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Economia

‘O que a gente ganhava nem multinacional ganha’, disse empresário do escândalo do INSS

Delecrode é um dos alvos da Operação Sem Desconto, da Polícia Federal, que investiga o escândalo do Instituto Nacional da Previdência Social (INSS)

Redação Jornal de Brasília

21/09/2026 6h16

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Foto: Reprodução

“A gente investiu quanto? Se for falar, para o que a gente ganhava, era muito pouco. O que a gente ganhava nem multinacional ganha”, disse Igor Dias Delecrode, de 28 anos, em 22 de maio de 2025, em uma gravação em vídeo obtida pelo Estadão. A defesa de Delecrode afirma desconhecer o vídeo.

Delecrode é um dos alvos da Operação Sem Desconto, da Polícia Federal, que investiga o escândalo do Instituto Nacional da Previdência Social (INSS), um esquema que lesou milhões de aposentados em R$ 6,2 bilhões.

Associações de aposentados que obtiveram acordos com o INSS para descontar a mensalidade de seus associados diretamente da folha de pagamento são investigadas por filiar aposentados de maneira fraudulenta.

Igor Dias Delecrode foi presidente de uma delas, a Associação de Amparo ao Aposentado e Pensionista (AASAP). Essa é uma das quatro entidades ligadas a ele e a um grupo de sócios que ficou conhecido como “golden boys”. Eles tinham mansões em Alphaville e uma frota de carros de luxo — 29 veículos, avaliados em R$ 28 milhões, foram apreendidos pela PF.

Delecrode e seus sócios, Felipe Macedo Gomes, 36 anos, Anderson Cordeiro Vasconcelos, 38 anos, e Américo Monte Jr, 44 anos, são suspeitos de faturar mais de R$ 700 milhões em descontos com a AASAP e outras três entidades: Amar Brasil Clube de Benefícios (ABCB), Master Prev e Associação Nacional de Defesa dos Direitos dos Aposentados e Pensionistas (ANDAPP).

Foi em um apartamento de Anderson que conversas sobre os lucros com as associações foram debatidas abertamente com Delecrode. O Estadão obteve acesso a 30 minutos de gravações de câmeras que ficavam ligadas 24 horas por dia. Em todo o vídeo, os empresários se referem às associações que controlavam nominalmente e a uma parceria de negócios entre eles que só existiu nessa área e pela qual eles são investigados.

Em um dos trechos dessa conversa, a dupla discutia sobre como queria ter investido em franquias de venda de bolos com dinheiro arrecadado com as entidades, mas Macedo Gomes teria sido contrário.

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Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado

Igor afirmou: “A gente sempre conversa de fazer coisa certa. O que nós vamos montar? Ele (Felipe) falou: gente, eu só vou fazer se for pra roubar alguém. Porque vai dar o dinheiro que vai ganhar”, disse.

Ele ainda afirmou se lembrar de como, para o investimento inicial que eles tiveram, o faturamento foi alto, como o de uma multinacional. Anderson afirmou ter concordado com a ideia de investir em franquias. E também ter sido desaconselhado por Felipe Macedo Gomes.

“O Felipe disse: ‘O Anderson tá querendo ter dor de cabeça, mexer com outros negócios’. Antes eu tivesse feito. Você não lembra disso, não? Na época da ABCB (Amar Brasil Clube de Benefícios)”, disse Anderson.

Igor afirmou que Felipe Macedo Gomes ainda teria complementado: “Franquia de casa de bolo? Dá 50 conto por mês. Tá ganhando milhões”, disse.

Anderson comenta que Felipe teria ficado apenas com alguns apartamentos em Alphaville. Depois, gabou-se de ter continuado com uma boa renda. E ainda reclamou de ter ficado com uma casa no condomínio Genesis 1, onde imóveis chegam a valer mais de R$ 10 milhões.

“Eu errei quando comprei no Genesis 1. Por um único motivo. Ele não é o condomínio que está no auge do burburinho”, disse. Ele ainda se queixou de não conseguir locar facilmente o imóvel, cujo valor mensal chegaria aos R$ 15 mil.

