A rotina acelerada, a burocracia, o trabalho, a culpa e a sensação de vazio em uma sociedade hiperconectada são os pontos de partida de “Janelas”, nova montagem do Coletivo Trina que chega ao Distrito Federal com apresentações gratuitas no Riacho Fundo I. Em cena, os atores Alzira Bosaipo e Jhony Gomantos conduzem o público por uma narrativa que transforma situações aparentemente comuns em reflexões sobre a condição humana e os mecanismos de controle presentes no cotidiano.
Com dramaturgia autoral de Glednna Fernanda e Alzira Bosaipo, o espetáculo foi construído a partir da temática dos sete pecados capitais, livremente inspirada no romance O Processo, de Franz Kafka. A proposta, no entanto, se distancia da leitura religiosa do tema e utiliza os pecados como alegorias para discutir questões contemporâneas, convidando o espectador a refletir sobre seus próprios valores, escolhas e formas de existir em sociedade.
A pergunta “O que você vê quando olha pela sua janela?” conduz a experiência cênica. Ao longo da montagem, personagens presos em situações banais e, ao mesmo tempo, absurdas, revelam camadas de culpa, alienação e desejo, expondo as tensões de uma realidade marcada pela repetição das rotinas e pela busca de sentido.

A dramaturga e diretora Glednna Fernanda conta que a origem do espetáculo está ligada a um exercício de observação do cotidiano durante o período em que estudava na Faculdade de Artes Dulcina de Moraes. Da janela da sala de aula, voltada para o pátio do Conic, ela acompanhava diariamente o fluxo de pessoas seguindo para o trabalho. A imagem acabou se tornando o ponto de partida para uma cena curta que, anos depois, se transformou na montagem completa.
“Quando eu comecei a escrever a peça eu estava cursando a Faculdade Dulcina. E pela janela da sala de aula eu via as pessoas passando o tempo todo, indo para seus trabalhos com suas rotinas. Daí veio o título: Janelas, que é justamente um olhar poético sobre essas rotinas.”
Ao desenvolver a dramaturgia, a artista optou por tratar os sete pecados capitais como metáforas da experiência humana contemporânea, deslocando o tema de uma perspectiva estritamente religiosa para discutir sentimentos presentes no cotidiano.

“Para além das questões religiosas, me interessa falar sobre a culpa e sobre situações em que a gente se sente culpado. Por exemplo, às vezes a gente só quer ficar sem fazer nada porque está cansado e aí vem essa culpa, porque a pessoa tem que estar produzindo o tempo inteiro, que querer fazer nada é preguiça. E isso também acontece com os outros ‘pecados’.”
A atriz e coautora Alzira Bosaipo explica que a construção dramatúrgica busca aproximar esses conceitos da realidade do público, enfatizando aspectos ligados aos desejos, impulsos e contradições da condição humana.
“Para além do vínculo religioso, os sete pecados capitais fazem parte da existência humana de maneira geral, pois dizem muito sobre nossos desejos, paixões e vícios. Então, apresentar um espetáculo que fala dos pecados capitais como alegorias humanas possibilita a reflexão sobre nossa humanidade.”
Segundo Alzira, a linguagem escolhida para a montagem também amplia as possibilidades de experimentação cênica e dialoga com a diversidade de referências presentes no espetáculo.

“Como são muitas linguagens diferentes em um mesmo processo criativo, optei por utilizar o teatro do absurdo como base de criação, pois ele possibilita brincar e experimentar as outras linguagens artísticas de forma mais livre.”
Além das apresentações, o projeto prevê a realização de uma oficina de construção dramatúrgica no Riacho Fundo I. A iniciativa também busca fortalecer a produção cultural fora do Plano Piloto e ampliar o acesso da população às artes cênicas.
“Acho importantíssimo descentralizar as produções artísticas e trazer nossas pesquisas para os locais em que vivemos nas regiões administrativas. Então, trazer o espetáculo para o Riacho Fundo I, a cidade que eu vivo, e poder compartilhar a minha pesquisa e a minha arte é ajudar a fortalecer a produção local e contribuir para que o público possa vivenciar produções artísticas, para além do Plano Piloto, por exemplo.”
Serviço
Espetáculo “Janelas”
Datas: 31 de julho, 1º e 2 de agosto (sexta a domingo)
Horários: sexta e sábado, às 20h; domingo, às 19h
Local: Salão Comunitário do Riacho Fundo I (ao lado da Administração Regional)
Classificação indicativa: 14 anos
Entrada: gratuita