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Teatro e Dança

Mulheres que fizeram Brasília também contam a história da capital

Espetáculo leva ao Gama quatro performances inspiradas em relatos do Arquivo Público do DF e transforma memórias de mulheres candangas em cenas para estudantes

Larissa Barros

30/09/2026 6h00

Atualizada 29/09/2026 23h07

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Candangas. – Foto: @ajessicalaranja

Nem toda história sobre a construção de Brasília está nos monumentos, nos projetos arquitetônicos ou nos grandes nomes da capital. Parte dela sobrevive em lembranças de mulheres que trabalharam, criaram filhos, frequentaram feiras e enfrentaram as dificuldades de viver em um Distrito Federal ainda em formação. É esse conjunto de memórias que chega ao palco com Candangas Palavras – Mulheres e Memórias Capitais, no Gama.

A proposta do projeto que apresenta quatro performances teatrais surgiu a partir de conversas entre a diretora teatral e pesquisadora Jemima Tavares e a professora Sulian Vieira, apontada por Jemima como fundamental para o nascimento do projeto. A investigação começou ainda durante o mestrado de Jemima na Universidade de Brasília (UnB), a partir de entrevistas do Programa de História Oral do Arquivo Público do Distrito Federal.

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Foto: @ajessicalaranja

A ideia inicial era construir uma espécie de linha do tempo da história de Brasília por meio desses relatos. O contato com o material, porém, levou a pesquisa para outro caminho. “Após uma investigação do material, pude perceber que a existência dessas mulheres foi muito maior do que o próprio evento da construção da capital”, explica Jemima.

Nos depoimentos, aparecem lembranças que não necessariamente caberiam em uma cronologia sobre a arquitetura ou a ocupação de Brasília. São histórias, expressões e modos de enxergar a cidade que revelam uma experiência mais cotidiana da capital. Um dos exemplos lembrados pela diretora é o de uma mulher que, ao defender a permanência de uma feira em determinado local, recorria ao ditado: “pedra que rola muito, cria lodo”. Para Jemima, são justamente essas particularidades que ampliam a maneira de contar a história do Distrito Federal.

Outras vozes para uma história conhecida

A escolha por colocar as mulheres no centro das performances também faz parte de uma reflexão sobre quem tradicionalmente teve espaço para contar a história de Brasília. A diretora recorre ao pensamento da escritora Chimamanda Ngozi Adichie para explicar a importância da narrativa. Segundo ela, durante muito tempo a história da capital foi construída a partir de uma estrutura de poder predominantemente masculina, que acabou deixando de lado a participação feminina. “Essas histórias apagam completamente o papel das mulheres nesse processo e incidem na população um imaginário de que mulheres sequer existiram durante a formação da capital”, afirma.

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Foto: @ajessicalaranja

As quatro performances procuram, portanto, apresentar outros pontos de vista sobre o Distrito Federal. As personagens atravessam experiências distintas e aparecem como empreendedoras, lavadeiras, estudantes, donas de casa, feirantes e mulheres que circularam por diferentes espaços da cidade.

O material do Arquivo Público é apenas uma das fontes utilizadas no processo criativo. As memórias da própria equipe também entraram em cena. Jemima, que passou parte da infância no Gama, buscou lembranças da família para construir a dramaturgia. Expressões utilizadas pelos avós e histórias contadas pela mãe foram incorporadas ao processo. Em uma das cenas, por exemplo, um depoimento sobre mulheres que lutavam pelo acesso à água potável em Ceilândia foi aproximado de referências e memórias ligadas ao Gama.

Memória que continua no presente

Cada performance dura cerca de 20 minutos e apresenta uma trajetória diferente. As histórias abordam temas como trabalho doméstico, dupla jornada, violência contra a mulher, abandono parental e as desigualdades presentes na ocupação do território. Mas a intenção, segundo Jemima, não é simplesmente colocar essas dores novamente diante do público. “As performances buscam focar na ressignificação da dor das mulheres e não na dor em si”, explica.

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Foto: @ajessicalaranja

Depois das apresentações, o projeto também promove jogos e exercícios teatrais com estudantes e professores. A ideia é fazer com que as histórias apresentadas no palco abram espaço para que os próprios alunos pensem nas mulheres de suas famílias e comunidades.

Para Jemima, esse movimento pode fortalecer a sensação de pertencimento dos estudantes e mostrar que suas próprias histórias também podem ser matéria-prima para a criação. “Esperamos que isso possa inspirar meninos e meninas a coletivamente contar suas histórias, entendendo o que os une a partir da ancestralidade”, afirma.

Realizado pelo Grupo de Pesquisa Vocalidade & Cena, da UnB, com recursos do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal, o projeto também disponibiliza aos professores materiais da pesquisa histórica e propostas de atividades pedagógicas para que o trabalho com a memória e o protagonismo feminino continue nas escolas.

Serviço
Candangas Palavras – Mulheres e Memórias Capitais
Centro Educacional 01 do Gama
29 e 30 de setembro e 1º de outubro
Sessões à tarde: 13h30 às 15h e 16h às 17h30
Centro de Ensino Fundamental 10 do Gama
7, 8 e 9 de outubro
Manhã: 8h às 9h30 e 10h30 às 12h
Tarde: 13h30 às 15h e 16h às 17h30
Noite: 8 de outubro, das 19h30 às 21h

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