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Teatro e Dança

O Começo do Fim aborda rupturas, racismo e os desafios de reconstruir vínculos

Com Isabel Fillardis e Well Aguiar no elenco, comédia dramática chega para quatro sessões no Teatro Royal Tulip

Alexya Lemos

18/09/2026 5h00

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Foto: Margot Sant’anna/ Divulgação

O que permanece quando uma relação termina? É a partir dessa pergunta que O Começo do Fim constrói uma narrativa sobre rupturas, recomeços e as transformações dos vínculos afetivos. Com direção de Rubens Camelo, supervisão artística de Amir Haddad e dramaturgia de Denise Crispun, o espetáculo será apresentado em quatro sessões no Teatro Royal Tulip, neste fim de semana.

A montagem acompanha um casal que atravessa as mudanças provocadas pelo fim da relação enquanto tenta reorganizar a vida e lidar com a guarda compartilhada do filho, Pedro. Entre momentos de aproximação e conflitos, a história aborda questões relacionadas à saúde mental, às relações inter-raciais e ao racismo estrutural, colocando a convivência familiar no centro da narrativa.

O próprio título parte da ideia de que o encerramento de uma relação não representa necessariamente o fim de todos os vínculos construídos ao longo dela. Para Well Aguiar, a expressão traduz o momento dos personagens. “Talvez a beleza do título esteja justamente nessa contradição: o começo do fim ainda não é o fim, mas também já não é o que existia antes”, afirma.

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Foto: Margot Sant’anna/ Divulgação

A dramaturgia acompanha esse processo sem transformar os personagens em figuras completamente opostas. Ele e Ela permanecem sem nomes ao longo da peça, enquanto outros personagens e pessoas relacionadas à história são identificados. Para Aguiar, essa escolha contribui para ampliar a identificação do público com o casal. “No fundo, possam ser muitos de nós”, diz.

O ator também destaca a ausência de uma divisão simples entre razão e culpa. “Ele não é vilão. Ela também não. São duas pessoas errando e acertando, com orgulho, amor, falta de escuta, dores e uma enorme tentativa de acertar.” Essa construção faz com que a percepção dos espectadores possa mudar ao longo da apresentação, acompanhando as diferentes perspectivas apresentadas pela história.

A relação entre os protagonistas também é atravessada pela questão racial. Como homem branco em uma relação inter-racial, o personagem de Aguiar precisa lidar com experiências que não fazem parte de sua própria trajetória. O ator relaciona essa dimensão da história à necessidade de escuta e consciência dentro das relações afetivas.

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Foto: Margot Sant’anna/ Divulgação

A temática racial surge ainda por meio da experiência de Pedro, que sofre racismo na escola. Segundo Isabel Fillardis, a questão é apresentada gradualmente e a partir das consequências dessa vivência para o filho. “O tema vai aparecendo aos poucos e sempre através do olhar do filho que está sofrendo racismo na escola”, explica.

A atriz chama atenção para os conflitos que podem surgir quando uma família inter-racial não estabelece espaço para discutir o racismo. “A peça retrata que a falta dessa pauta na família interracial pode gerar muitas dores e equívocos dilacerantes”, afirma.

Ao tratar do assunto dentro de uma estrutura familiar, O Começo do Fim relaciona as diferenças de experiências e perspectivas aos desafios de convivência entre os personagens. O racismo não aparece, portanto, como uma questão isolada da trama, mas integrado aos conflitos que atravessam a relação do casal e sua dinâmica familiar.

Essa abordagem também se reflete na recepção do espetáculo. Fillardis relata que, durante o processo, houve inicialmente uma tendência de cada integrante defender os personagens a partir de suas próprias perspectivas. Com o desenvolvimento da montagem, essa percepção se transformou. “No início do processo não foi fácil fazer sem cada um de nós defendê-los. Mas, passou rápido”, conta.

Para a atriz, a repercussão junto ao público também tem funcionado como parte importante da experiência da montagem. “O propósito da peça vem se cumprindo quando ouvimos as pessoas nos dizerem que estão passando por isso ou aquilo. Ou ainda, que já viveram tais circunstâncias”, afirma.

A encenação alterna passado e presente e aposta em diálogos, silêncios e memórias para acompanhar as mudanças na relação. A proposta coloca o texto e o trabalho dos atores no centro da experiência cênica, explorando as fragilidades que surgem depois de uma separação e as formas possíveis de reorganizar os vínculos.

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Foto: Margot Sant’anna/ Divulgação

Sustentabilidade como parte da encenação

Além das questões afetivas e sociais, a montagem incorpora princípios de sustentabilidade à concepção visual. Certificado pelo Instituto IPCEAT como o primeiro espetáculo ecoeficiente do Brasil, O Começo do Fim utiliza cenário e figurinos desenvolvidos a partir de princípios sustentáveis.

A concepção foi realizada por Isabel Fillardis em parceria com a estilista indígena W’e’ena Tikuna. O trabalho propõe uma leitura urbana da ancestralidade amazônica e incorpora a sustentabilidade à linguagem estética do espetáculo.

Com quatro apresentações programadas, a montagem reúne, assim, diferentes camadas em torno da ideia de transformação: o fim de uma relação, a reorganização da família, o enfrentamento de questões raciais e a utilização de materiais e referências sustentáveis na própria construção visual da obra.

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Foto: Margot Sant’anna/ Divulgação

Serviço
O Começo do Fim — comédia dramática
Data: 19 e 20 de setembro de 2026
Horários: sábado, às 18h e às 20h30; domingo, às 16h e às 18h30
Local: Teatro Royal Tulip — Hotel Royal Tulip Alvorada, SHTN Trecho 1, Conjunto 1B, Bloco C
Ingressos: a partir de R$ 20 pelo link

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