Dois casais se encontram para resolver de maneira civilizada uma briga envolvendo seus filhos. A tentativa de conciliação, no entanto, dá lugar a um confronto cada vez mais intenso em “O Deus da Carnificina”, tragicomédia da autora francesa Yasmina Reza que chega a Brasília neste final de semana. Com direção de Rodrigo Portella, a montagem tem no elenco Angelo Paes Leme, Bianca Byington, Thelmo Fernandes e Anna Sophia Folch, atriz e idealizadora do projeto.
Conhecida por abordar as tensões escondidas nas relações sociais, a peça parte de uma situação cotidiana para expor o conflito entre as convenções de comportamento e os impulsos que elas tentam conter. Para Portella, a encenação busca tornar visível justamente esse processo de desmontagem da aparência de civilidade. “É como se os pactos e convenções sociais estivessem sempre por um fio diante da nossa força primitiva, caótica e violenta”, afirma o diretor.
A obra, escrita nos anos 2000, ganhou projeção também pela adaptação cinematográfica dirigida por Roman Polanski, com Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz e John C. Reilly. Na montagem brasileira, Portella propõe, porém, um recorte específico para a crise de comportamento apresentada em cena. Segundo ele, a história não pretende representar a humanidade de maneira geral, mas colocar em evidência uma determinada parcela da sociedade.

“Eu preferi enfatizar na peça o quanto essa crise no comportamento está localizada em uma determinada camada socioeconômica”, explica. Para o diretor, a desigualdade e a polarização presentes no mundo contemporâneo tornam inadequada uma leitura que atribua os conflitos apresentados na peça à humanidade como um todo.
“Essa peça coloca uma lente de aumento sobre uma classe burguesa, sobre a elite brasileira”, afirma Portella. O recorte orienta também a forma como os personagens são construídos, à medida que a compostura inicial vai dando lugar a atitudes cada vez mais agressivas.
A encenação pretende acompanhar essa transformação por meio do trabalho dos atores. Portella destaca a intenção de revelar gradualmente o que existe por trás da postura socialmente aceitável dos personagens, em um movimento que descreve como uma espécie de descascamento. A ideia é fazer emergir, ao longo da peça, a intolerância e a violência que permanecem escondidas sob as convenções.
A atualidade do texto também é ressaltada por Anna Sophia Folch. Para a atriz, a história dialoga com questões como a dificuldade de estabelecer conversas e a tendência de cada indivíduo defender sua própria versão dos acontecimentos. A trama parte de uma discussão relacionada à educação dos filhos, mas amplia o conflito para as relações entre os adultos e para as estruturas sociais que orientam esse convívio.

O resultado é uma comédia ácida em que o encontro entre os dois casais deixa de ser apenas uma tentativa de resolver um conflito infantil e passa a expor as contradições dos próprios adultos. A direção de produção é assinada por Felipe Valle, que considera a obra um “espelho atemporal das relações sociais em sua forma mais pura e objetiva”.
Ao colocar os personagens diante de suas próprias contradições, O Deus da Carnificina explora ainda a tendência de reduzir relações complexas a posições opostas. O confronto entre diferentes versões dos mesmos acontecimentos faz com que a tentativa inicial de diálogo se transforme em uma disputa cada vez mais difícil de controlar.
Serviço
O Deus da Carnificina, de Yasmina Reza
Local: Teatro UNIP — SGAS 913
Data: 12 e 13 de setembro
Horários: sábado, às 18h e às 20h; domingo, às 17h e às 19h30
Ingressos via link
Atenção: não é permitida a entrada após o início do espetáculo