Como funcionou o esquema

As entidades da Farra do INSS, como as associações ligadas aos “golden boys”, só podiam descontar diretamente da folha de pagamento dos aposentados porque firmaram acordos de cooperação técnica (ACTs) com o INSS. Ex-diretores do órgão estão sob suspeita de receber propina para firmar esses acordos.

Os ACTs previam que associados das entidades tivessem suas mensalidades transferidas diretamente a elas. Em troca, as associações ofereciam supostos serviços, como seguros e planos de saúde.

As investigações mostraram que entidades filiavam esses aposentados de maneira fraudulenta. Segundo dados da Controladoria-Geral da União (CGU), 98% dos aposentados não haviam autorizado os descontos. Muitos sequer sabiam da existência das associações.

Empresários ligados às associações são suspeitos de fraude. Ex-diretores do INSS são investigados pelo recebimento de propina para manter o esquema em andamento — seja para aprovar novas associações ligadas aos empresários, ou para manter os acordos com elas caso houvesse sindicâncias para apurar irregularidades.

Quatro associações, corrupção no INSS e ostentação

Apesar de longe da idade para se aposentar, Anderson e Igor já presidiram a Associação de Amparo ao Aposentado e Pensionista (AASAP), uma das entidades suspeitas do grupo. Com Américo Monte Jr e Felipe Macedo Gomes, eles são suspeitos de serem os controladores da Amar Brasil Clube de Benefícios, Master Prev e Associação Nacional de Defesa dos Direitos dos Aposentados e Pensionistas (ANDAPP).

Todas essas entidades tinham como sedes salas comerciais, também em Alphaville. As investigações detectaram que mais de R$ 100 milhões que essas entidades receberam foram direcionados a empresas de Américo, Felipe e Anderson e Igor. Essas empresas ainda transferiram dinheiro a parentes deles.

Contratos com parentes de dirigentes do INSS

Empresas e associações dos “Golden Boys” firmaram contratos de prestação de serviços com Eric Fidelis, filho do ex-diretor de Benefícios do INSS, André Fidelis — que foram presos na Operação Sem Desconto — e com a médica Thaissa Hoffmann, mulher do ex-procurador-geral do INSS, Virgílio Oliveira, que também foi preso. Ambos já eram suspeitos em razão de pagamentos milionários que receberam de Antonio Carlos Camilo Antunes, lobista conhecido como o “Careca do INSS”, e de outros operadores ligados a associações.

Quebras de sigilo bancário ainda identificaram transferências de R$ 8 mil de Felipe Macedo Gomes para José Carlos de Oliveira, ex-ministro da Previdência Social. Um dos suspeitos de financiar as entidades dos “golden boys”, o alfaiate João Carlos Camargo Jr transferiu outros R$ 12 mil. Oliveira está sob suspeita de receber valores maiores por meio de operadores e de uma padaria em São Paulo.

Os “golden boys” nunca foram presos e somente em abril de 2026 o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça ordenou, a pedido da PF, que esses empresários passassem a usar tornozeleiras eletrônicas.

Defesa afirma desconhecer vídeos

Os advogados Rogério Cury, Daniela Cury, Levy Magno e Victor Fanti, que atuam na defesa de Anderson, Igor e Felipe, afirmaram que “desconhecem a existência, a autenticidade e a integridade dos vídeos em questão”.

“De todo modo, todos os seus bens se encontram bloqueados pela Justiça e o declarante segue, como sempre esteve, sob absoluta disposição das autoridades públicas”, afirmam.

A defesa ainda afirma, em nome de Anderson, que “se eventualmente existentes”, os vídeos “foram obtidos de maneira ilícita e criminosa”.

As defesas de Eric Fidelis e Virgilio de Oliveira não se manifestaram. A reportagem não localizou a defesa de Antonio Carlos Camilo Antunes.

Estadão Conteúdo

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