Alessandra Negrini estreia seu primeiro solo teatral com “A Árvore”, espetáculo que acompanha o percurso de uma mulher diante de uma transformação que começa de maneira aparentemente banal. Depois de ganhar uma pequena planta, A., personagem interpretada pela atriz, passa a viver uma experiência de estranhamento quando, ao limpar uma estante, percebe-se presa à planta por um fio de cabelo.
A partir desse episódio, a personagem entra em um processo de transformação que altera sua percepção sobre o próprio corpo, a realidade e a maneira como se relaciona com o mundo. Aos poucos, A. abandona a forma humana que conhecia e passa a narrar acontecimentos cotidianos e pensamentos que transitam entre o humor, o lirismo e a reflexão.
Com texto de Silvia Gomez e direção de Ester Laccava, a montagem chega para uma curta temporada no Teatro Unip, na 913 Sul, entre os dias até 30 de agosto. O espetáculo já passou por São Paulo, Recife, Fortaleza, São Luís, João Pessoa e Salvador.

Para Negrini, estar sozinha em cena amplia as exigências do trabalho do ator, mas não elimina a dimensão coletiva do teatro. “O monólogo é um processo mais solitário e exige um esforço físico e uma concentração muito grandes. Você está sozinha em cena, mas precisa estabelecer uma relação viva com o texto, com o espaço, com todos os elementos da encenação e, principalmente, com o público”, afirma.
Uma metamorfose que começa no corpo
Embora a transformação seja o eixo da narrativa, a construção de A. não parte de uma representação literal da mulher que se torna árvore. “A transformação de A. é sobretudo interna. Não buscamos fazer uma imitação literal de uma mulher virando árvore. A metamorfose passa pelo ritmo, pela respiração, pela voz e por pequenas alterações na maneira como o corpo ocupa o espaço”, conta Negrini.
Esse processo também coloca em questão a própria noção de identidade. A personagem é apresentada como alguém que encontra força justamente quando deixa de tentar preservar uma forma fixa de si mesma. Para a atriz, essa característica aproxima o percurso de A. do próprio ofício teatral. “Para uma atriz, isso é muito interessante porque nós também trabalhamos o tempo todo com a ideia de abandonar provisoriamente aquilo que somos para experimentar outras existências”, diz.
A mudança, portanto, não é apenas física. Conforme A. passa a perceber as limitações da realidade que conhecia, a relação com o próprio corpo também se modifica. O que antes parecia familiar torna-se estranho, enquanto novas possibilidades de existência começam a surgir.

Do cotidiano ao delírio
A origem da peça está em uma situação real vivenciada por Silvia Gomez. O primeiro monólogo escrito pela dramaturga nasceu de uma imagem simples: um fio de cabelo preso a uma planta. A cena cotidiana acabou desencadeando a construção ficcional que deu origem ao espetáculo.
“Um dia, regando uma planta na estante, vi um fio do meu cabelo preso a ela. Pedi para meu filho fotografar e transformei o episódio em textos”, relata Gomez. Na dramaturgia, o episódio passa a funcionar como o ponto de partida para uma experiência de metamorfose.
A autora vê o delírio não como uma ruptura arbitrária com a realidade, mas como uma forma de enxergar aquilo que normalmente permanece oculto. “As personagens, que escrevo são essas, que, de repente, olham para a realidade, mas não cabem mais nela, adentrando um espaço de delírio que, para mim, é, na verdade, de extrema lucidez”, afirma.
A partir dessa perspectiva, a experiência de A. permite que questões do cotidiano sejam deslocadas para um campo simbólico. O encontro com a planta deixa de ser apenas um acontecimento curioso e passa a desencadear perguntas sobre a maneira como a personagem vive e sobre aquilo que já não consegue sustentar.
Negrini identifica nessa passagem uma das forças da montagem. “O que me atrai é justamente a possibilidade de uma coisa muito pequena abrir uma fissura enorme na realidade. Um fio de cabelo preso a uma planta dispara uma transformação radical”, afirma.

Natureza, crise e transformação
Ao longo da peça, a metamorfose de A. também se relaciona com a distância entre a vida humana e o mundo natural. A personagem começa a questionar os limites da chamada vida civilizada e a ideia de que a humanidade possa existir separada das demais formas de vida.
Para Negrini, essa dimensão aproxima o espetáculo de questões presentes no cotidiano. “Acho que a peça dialoga muito com o nosso tempo porque as formas que construímos para viver já não parecem capazes de responder às crises que estamos enfrentando”, avalia.
A atriz relaciona esse desconforto não apenas à crise ambiental, mas também a uma crise na própria compreensão sobre o que significa ser humano. Nesse sentido, a árvore deixa de ser apenas o destino da metamorfose e passa a representar a possibilidade de uma relação diferente com a existência.
“Talvez precisemos aprender com outras formas de vida, perceber que não estamos separados da natureza e aceitar que certas transformações já se tornaram inevitáveis”, afirma.
A proposta também aparece na própria concepção de Gomez sobre suas personagens. Segundo a dramaturga, elas atravessam momentos em que a realidade deixa de oferecer respostas suficientes e precisam encontrar outras maneiras de interpretá-la. O resultado é uma dramaturgia que explora as brechas entre o que é reconhecível e aquilo que ainda não pode ser totalmente nomeado.
Uma história de amor
Apesar da dimensão de estranhamento e das angústias que atravessam a personagem, “A Árvore” não se limita a uma narrativa sobre perda ou ruptura. A transformação também abre espaço para alegria, desejo e descoberta.
Negrini vê na trajetória de A. uma possibilidade de reconciliação com aquilo que foi deixado de lado. “Há angústia nesse processo, mas também há alegria e desejo. A ideia de virar uma árvore começa a parecer bela, necessária e inevitável”, afirma.
A relação com a natureza, nesse sentido, não é apresentada apenas como uma questão externa à personagem. Trata-se de uma experiência que modifica sua percepção sobre si mesma e sobre as formas possíveis de existir.

“A Árvore é um relato, um relato de amor”, define a atriz, retomando uma das ideias centrais da montagem: a transformação como experiência íntima, capaz de deslocar certezas e abrir espaço para outra forma de relação com a vida.
Serviço
A Árvore — com Alessandra Negrini
Data: 27 a 30 de agosto
Horários: quinta a sábado, às 20h; domingo, às 19h
Local: Teatro Unip — 913 Sul, Brasília (DF)
Ingressos: a partir de R$ 25 no Sympla