Chega aos palcos de Brasília nesta semana nesta semana “Entre Sonhos e Sonhos”, espetáculo que conta uma história sobre escolhas, propósito e a coragem de seguir aquilo que realmente faz sentido. O musical autoral estreia neste fim de semana, no Teatro UNIP, com sessões às 15h e às 19h.
Idealizado, escrito e dirigido por Walter Amantéa, o espetáculo é realizado pela Bailacci Musicais e apresenta uma história completamente inédita, acompanhada por 20 canções compostas especialmente para a montagem. A proposta é construir uma obra original do início ao fim, sem recorrer a músicas conhecidas, biografias ou adaptações de histórias já existentes.
A trama acompanha Vinícius Conradi, um jovem universitário que se vê diante de uma das decisões mais importantes de sua vida: seguir sua verdadeira vocação na música ou escolher um caminho considerado mais tradicional e seguro. Entre cobranças acadêmicas, expectativas familiares e conflitos no relacionamento, o personagem começa a questionar os planos que construiu para o futuro.
A história nasceu da observação de situações vivenciadas por pessoas próximas a Walter. Segundo o autor, a convivência com artistas ao longo da vida o colocou em contato com relatos de pessoas que precisaram lidar com a resistência da família ou da sociedade ao escolher uma trajetória artística.
“Como eu sempre vivi muito próximo de artistas, ouvi ao longo da vida várias histórias de pessoas que sonhavam em viver da arte, mas encontravam resistência da família ou da sociedade por medo da instabilidade financeira. Muitas acabavam escolhendo caminhos que pouco tinham a ver com aquilo que realmente queriam, em troca da promessa de uma vida mais segura”, conta.
Foi a partir dessa realidade que surgiu a ideia de transformar o conflito em uma narrativa musical. “Quando percebi que tinha em mãos um conflito que não estava presente apenas na vida dos artistas, mas que fazia parte da experiência de muitas pessoas — essa tensão entre aquilo que desejamos e aquilo que esperam de nós —, senti que havia ali uma história que valia a pena contar”, explica.
A produção também carrega reflexões pessoais do autor, embora a trajetória de Vinícius não seja autobiográfica. Walter conta que teve apoio da família quando decidiu seguir a carreira artística, mas encontrou inspiração em histórias de amigos e conhecidos que passaram por situações diferentes.
“A história de Vinícius não é exatamente autobiográfica. Eu tive o privilégio de ter uma família que sempre apoiou minha trajetória artística. Houve algum receio quando falei que queria cursar Música, mas nunca existiu uma pressão para que eu desistisse”, afirma.
Segundo ele, o personagem acabou reunindo diferentes experiências que acompanhou ao longo dos anos. “Como sempre estive no meio artístico, conheci muitas pessoas que viveram esse conflito entre aquilo que amavam fazer e aquilo que parecia mais seguro ou socialmente aceitável. Então ele acabou se tornando uma espécie de compilado dessas experiências.”
Além das referências externas, a própria trajetória de Walter contribuiu para a construção do tema. O autor conta que passou a enxergar determinados acontecimentos da vida como possíveis direcionamentos para novos caminhos. “Ao longo da vida, fui percebendo que certas situações pareciam sempre me dar pistas sobre os caminhos que eu deveria seguir”, relata.
“Às vezes uma porta se fecha justamente para que outra, mais alinhada com quem a gente é, possa se abrir”, acrescenta.
Essa reflexão atravessa a narrativa e amplia a discussão para além da escolha profissional. Identidade, família, amor, autoconhecimento e expectativas sociais aparecem na trajetória do protagonista e colocam em debate até que ponto é possível abrir mão dos próprios desejos para corresponder ao que outras pessoas esperam.
Música como parte da história
As 20 canções que compõem o espetáculo também foram criadas por Walter e surgiram durante o próprio processo de construção do roteiro. Em vez de funcionarem apenas como intervalos entre as cenas, as músicas foram pensadas como parte da dramaturgia.
“As músicas nasceram muito ligadas à própria construção da história. Conforme eu escrevia o roteiro, percebia de forma bastante intuitiva — até pela minha experiência trabalhando com teatro musical — quais eram os momentos em que a narrativa pedia uma música”, explica.
Cada composição cumpre uma função dentro da trama, seja para apresentar sentimentos e conflitos, marcar transformações dos personagens ou fazer a história avançar. “Como as canções foram criadas especificamente para o espetáculo, elas fazem parte da dramaturgia e não funcionam apenas como números musicais avulsos inseridos entre as cenas”, destaca.

O processo de composição, no entanto, não seguiu uma fórmula única. “Algumas músicas começaram pela letra, outras pela harmonia ou pela melodia. Algumas surgiram quase inteiras, de maneira muito intuitiva, enquanto outras exigiram bastante experimentação até chegarem ao resultado que eu queria”, conta.
Para o autor, essa construção simultânea ajudou a criar uma relação mais orgânica entre roteiro e trilha sonora. “As canções não foram adaptadas para caber na história; elas nasceram daquela história e daqueles personagens.”
Produção independente
Além de apresentar uma história inédita, “Entre Sonhos e Sonhos” representa uma aposta na produção artística local. O espetáculo foi desenvolvido de forma independente e sem patrocínio, reunindo cerca de 35 artistas no elenco e aproximadamente 20 profissionais na equipe técnica, além de estrutura de cenário, figurino, sonorização e iluminação.
Para Walter, colocar um musical original em cartaz em Brasília é um desafio que vai além da criação artística. “Produzir teatro musical profissional em Brasília já é, por si só, um desafio. A cidade tem artistas extremamente talentosos, mas ainda oferece poucas oportunidades profissionais, poucos espaços adequados e um mercado que dificilmente sustenta temporadas longas.”
A escolha por uma obra completamente autoral acrescenta outra camada ao desafio. “Quando o público vai assistir a um musical já consagrado, muitas vezes conhece o título, as músicas ou a história. Em uma obra autoral, existe sempre aquela dúvida inicial: ‘Será que é bom?’”, afirma.
Ainda assim, o diretor considera importante apostar em histórias que nascem na própria cidade. “Para mim, também existe algo muito importante em defender a criação original e mostrar que podemos produzir em Brasília histórias inéditas, músicas inéditas e personagens que não dependem de uma marca, de uma biografia ou de uma obra já conhecida para existir.”
A expectativa é que a montagem provoque identificação no público e faça com que cada espectador também reflita sobre as próprias escolhas. “Eu acredito que a arte serve para entreter, mas também para nos fazer refletir sobre questões importantes”, diz Walter.
“Eu espero que as pessoas saiam do teatro olhando um pouco para a própria vida. Que se perguntem se as escolhas que estão fazendo realmente têm relação com quem são e com aquilo que amam.”
Mais do que incentivar decisões impulsivas, a proposta, segundo o autor, é estimular uma reflexão sobre propósito e construção de trajetória. “Que saiam com mais coragem, confiança e disposição para construir o próprio caminho — não de forma impulsiva ou irresponsável, mas com presença, planejamento e a consciência de que a vida pode ser muito mais significativa quando estamos alinhados com aquilo que realmente faz sentido para nós.”
Serviço
Entre Sonhos e Sonhos – O Musical
Data: 19 e 20 de setembro de 2026
Local: Teatro UNIP – 913 Sul, Brasília/DF
Sessões: 15h e 19h
Ingressos: Sympla, a partir de R$ 50