João Rodrigues
Especial para o Jornal de Brasília
Imagine uma realidade onde a sociedade foi tomada por forças totalitárias, com a humanidade subjugada pela violência e intolerância. Esse cenário catastrófico é tecido de diferentes maneiras no cinema, na literatura, séries de TV e quadrinhos que abordam distopias. O novo Mad Max: Estrada da Fúria, em cartaz nos cinemas, resgata o universo distópico criado nos anos 1980 por George Miller, que traduz a desesperança em um futuro árido, governado por um tirano.
Também chamada de antiutopia, trata-se de uma filosofia usada por autores de ficção, na qual retratam uma sociedade “maldita”. A representação das distopias é rentável há tempos, e, na atual configuraração da indústria cultural, o cinema e a literatura têm se unido para gerar franquias bilionárias. É o caso de Jogos Vorazes, Divergente e Cidade dos Ossos.
Segundo Alessandra J. Gelman Ruiz, representante da editora Gutenberg, o público leitor é, em geral, adolescente e já possui o ímpeto de questionar o status quo. “O questionamento que a distopia faz é parte do próprio questionamento dessa fase da nossa vida”, analisa. “Ela faz uma crítica à sociedade, mostrando um futuro imaginado ou uma realidade paralela terrível, em que a civilização entrou em colapso, geralmente porque as regras sociais foram corroídas por um controle autoritário.”
Esperança
No entanto, na fórmula seguida por esses títulos, há lugar para a esperança. “Há um herói ou heroína jovem, que encontra uma nova ordem, e muda o mundo”, completa Alessandra.
A vendedora Renata Losilla, 29 anos, assistiu a Jogos Vorazes e, apesar de não ter aprovado a adaptação cinematográfica, resolveu dar uma chance aos livros. Para ela, os personagens se destacam: “O que me atrai na história não é tanto os valores distorcidos. Gosto dos personagens, pelo fato deles superarem qualquer coisa que acontece”, explica.
A estudante de jornalismo Jaqueline Chaves, 21 anos, leu os quatro livros da série Divergente. A temática política é o que mais lhe interessa na série de Suzanne Collins. “Eu gosto porque tem um cunho político forte, com o tema da segregação. E também é uma crítica contra o nosso sistema.”
Em busca da sensação de suspense
A professora especialista em Cultura Contemporânea da UnB Tânia Montoro explica que os fãs gostam da sensação de suspense, mas apenas como se fosse uma brincadeira: “Eles precisam de adrenalina. Não uma real, apenas uma no nível sensitivo”.
ogos Vorazes – A Esperança Parte 2 está previsto para estrear em novembro e concluirá a adaptação dos livros da série Jogos Vorazes . É o fim das aventuras da jovem Katniss Everdeen (vivida nas telas pela atriz Jennifer Lawrence) em Panem.
Na trama, o país é dominado pela cidade Capital, que realiza anualmente jogos onde jovens devem lutar até a morte em uma arena até sobrar apenas um vencedor. Tudo com uma cobertura televisiva para todo o mundo.
Em março deste ano, Insurgente, filme baseado no segundo livro da trilogia Divergente, estreou com os atores Shailene Woodley e Theo James como Tris Prior e Tobias Quatro. A trilogia literária é composta por Divergente, Insurgente e Convergente e ainda conta com Quatro – Histórias da Série Divergente, um spin-off com histórias extras contadas pelo personagem Tobias. No Brasil, os livros são publicados pela editora Rocco e já venderam mais de 250 mil exemplares.
Best-sellers cinematográficos
Obras com essa temática parecem dominar listas de best-sellers para um dia alcançar o cinema. Uma delas é Memória Da Água, da finlandesa Emmi Itäranta. Na trama, a Europa foi dominada pela China e a água, escassa nesse novo mundo, passou a ser controlada pelos militares. Noria, uma jovem de 17 anos, está treinando para ser uma mestre de chá – alguém capaz de localizar fontes naturais de água. A moça não sabe se apenas cumpre com sua tarefa ou ajuda a população sem água. O livro chega pelo Grupo Editorial Record.
Já em A Ameaça Invísivel (da brasiliense Bárbara Morais), Sybil continua as aventuras iniciadas em A Ilha dos Dissidentes. Após viver a guerra entre as nações União e Império do Sol, a moça descobre que é um dos anômalos, grupo de pessoas que possui mutações genéticas.
A editora Gutenberg lança Marcados, primeiro capítulo da trilogia da americana Caragh M. O´Brien. A obra, premiada pela Young Adult Library Services Association, fala de uma ditadura futurística que divide a sociedade em uma muralha.
Ficção científica repaginada
No primeiro capítulo da saga de Mad Max, gravado em 1979, Mel Gibson vivia Max Rockatansky, um policial decadente em uma Austrália arrasada no futuro, infestada por gangues de motociclistas. Após perder a família, ele se confronta com a gangue controlada por Toecutter (Hugh Keays-Byrne). Duas continuações foram feitas: Mad Max 2 (1981) e Mad Max – Beyond Thunderdome (1985). No novo Mad Max: Estrada da Fúria, ator Tom Hardy vive o personagem de Gibson, que tem de atravessar o deserto pós-apocalíptico a bordo do veículo militar da Imperatriz Furiosa.
Replicantes
Escrito em 1968, O Caçador de Andróides, do americano Philip K. Dick, deu origem ao filme Blade Runner – O Caçador de Andróides, estrelado por Harrison Ford. Em 2019, Los Angeles é uma cidade poluída que busca colonizar outros planetas devido à iminente ruína da civilização humana.
Para o processo de colonização, os humanos deixam as tarefas desagradáveis para os replicantes, seres geneticamente alterados. Mas após um motim, a existência deles na Terra passa a ser proibida. Ford é Deckard, um ex-caçador dessas criaturas, que volta à ativa para caçar um grupo deles que apenas busca a sobrevivência.
Outro clássico da distopia é Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley. No futuro imaginado pelo autor, as pessoas são condicionadas biologicamente e psicologicamente a aceitarem um pensamento único para viverem em paz. Para eliminar qualquer dúvida que pode ameaçar essa estabilidade, os jovens são ensinados a tomar uma droga chamada “soma”. A obra foi lançada em 1932 e ganhou duas adaptações para a televisão, uma em 1980 e outra em 1998.