grandes clássicos da ópera chega a Brasília em uma montagem inédita e gratuita. “Faust”, de Charles Gounod, será apresentado pela Cia. de Cantores Líricos de Brasília em três sessões no Teatro da Caesb, em Águas Claras, nos dias 6 e 7. A programação integra as celebrações do feriado da Independência do Brasil e foi realizada com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF).
Baseada na obra “Fausto”, de Johann Wolfgang von Goethe, a ópera acompanha um estudioso que, já velho e frustrado com a própria trajetória, decide fazer um pacto com Mefistófeles em troca da juventude. A partir daí, a história se desenvolve entre desejo, fé, paixão e as consequências das escolhas dos personagens.
À frente da montagem estão Renata Dourado, responsável pela direção geral e produção e também intérprete de Marguerite; Rafael Abreu, na direção musical e regência; James Fensterseifer, na direção cênica; e Rosa Benevides, responsável pela coreografia.
Para Renata, levar “Faust” aos palcos da capital é também uma forma de reafirmar a proposta da companhia de tornar a ópera mais próxima de diferentes públicos. “Temos a honra de trazer para Brasília a adaptação desse clássico do jeito da Cia. de Cantores Líricos, que sempre valorizou popularizar e trazer a ópera de uma forma leve e acessível para todos”, afirma. “E será uma montagem única, com corpo de baile, orquestra. Venham!”
A preocupação em tornar a obra mais acessível aparece também na duração do espetáculo. Enquanto montagens tradicionais de ópera podem ultrapassar duas ou três horas, a companhia optou por uma adaptação que preserve os principais elementos da obra sem tornar a experiência cansativa para quem não está habituado ao gênero. “A Cia. sempre procura deixar a ópera atrativa para o público”, explica Renata. “Geralmente as óperas têm três horas, duas horas, duas horas e meia, e a gente faz uma adaptação que mantém a essência da ópera, do texto, da música, mas que fica mais leve para quem está assistindo.”
Nesta versão, “Faust” terá aproximadamente uma hora e quarenta minutos. A montagem também aposta em recursos visuais para acompanhar a música e ajudar a contar a história. “Com efeitos cênicos também que prendem a atenção do público, além da parte musical”, acrescenta.
A proposta de democratização não se limita à adaptação. A entrada gratuita é uma característica que a companhia vem buscando manter em suas produções. “O mais importante, a Cia. tem feito os espetáculos sempre de forma gratuita. Qualquer pessoa pode assistir, né? As pessoas têm acesso fácil, gratuito, aos espetáculos”, destaca Renata.
A companhia encerrou recentemente uma temporada de “Os Miseráveis”, com sete apresentações gratuitas, e também levou ao público, no início do ano, outra ópera sem cobrança de ingresso. Agora, a aposta é em “Faust”.
“Acabamos de entregar ‘Os Miseráveis’, foram sete apresentações, seis encenadas e um informe de concerto, e foi gratuito. Agora vamos para ‘Faust’, também gratuito. No começo do ano fizemos uma outra ópera, que foi a ‘Deine Le Couvray’, também de forma gratuita”, conta. “Então, de forma acessível para as pessoas, também uma forma de acessibilizar e democratizar a cultura e a ópera.”
Uma Marguerite marcada pelo conflito
Além de comandar a produção, Renata Dourado interpreta Marguerite, uma das personagens centrais da trama. A jovem se vê dividida entre a paixão por Fausto e a fé religiosa, conflito que ganha força ao longo da história.
A preparação para o papel começou pela própria língua da obra. Como o francês não costuma ser o idioma mais utilizado pelos cantores em suas apresentações, a artista precisou dedicar atenção especial à pronúncia e à dicção. “Meu processo para a preparação do personagem começa, como eu te falei, primeiramente com a letra. Preparação da letra, pronúncia, para poder entregar o máximo possível da dicção do francês”, explica.
Depois da preparação linguística, veio o trabalho musical e dramático. “E aí vem para a parte musical. E entender os momentos musicais de drama e tensão”, conta.
Para Renata, Marguerite é uma personagem que exige atenção justamente pela intensidade de seus conflitos internos. “A Marguerite é um personagem que carrega muito drama e muita tensão por conta do conflito interno dela, né? Da paixão por Fausto e a devoção à igreja, a Deus.”
O francês acabou sendo um dos principais desafios da preparação. “O maior desafio, eu digo que não foi nem o personagem em si, mas a língua, o francês”, afirma. “Geralmente a gente tem o hábito de cantar mais em italiano.”
Para enfrentar a dificuldade, a cantora contou com a preparação de um coach especializado na língua. O trabalho ajudou a construir não apenas a pronúncia, mas também a interpretação de uma personagem atravessada por sentimentos contraditórios. “Teve uma preparação com o coach para se preparar para a língua. E a personagem que ela tem é uma tensão muito dramática. O desafio interno dela é o amor e a igreja, a fé.”

