O Centro Cultural Banco do Brasil Brasília recebe, até o próximo dia 14, o espetáculo “KINTSUGI, 100 memórias”, nova montagem do LUME Teatro. A obra integra as comemorações dos 40 anos do grupo paulista, fundado em 1985, e reúne em cena os atores Ana Cristina Colla, Jesser de Souza, Renato Ferracini e a brasiliense Raquel Scotti Hirson. A direção é do argentino Emilio García Wehbi, integrante do grupo El Periférico de Objetos, e a dramaturgia assinada por Pedro Kosovski.
Com uma estrutura autoficcional e fragmentária, o espetáculo articula memórias individuais, trajetórias coletivas e acontecimentos históricos para investigar como pessoas e grupos lidam com perdas, rupturas e processos de reconstrução. A montagem aproxima experiências íntimas e questões políticas, transitando por diferentes períodos da história recente do Brasil e pela própria trajetória do LUME Teatro.
A inspiração central vem do conceito japonês do kintsugi, técnica de restauração de cerâmicas quebradas que utiliza laca misturada a pó de ouro para unir os fragmentos. Mais do que um método artesanal, o procedimento carrega uma filosofia segundo a qual as marcas da quebra não devem ser escondidas, mas evidenciadas e valorizadas. A peça adota essa imagem como eixo dramatúrgico para refletir sobre as fissuras que atravessam indivíduos, comunidades e a própria sociedade brasileira.

A metáfora se materializa desde os primeiros momentos da encenação. Após um brinde realizado pelos atores, um vaso de cerâmica é quebrado no palco, gesto que desencadeia a reflexão proposta pela obra: o que fazer com os fragmentos do que se rompeu e como reconstruir sentidos a partir das partes dispersas. A partir dessa imagem, o espetáculo busca transformar cicatrizes e experiências traumáticas em elementos de fortalecimento e aprendizado.
Segundo o dramaturgo Pedro Kosovski, a montagem aponta para a possibilidade de reconstrução a partir das diferenças. “A peça propõe uma utopia do mover-se, não estagnar: a vida é movimento; nesse sentido, acontece a restauração do desejo de estarmos juntos na diferença.”
A pesquisa que deu origem ao espetáculo começou em torno da Doença de Alzheimer. O interesse do grupo foi despertado por informações sobre o povoado colombiano de Angostura, onde uma parcela significativa da população apresenta uma mutação genética associada a uma forma rara e precoce da enfermidade.

Em 2018, os integrantes do elenco passaram meses frequentando a ala neurológica do Hospital das Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), conversando com especialistas, familiares e pacientes diagnosticados com demência. A investigação, no entanto, ultrapassou os limites da dimensão médica e passou a explorar o esquecimento como fenômeno social e político.
De acordo com Renato Ferracini, o processo ocorreu em um período marcado por apagamentos históricos e irracionalidades políticas no país. A partir dessa percepção, o grupo passou a tratar o Alzheimer como uma metáfora capaz de lançar luz sobre diferentes formas de esquecimento, especialmente aquelas produzidas deliberadamente, seja no âmbito individual ou coletivo.
A pesquisa passou a abordar não apenas as lembranças perdidas pela doença, mas também as memórias que as pessoas preferem silenciar e os processos de apagamento histórico que podem ser utilizados como projetos políticos. O resultado é uma criação que investiga as relações entre lembrança, identidade e convivência social.

Para a atriz Raquel Scotti Hirson, o espetáculo convida o público a estabelecer uma relação direta com suas próprias experiências e histórias. “Eu acredito que o público leva consigo um desejo de revisitar suas próprias memórias, de resgatar memórias e objetos e talvez trazer isso também junto às suas pessoas mais próximas, à sua família. Às vezes não só uma memória pessoal, mas também uma memória de grupo, do seu convívio. Acho que leva um desejo de que a gente possa ter mais diálogo, menos violência”.
A atriz destaca ainda que a abordagem da memória pela perspectiva da perda representou uma mudança importante na trajetória de pesquisa do grupo. “Eu acho que aí foi uma chave muito diferente de tudo que a gente vinha pesquisando até então. E para atualizar essas memórias, essas memórias esquecidas, a gente começou a usar objetos, materialidades. Então isso também foi uma coisa muito nova e muito atrativa nesse trabalho, que veio como uma proposta do diretor.”
Serviço
KINTSUGI, 100 memórias – LUME Teatro
Quando: De 4 a 14 de junho de 2026
Horários: Quinta a sábado, às 20h, e domingos, às 18h. Na semana dos jogos da Copa, a sessão de sábado será transferida para quarta-feira, 10 de junho, às 15h.
Onde: Teatro do Centro Cultural Banco do Brasil Brasília
Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada) na bilheteria presencial ou pelo site