O Teatro Sesc Paulo Gracindo, no Gama, recebe, no sábado (7) e domingo (8), o espetáculo “Simplesmente Eu, Clarice Lispector”, idealizado, dirigido e protagonizado por Beth Goulart. Em cartaz desde 2009, a montagem mergulha na vida, nos pensamentos e nas diferentes facetas de uma das escritoras mais importantes da literatura brasileira. As apresentações serão realizadas no sábado, às 19h, e no domingo, às 18h. A entrada é gratuita, mediante a doação de um quilo de alimento não perecível.
A temporada integra as comemorações dos 50 anos de carreira da atriz e marca seu reencontro com uma personagem que a acompanha há quase duas décadas. A relação de Beth com a escritora, no entanto, começou muito antes dos palcos. “Foram dois anos de pesquisa, seis meses de preparação, dois meses de ensaios e uma vida inteira dedicada à obra de Clarice Lispector. Sou uma clariceana típica, apaixonada por suas palavras e suas reflexões”, conta.
Dez anos de amadurecimento
Depois de seis anos consecutivos em cartaz, o espetáculo teve sua trajetória interrompida em 2014, após a morte do pai da atriz. Na sequência, Beth e a mãe trabalharam juntas em “Perdas e Ganhos”, baseado na obra de Lya Luft, projeto em que a artista assumiu a dramaturgia e a direção. A pandemia e, posteriormente, a morte da mãe contribuíram para prolongar o intervalo, que chegou a quase dez anos.
O período foi marcado por perdas e transformações pessoais que também repercutiram na maneira como Beth se relaciona com a personagem. Para ela, o tempo não alterou a estrutura da montagem, mas aprofundou sua compreensão sobre a escritora e sobre as questões que atravessam sua obra.
“Dez anos é um tempo bastante significativo em nossas vidas. Em uma década mudamos bastante, houve um amadurecimento interior. Vivenciei duas perdas nesse processo e acho que hoje estou ainda mais perto de Clarice por conta de um aprofundamento em mim mesma”, explica.
A atriz acredita que as experiências acumuladas ao longo desse intervalo trouxeram novas possibilidades à interpretação. “No espetáculo nada mudou em termos de texto, marcações e intenções, mas tudo mudou porque eu mudei. Nesse tempo de maturação e aprimoramento, ganhei novas camadas interpretativas, novas compreensões e entendimentos mais profundos sobre a vida e, consequentemente, sobre Clarice”, afirma.

O amor como fio condutor da montagem
Construído a partir de entrevistas, depoimentos e correspondências de Clarice Lispector, o espetáculo apresenta a escritora em diálogo com o público e também por meio de quatro personagens femininas que, na interpretação de Beth, representam diferentes facetas da autora. A narrativa percorre temas como criação, solidão, espiritualidade, vida e morte, tendo o amor como eixo central.
A escolha não foi por acaso. Para Beth, o sentimento ocupa um lugar fundamental na literatura de Clarice e representa uma possibilidade de transformação da humanidade. “Eu acredito que o amor é o sentimento mais presente na obra de Clarice. Ela também acredita que o amor é a única salvação para nossa humanidade. É através dele que podemos encontrar soluções mais justas, mais verdadeiras e equilibradas”, destaca.
A atriz também relaciona o amor a outras formas de expressão e convivência, como a generosidade, a compaixão, a solidariedade e o perdão. “É o sentimento-mãe de todos os outros bons sentimentos, como a generosidade, a compaixão, a solidariedade, a doação de quem somos em benefício do todo, e também nos ajuda com o perdão, que é o amor em dobro”, diz.
Transformar o universo subjetivo da escritora em uma experiência teatral é um dos principais desafios da montagem. Conhecida por explorar sentimentos, questionamentos e aspectos muitas vezes difíceis de traduzir em palavras, Clarice permite diferentes interpretações de sua obra. Beth, por sua vez, escolheu construir uma versão própria da autora, aproximando a personagem de suas experiências pessoais.
“No espetáculo apresento a minha Clarice, como eu a vejo, como a sinto, a enxergo, e, nesse sentido, o espetáculo também me revela, porque é através de meus sentimentos pessoais que me aproximo dela”, explica.
A identificação entre atriz e personagem aparece também nas questões que levam para a cena. “Falo da minha solidão, da minha angústia, das minhas escolhas, dos meus questionamentos através das palavras dela. Por isso é tão visceral e verdadeira a minha entrega”, completa.

Cenografia minimalista e encontro com diferentes gerações
A atmosfera da montagem acompanha a sutileza da obra de Clarice. Com cenografia minimalista e iluminação cuidadosamente desenhada, o palco ganha uma dimensão onírica, como uma página em branco preenchida pelas personagens, pelos movimentos e pelos sentimentos. A equipe artística reúne Alfredo Sertã, responsável pela trilha sonora original; Maneco Quinderé, pela iluminação; Márcia Rubin, pela direção de movimento; Ronald Teixeira e Leobruno Gama, pelo cenário; Beth Filipecki, pelo figurino; e Amir Haddad, pela supervisão do trabalho da atriz.
Ao longo de sua trajetória, “Simplesmente Eu, Clarice Lispector” recebeu diversos reconhecimentos, incluindo prêmios de Melhor Atriz para Beth Goulart no Shell, APTR, Revista Contigo e Qualidade Brasil. A chegada ao Gama também integra a proposta do Sesc-DF de descentralizar a programação cultural e ampliar o acesso às artes em diferentes regiões administrativas. Em 2026, a instituição já contabiliza mais de 45 mil espectadores em seus teatros.
Para Beth, levar a montagem a diferentes públicos é uma oportunidade de compartilhar o legado da escritora com novas gerações. “É importantíssimo dar acesso a todo tipo de público para a obra de Clarice Lispector, uma das autoras mais relevantes para a cultura brasileira, considerada uma das dez maiores escritoras do mundo, e que foi descoberta pelas novas gerações. Isso me dá uma enorme alegria”, afirma.
A atriz conta que a plateia reúne pessoas de diferentes idades, dos 8 aos 90 anos, e que cada espectador estabelece uma relação particular com a apresentação. A experiência, segundo ela, não depende de uma compreensão única da obra, mas da abertura para sentir e interpretar o que acontece em cena.
“O espetáculo é muito sensorial, cada um entende de acordo com sua capacidade de compreensão, e sua comunicação é imensa. Recebemos um público muito variado de todas as idades e cada um tem a sua própria visão do espetáculo”, observa.
Ao falar sobre o que espera despertar no público, Beth retoma uma das ideias que orientam a montagem: “É como Clarice nos diz: ‘a arte não se explica, se sente’. E todos podem e devem sentir Clarice.”
Simplesmente Eu, Clarice Lispector, com Beth Goulart
Local: Teatro Sesc Paulo Gracindo, no Gama
Datas e horários:
7 de novembro (sábado), às 19h
8 de novembro (domingo), às 18h
Entrada: gratuita, mediante doação de um quilo de alimento não perecível.
Ingressos: retirada a partir das 16h, na bilheteria do teatro, no mesmo dia da apresentação escolhida, sujeita à disponibilidade.