Uma história que deixa perguntas
Embora a trama de “Faust” seja conhecida pela presença do pacto entre o protagonista e Mefistófeles, a montagem também aposta em questões que permanecem abertas para o público ao final da apresentação.
Renata explica que a adaptação preserva uma característica importante da obra: a ausência de uma resposta definitiva sobre o destino de Marguerite. “A ópera não entrega claramente se Marguerite foi para o céu ou para o inferno. Fica sempre uma pergunta para o público”, explica.
A personagem também passa por um trauma relacionado ao filho que teve com Fausto, mas a montagem não apresenta uma resposta definitiva sobre o que aconteceu. “O público percebe que ela sofreu um grande trauma, mas fica se perguntando”, diz Renata.
A partir disso, a história propõe uma reflexão sobre culpa, fé, amor e julgamento. “E fica uma reflexão no ar, né? Se ela foi para o céu ou para o inferno. Se realmente ela estava corrompida. Se o amor que ela sentia era tão ruim que ela tinha que ser castigada e ir para o inferno.”
Para a diretora, deixar essas questões em aberto é justamente parte da força da montagem. “Então fica no ar, assim. Acho que é uma coisa, um diferencial, é diferente.”
Almas perdidas no palco
Outro elemento que diferencia a produção é a presença do balé. A obra original possui momentos coreográficos, mas a companhia desenvolveu uma concepção própria para a montagem brasiliense.
“O balé representa almas perdidas”, revela Renata. Segundo ela, a escolha surgiu a partir de uma pesquisa sobre diferentes montagens da obra. “Essa obra tem balé, traz uma novidade que a gente não vê em praticamente nenhuma montagem, que eu pesquisei bastante.”
A presença do corpo de baile amplia a dimensão visual da história e ajuda a traduzir para o palco os conflitos e as consequências que atravessam os personagens.
A montagem reúne Rafael Luiz Ribeiro como Fausto, Gustavo Rocha como Mefistófeles, Renata Dourado como Marguerite, Paulo Mattos como Valentin, Andreia Maulaz como Siebel e Paulo Santos como Wagner.
Para Renata, assumir tantas responsabilidades em uma mesma produção é um desafio que faz parte de sua trajetória. A artista atua há mais de uma década na produção de óperas da companhia, que ela própria fundou. “A produção já é algo que eu tenho feito há mais de dez anos, as produções de ópera da companhia, da Cia. de Cantores Líricos de Brasília, uma companhia que eu fundei, que eu tenho me dedicado bastante para mantê-la”, conta.
A experiência também se soma à formação musical. “Como cantora também, estudei pra isso, né? Formei na UnB.”
O maior desafio, no entanto, está em conciliar as diferentes áreas da montagem. Como diretora geral, Renata precisa articular as decisões da direção musical, cênica e coreográfica.
“Como diretora geral, o desafio é equilibrar as direções. Então eu tenho direção cênica, eu tenho direção musical e direção coreográfica, né? Porque a gente tem o balé”, explica.
Segundo ela, o trabalho envolve unir diferentes concepções para que todas funcionem dentro de uma mesma narrativa. “É um momento que a gente tem que alinhar cada concepção, costurar as cenas.”
Renata resume a função como uma espécie de ponto de encontro entre todas as áreas. “O diretor geral é aquele que vai decidindo basicamente o caminho que o espetáculo vai tomar, juntando todas as ideias dos demais diretores.”
A responsabilidade, ela reconhece, exige preparação. “É gostoso, mas é uma função que exige cuidado, estudo, preparo.” E o conhecimento prévio da obra ajuda nesse processo. “Essa é uma ópera que eu já estudo há algum tempo. Então, eu domino, eu conheço toda a história.”
No fim, o objetivo é fazer com que todas essas escolhas cheguem ao público de forma integrada. “Eu acho que o mais complicado é a função de direção geral mesmo. De saber alinhar todos os detalhes. De forma a entender o pensamento de cada diretor e de conseguir entregar o melhor espetáculo possível para o público.”
E Renata adianta que o resultado visual também será um dos destaques. “Com certeza o público vai assim se chocar, se encantar porque tá lindo. O balé tá lindo, os figurinos estão lindos e a concepção ficou muito bonita, digna de um clássico.”
Serviço
Ópera “Faust”
Data: 6 de setembro de 2026
Horário: 19h
Data: 7 de setembro de 2026
Horários: 17h e 19h30
Local: Teatro da Caesb, Águas Claras
Entrada gratuita, mediante retirada antecipada pelo Sympla
Classificação: não recomendado para menores de 10 anos
Mais informações: @ciadecantoresliricos