Sabe aquele tipo de filme que nasce menos da vontade de contar uma história e mais dá saudade de quem a assistiu pela primeira vez. Se Eu Fosse Você 3 pertence a essa linhagem. Duas décadas depois de Cláudio e Helena acordarem um no corpo do outro e arrastarem multidões para as salas, a franquia volta com a promessa de reunir velhos conhecidos do público. O convite é sedutor, mas quem compra o ingresso esperando rever o casal no centro da confusão vai descobrir que a festa mudou de anfitrião.
A troca agora acontece entre Bia, a filha do casal, e Aquiles, o companheiro dela, interpretados por Cléo Pires e Rafael Infante. A dupla se esforça e entrega personagens com mais camadas do que os tipos caricatos dos filmes anteriores. Bia e Aquiles oscilam entre dureza e fragilidade, entre o orgulho e o romantismo, e isso dá a eles alguma espessura. O problema é que cada aparição de Tony Ramos e Glória Pires funciona como um lembrete incômodo do que fazia a franquia brilhar, uma química construída em anos de parceria na televisão e que nenhum roteiro consegue fabricar do zero.

Vale lembrar o peso histórico da marca. Nos anos 2000, quando o cinema nacional ainda reaprendia a conversar com o grande público, os longas dirigidos por Daniel Filho abriram caminho para um modelo de comédia em série que muitos tentariam copiar. Naquele contexto, a fórmula era quase um ato de afirmação de mercado. O tempo, porém, cobra atualização, e o novo filme parece ignorar que o público e a própria indústria andaram bastante desde então.
A direção de Anita Barbosa opta pelo caminho mais seguro em quase todas as decisões. A câmera registra as situações sem buscar ângulos que valorizem o humor físico, justamente o elemento que sustenta uma comédia de troca de corpos. Quando o riso depende de um gesto desajeitado ou de uma postura fora do lugar, a encenação precisa deixar o ator brilhar, e aqui a sensação é de que tudo foi filmado com pressa de chegar à próxima cena.
O roteiro assinado por Leandro Soares segue a cartilha conhecida. As situações de constrangimento, os mal entendidos no trabalho e as descobertas sobre o universo do outro aparecem na ordem esperada, quase como um checklist. A graça de ver um homem tentando se equilibrar no salto ou uma mulher descobrindo os códigos de um vestiário masculino já rendeu muito riso em 2006, mas hoje soa como reprise de uma piada que todo mundo sabe o final.

O humor também envelheceu mal em alguns pontos. Parte das piadas se apoia em diferenças entre homens e mulheres que já soavam batidas há vinte anos e hoje parecem ainda mais distantes da plateia jovem que o filme tenta conquistar ao trocar os protagonistas. A renovação do elenco pedia uma renovação também no olhar, algo que o longa promete na escalação, mas não entrega nas situações.
Ainda assim, seria injusto negar que o longa cumpre uma função. Para quem busca uma sessão leve, sem grandes exigências, e tem carinho pelos personagens originais, há momentos de reconhecimento afetivo que funcionam. Os breves encontros com Cláudio e Helena arrancam sorrisos, e a premissa da troca de corpos continua tendo um apelo universal que atravessa gerações.
Conclusão
Por fim, Se Eu Fosse Você 3 se apoia mais na memória do que na própria força. Num mercado em que o cinema nacional disputa espaço com heróis de capa, épicos milionários e uma enxurrada de continuações estrangeiras, oferecer apenas nostalgia embalada às pressas é pouco. O filme lembra por que a franquia foi importante, mas também mostra que o tempo passou para ela de um jeito que nem uma troca de corpos consegue desfazer.
Confira o trailer:
Ficha Técnica
Direção: Anita Barbosa;
Roteiro: Leandro Soares;
Elenco: Glória Pires, Tony Ramos, Cleo Pires, Rafael Infante, Paulo Rocha, Rosi Campos, Dan Ferreira, Yohama Eshima;
Gênero: Comédia dramática, Comédia romântica;
Duração: 119 minutos;
Distribuição: Buena Vista International;
Classificação indicativa: 12 anos;