Nesses 66 anos de Brasília, completados ontem, o JBr celebra quem enxergou – quando ninguém mais viu – espaço para a arte dentro do quadradinho. Depois de mergulhar em belas histórias dos pioneiros das artes plásticas e da literatura, a reportagem mostra como o teatro transforma vidas, principalmente a de quem vive dele.
A Companhia Teatral Mapati, inaugurada em 1990, já pode ser considerada um patrimônio da capital. À frente do espaço, a atriz e idealizadora do teatro, Tereza Padilha, 70 anos, transformou a dor pela perda do filho – vítima de meningite – em amor pela arte. “Na época em que o Thiago, que foi meu último filho, nos deixou, foi para mim uma das piores dores até hoje, uma das piores lembranças, uma dor muito forte. Mas essa dor se transformou em quê? Na arte, no teatro, na dança, na música, e é isso que a gente faz aqui até hoje.”

O nome do teatro surge também em homenagem a Tiago, real motivo para a criação do espaço, além das duas outras filhas – Mariana e Patrícia. “Ma é de Mariana, pa de Patrícia e ti de Tiago”, explica Tereza. Na busca por um local para construir o teatro, Tereza, junto com seu esposo, encontrou uma casa na SHCGN 707 Norte que veio a se tornar a sede do Mapati – em funcionamento no endereço até hoje.
A paixão pela arte nasceu no coração de Tereza muito antes de chegar a Brasília, quando ainda morava no Rio de Janeiro – onde nasceu. “Eu lembro que eu ia para o Ginásio Português, lá no Rio de Janeiro, e eu ficava observando os artistas, os atores profissionais em cena, e aquilo, de alguma forma, me tocava muito. Eu achava aquilo uma das coisas mais fabulosas de se fazer. Trabalhar outras personalidades dentro de você era o que mais me fascinava”, recorda.
Com 16 anos, em 1972, Tereza deixou sua cidade natal e, junto com a família, partiu para a nova capital do país. “Brasília não tinha absolutamente nada. Tudo estava iniciando. Estava nascendo aquele bebezinho [Brasília], e aí eu comecei a observar como a cidade era interessante, com aquela terra vermelha. Era tudo muito simples, mas muito bonito e tinha muito significado. Então, Brasília, logo no início, me encantou. E eu falei: ‘É aqui que eu quero ficar’, e estou até hoje, há bastante tempo; me casei e criei meus filhos.”

São 36 anos de existência do Mapati, por onde já passaram grandes artistas nacionais e locais. A atriz Rosanne Mulholland – conhecida pelo papel da professora Helena na novela Carrossel, do SBT – é um deles. “Hoje eu tenho vários artistas que fazem arte e começaram aqui. Eu fico muito feliz de saber que tanta gente passou por aqui e tanta gente conseguiu desenvolver o trabalho na arte”, ressalta Tereza.
Com tantas histórias já contadas – e muitas ainda para serem encenadas –, o Mapati segue com as portas abertas para o público e para futuros artistas. “Com certeza, eu quero manter esse espaço sempre aberto para a população, porque ele não se torna mais meu. Ele é de Brasília. Ele é um legado, ele está aqui, é resistência.”
Para Tereza, a arte é mais do que entretenimento: é saúde. A atriz reforça a importância de se investir na cultura, seja por parte de recursos públicos ou privados. Como ela diz, fechar espaços culturais deveria ser um crime. “A arte é o SUS. É o SUS da cultura, é o SUS que não pode parar. Não podemos deixar nenhum espaço [de cultura] morrer.”
Mais do que celebrar Brasília nesses 66 anos, Tereza convida os brasilienses a se lembrarem – e investirem – nos espaços de cultura da capital. “É um momento de celebração dos artistas. E, principalmente, o governo precisa apoiar os artistas, para que eles possam, de alguma forma, mostrar o que a gente sabe fazer de melhor.”

Néia e Nando Cia Teatral
Também do Rio de Janeiro, os criadores da Néia e Nando Cia Teatral, Néia Paz e Nando Villardo, encontraram em Brasília espaço para a arte. O casal chegou à capital em 1996 e, por falta de espaços dedicados ao teatro infantil, decidiu criar, no mesmo ano, a atual companhia – uma das mais antigas dedicadas às crianças ainda em atuação no Distrito Federal.
Com 30 anos de existência – completados amanhã, 23 de abril –, a Cia começou pela vontade de Néia, que desejava trabalhar com algo que realmente deixasse o casal feliz. “A Cia surgiu em um momento em que não havia companhias dedicadas aos espetáculos infantis em Brasília, assim como também não havia público acostumado a assistir a espetáculos feitos na cidade, apenas aos que vinham de fora”, recorda Nando.
Uma das maiores dificuldades enfrentadas pela Cia no início foi a consolidação do público, já nos dias atuais são os patrocínios. “O maior desafio foi a formação de plateia, formação do nosso público, e os maiores problemas vividos hoje são a falta de credibilidade dos empresários locais em patrocinar as Cias da cidade”, lamenta.

Como toda companhia teatral consolidada, Néia e Nando é um espaço de aprendizado. “Costumamos dizer que a Cia é um grande aeroporto, onde as pessoas pousam para se enriquecerem de conhecimentos e experiência e depois levantam voo para o mercado de trabalho”, ressalta Nando. É motivo de orgulho para os criadores o fato de terem conseguido conquistar um público fiel. “Criamos o hábito de as famílias levarem seus filhos para ver um espetáculo infantil, pelo menos de 15 em 15 dias; isso é satisfatório”, celebra Néia.
Com tantos anos de atuação em Brasília, Néia pode dizer que o maior legado que a Cia deixa para os brasilienses é o entretenimento de qualidade e o comprometimento de dar manutenção ao sonho e à fantasia infantil. “Nosso desejo é que as famílias ensinem e habituem seus filhos a consumir arte, pois nossa cidade respira arte em todas as suas modalidades.”

Nossa série não para por aqui. Confira amanhã histórias encantadoras sobre os pioneiros do cinema de Brasília.