As fronteiras entre vítima e algoz, civilizado e selvagem, são colocadas em xeque em “O Motociclista no Globo da Morte”, monólogo estrelado por Eduardo Moscovis e dirigido por Rodrigo Portella. O espetáculo chega a Brasília para duas apresentações neste fim de semana no Teatro UNIP, com uma narrativa que acompanha a transformação de um homem aparentemente comum diante de uma situação extrema.
No centro da história está Antonio, personagem interpretado por Moscovis. O protagonista surge em cena para prestar um depoimento e, ao longo da narrativa, conduz o público por acontecimentos que colocam em dúvida os limites entre o comportamento cotidiano e a violência. Para o ator, a construção dessa trajetória é um dos principais desafios da montagem.
“Fazer um espetáculo solo é um grande desafio. Antonio a princípio é alguém que se parece comigo. Um sujeito atento, pacato, com hábitos rotineiros e avesso à violência. À medida que ele vai contando o que aconteceu, o público acompanha a evolução e percebe que as coisas estão começando a sair do ‘controle’”, afirma Moscovis.

A dramaturgia de Leonardo Netto parte de uma inquietação provocada pelo contato do autor com um vídeo de extrema violência visto em uma rede social. A experiência levou Netto a questionar não apenas o que leva uma pessoa a cometer um ato violento, mas também os mecanismos que fazem com que cenas desse tipo sejam registradas, compartilhadas e consumidas. A partir dessas questões, o texto também aborda o fascínio por figuras associadas à violência e a maneira como a internet contribui para sua exposição.
“A espetacularização, a romantização e a banalização da violência, potencializadas pela multiplicação de câmeras e pela internet, talvez nos tornem mais insensíveis a ela”, reflete o dramaturgo.
A própria elaboração do texto foi marcada pelo desconforto provocado pelo tema. Netto conta que escrever a peça foi uma forma de elaborar a experiência que o havia perturbado. O título, por sua vez, funciona como uma metáfora para a proximidade constante da catástrofe, associando a situação vivida pelo personagem ao movimento dos motociclistas dentro do globo da morte.

A montagem aposta em uma encenação minimalista, concebida por Portella para que a imaginação do espectador tenha papel central. Em vez de recorrer a elementos concretos para representar as situações narradas, a direção concentra a experiência teatral na relação entre o ator e a plateia.
“O espetáculo acontece na cabeça do espectador. Qualquer elemento concreto seria uma distração. O personagem constrói um discurso que se aproxima da literatura, convocando o público a imaginar. Temos, assim, uma relação íntima e direta entre ator e espectador, do início ao fim”, explica o diretor.
Para Moscovis, essa construção exige que o intérprete estabeleça uma relação de confiança com a plateia. O trabalho, segundo ele, passa por fazer com que a narrativa apresentada por Antonio seja recebida como algo possível e crível.
“O desafio foi dar credibilidade a essa história, fazer com que as pessoas acreditem”, diz Moscovis.
A construção do protagonista também é fundamental para a identificação do público. Antonio não é apresentado como uma figura distante ou excepcional, mas como alguém inserido em uma realidade cotidiana. Sua humanidade e seu caráter ético estão entre os elementos que tornam sua trajetória mais próxima do espectador.
“A humanidade está nele. Ele é um cara ético, decente, mas é totalmente envolvido por dois amigos sentados numa mesa próxima a dele”, afirma Moscovis.
A aproximação com o cotidiano é uma das chaves da montagem. A intenção é apresentar um acontecimento extraordinário em um ambiente ordinário, protagonizado por alguém que não se distingue inicialmente das pessoas que o cercam. A partir dessa perspectiva, a peça amplia a reflexão sobre como circunstâncias e relações podem interferir nas escolhas individuais.
Além da investigação sobre a violência, a montagem incorpora uma dimensão político-social ao abordar a polarização ideológica presente na sociedade brasileira. Sem estabelecer explicitamente lados ou posicionamentos, a peça utiliza a trajetória do personagem para lançar luz sobre tensões que atravessam o cotidiano.
“O Motociclista no Globo da Morte” acumula indicações ao Shell nas categorias de Melhor Dramaturgia e Melhor Iluminação e ao APTR por Melhor Ator e Dramaturgia. A passagem pela capital federal integra a circulação do espetáculo, que reúne no palco o trabalho de Moscovis com a direção de Portella e o texto de Netto.
Serviço
O Motociclista no Globo da Morte, com Eduardo Moscovis
Local: Teatro UNIP, SGAS 913 – Asa Sul
Data: 15 e 16 de agosto
Horários: sábado, às 20h; domingo, às 19h30
Ingressos pelo link
Não será permitida após o início do espetáculo.