Clara Camarano
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Artistas locais e nacionais, fornecedores e produtores culturais de Brasília encerram o ano de 2014 preocupados com o desfecho de uma dívida que, segundo eles, chega a mais de R$ 40 milhões, contraída pela Secretaria de Cultura do Distrito Federal com a categoria. O GDF marcou uma reunião com representantes das secretarias de Cultura e da Fazenda para tentar solucionar a questão e acena para o pagamento parcelado da conta.
O fato é que eventos tradicionais na cidade, como o Satélite 061, Porão do Rock, Latinidades, Soul Brasília Festival, Green Move Festival, Brasília Moto Capital, Quinta Cultural do Açougue T-Bone, dentre outros tantos, aguardam o pagamento do GDF, que prometeu patrocinar várias apresentações gratuitas e de preço popular em 2014.
De acordo com a classe, o atraso nos pagamentos dos cachês pela participação nos eventos já dura nove meses e se expande para todas as esferas. Vários produtores, bandas e fornecedores não receberam dinheiro, nem posicionamento do GDF. O sentimento é de indignação e de desprestígio.
Metade do cachê
Coordenadora do festival Latinidades, Jaqueline Fernandes trouxe em julho à capital nomes como Elza Soares, Naná Vasconcelos e Mart’nália. Mas só conseguiu pagar metade do cachê dos artistas. Segundo ela, a dívida do evento é de cerca de R$ 400 mil. “O pior é não saber quando a Secretaria de Cultura vai liberar o pagamento. Eles não dão nenhuma previsão. É uma burocracia, um empurra-empurra e um desrespeito com a classe artística”, destaca, revoltada.
Quem trabalhou no Porão do Rock, em agosto, também saiu com o bolso vazio. O produtor-executivo do evento, Gustavo Sá, informou que o governo deve, pelo menos, R$ 1,5 milhão para os organizadores – que vão repassar a verba para os artistas e fornecedores.
Valor real
Coordenadora de Recursos Humanos do Porão do Rock, Sílvia Letícia de Souza explica que apenas as bandas nacionais receberam. Mesmo assim, só ganharam 50% do valor. “Os Raimundos e várias bandas locais não receberam nada. O atraso vai repercutir de forma negativa na realização de eventos na cidade”, lamenta.
Segundo Sílvia, o prazo para pagamento do valor total de qualquer apresentação deve se estender por no máximo 30 dias. “A Secretaria de Cultura emite uma nota de empenho. Mas se eles prendem o valor, seja pelo motivo que for, os produtores são obrigados a tirar do próprio bolso”. E completa: “o calote de R$ 41 milhões é real. Conseguimos saber o valor acessando a própria planilha de débitos da Secretaria”, frisa.
O percussionista da banda brasiliense Surf Sessions, Renato Azambuja, também reclama. “Não recebemos cachê quando tocamos no Moto Capital. Já nos devem R$ 14 mil. Tivemos que tirar do bolso para pagar os técnicos que ajudam na montagem dos shows”, revela.
Reunião agendada para o dia 11
Vocalista e guitarrista da banda brasiliense Raimundos, Digão está revoltado com os caminhos da cultura no DF. Ele afirma que o débito da Secretaria de Cultura com a banda vem desde 2010, quando o grupo participou de uma Virada Cultural em frente ao Teatro Nacional. “Não nos pagaram. Somos reconhecidos lá fora, mas não na nossa própria cidade. A burocracia é tanta que desanimamos de ir atrás. É um compromisso deles, poxa”. A banda também não recebeu o cachê pela apresentação na última edição do Porão do Rock.
O outro lado da moeda
Reunidos em manifestação na última terça, em frente ao Palácio do Buriti, os artistas conseguiram agendar uma reunião com representantes da Secretaria de Cultura e da Secretaria da Fazenda do GDF para o dia 11 de novembro.
Procurada pelo JBr, a Secretaria de Cultura explicou que espera a liberação de recursos da Secretaria da Fazenda para efetuar o pagamento. A previsão é de que as verbas sejam todas quitadas, porém divididas em parcelas.
Versão oficial
Apesar de assumir a função de arrecadar, administrar e pagar as contas dos eventos, a Secretaria de Fazenda do Distrito Federal informou em nota que “não é responsável pela decisão de quem e quando pagar, até mesmo porque há diversas situações a serem observadas, como previsão orçamentária da despesa, caixa etc”.