Pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) desenvolveram uma pesquisa inédita em que mapearam os animais do Cerrado, no Planalto Central e em fragmentos no Nordeste brasileiro. Por cerca de três anos, os estudiosos, além de explorar a região e colecionar as diversas espécies de animais que encontraram – entre aranhas, insetos, mamíferos e pássaros – também promoveram um levantamento de documentos históricos dos séculos XVIII e XIX. A pesquisa faz parte do livro “Primeiro Inventário da Fauna e Flora e recursos naturais do Cerrado e Pantanal”.
Antigamente, devido às características do desenvolvimento do Brasil, os pesquisadores se concentravam na região litorânea do país e, portanto, conheciam menos o Planalto Central. Por este motivo, o estudo da história dos biomas se torna importante para suprir lacunas de conhecimento sobre os biomas, conforme explicou o coordenador do projeto Fauna do Bioma Cerrado: passado, presente e futuro, o zoólogo e taxonomista José Roberto Pujol Luz. “Depois desse trabalho, o fator histórico deu uma guinada no relógio de exploração do Cerrado de quase 12 anos”, explicou o professor.
O inventário começou com a descoberta de um manuscrito do século XVIII, encontrado na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e, outra parte, no Instituto Histórico e Geográfico do Brasil (Rio de Janeiro). O autor, o brasileiro José Barbosa de Sáa, fez um inventário de Mata Atlântica, Cerrado e Pantanal, por volta dos anos de 1700. O livro também traz fatos descritos durante a Missão Cruls, realizada no Planalto Central entre 1892 e 1893, para demarcação da nova capital federal.
De acordo com Pujol, a vantagem é que o estudo possibilita uma perspectiva do que pode ser feito, utilizando o conhecimento atual e do passado. “Qualquer predição que você faça, ou política governamental que preveja como, por exemplo, a implantação de áreas de conservação, é feita com base em estudos no passado (tanto histórico, como evolutivos)”, explicou. Pujol considera que com essa pesquisa, “já é possível traçar uma linha entre passado, presente e futuro sobre a diversidade das espécies”.
Um exemplo é o caso da grande quantidade de cigarras existentes em Brasília e que estão na região desde antes da construção da Capital. “São muitas e podem até incomodar, mas porque nós estamos aqui, no lugar que é delas”, conta o professor.
Outro caso interessante, que poderia ser prevenido por meio de um estudo sobre o Cerrado, ocorreu em 2004,
quando uma árvore caiu em cima de um carro com uma mulher e três crianças, na região central de Brasília (DF), na Asa Sul. Pujol, que fez parte dos estudos forenses sobre o evento, contou que o fenômeno aconteceu porque besouros do cerrado invadiram uma árvore que não era típica da vegetação local. Quando teve conhecimento da situação, o Governo do Distrito Federal (GDF) retirou as árvores e passou a estimular que as pessoas plantassem outras típicas do Cerrado. “Para alguns são árvores feias porque são tortas, mas são do nosso bioma. A flora e a fauna estão associadas”, argumenta o professor.
Livros – Outra vertente do projeto é o estudo do presente, que concentrou os esforços na catalogação das espécies encontradas no bioma, com a qual os participantes conseguiram novos inventários entre os grupos pesquisados. “Uma criança, aqui (em Brasília), conhece a fauna do cerrado muito bem, só que não desenvolvemos do ponto de vista científico. No momento em que a gente publica essas informações em forma de livros, isso dá acesso ao conhecimento”, conta o zoólogo.
Esta parte da pesquisa permitiu a publicação da Série de Manuais e Guias de animais do Cerrado, pela Editora Technical Books. Os livros fazem uma síntese com características, da dieta, da abundância e da distribuição dos animais encontrados durante as expedições.
A coleção possui, até o momento, dois livros publicados: Aracnídeos do Cerrado, escrito por Paulo César Mota, e Lagartas do Cerrado, da autora Ivone Diniz. “Não existe no Brasil nenhum livro como este, com lagartas de um bioma”, ressalta o taxonomista. Já o levantamento da artropodofauna – aqueles que possuem esqueleto externo ao corpo, com os grupos de insetos e aracnídeos – nunca tinha sido feito com este objetivo no Cerrado.
O terceiro livro da série, Cupins do Cerrado, de autoria do professor Reginaldo Constantino, será lançado em setembro, durante o 25º Congresso Brasileiro de Entomologia, em Goiânia (GO).
O Projeto – A pesquisa recebeu 1,7 milhões da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF), por meio do Programa de Apoio a Núcleos de Excelência, em parceria com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Ao todo, 10 pesquisadores e cerca de 80 pessoas estiveram envolvidos no projeto. “Nós tivemos pelo menos, umas 30 teses de mestrado e doutorado defendidas durante o projeto, e tantas outras estão sendo preparadas. Além de mais de uma centena de artigos, entre inventários, descrições de novas espécies, análises evolutivas e ecológicas”, calcula o coordenador.
Informações: Ascom FAPDF – (61) 3462-8898, 9534-1384 ou imprensa.fapdf@gmail.com