A fachada humilde, perdida entre inúmeros prédios quase iguais, poderia ser apenas mais uma oficina mecânica, mas é a Oficina mecânica do Perdiz, que após anos adormecida, ressurge escancarando suas portas para o teatro brasiliense.
Criado em 1969, o teatro ganhou projeção internacional a partir do documentário de Marcelo Díaz, que mostra a história do local, que nos anos 90 foi símbolo do teatro da cidade e emblemático espaço de expressão cultural, mas que seria fechado em 2009, causando comoção na classe artística.
Para a retomada, após a reinauguração, o espetáculo escolhido foi “Upside Down”, em que os atores Bruno Estrela, Du Oliveira e Lilian França se desdobram em sensações intensas para contar uma história incomum.
O texto nasceu da parceria entre Bruno Estrela e Du Oliveira e conta a trajetória de Santiago, o pacato proprietário de uma locadora de filmes em VHS, que vê sua vida cruzar com a de Benicio, um matador implacável, e de Beverly, uma cantora fracassada. Juntos, eles terão que enfrentar uma situação um tanto quanto surreal: todas as pessoas do mundo parecem ter, misteriosamente, desaparecido. “De alguma maneira, os três personagens têm uma vida muito marcada pelos fracassos e quando eles se percebem como últimos representantes da raça humana no planeta, surge um incômodo por não saber exatamente o que fazer. Ao mesmo tempo, aparece também uma espécie de felicidade profunda, pois eles passam a se sentir importantes”, explica Bruno.
Apesar da premissa quase apocalíptica, o pano de fundo da trama também serve como base para explorar os dramas pessoais de cada personagem, mostrando ao público fragmentos dos caminhos dos três até o momento em que se encontram. Durante a encenação, peculiaridades e segredos aparecem na narrativa, trazendo uma dimensão sensível e humana para o espetáculo.
Para Lilian França, a volta ao palco da Oficina tem um sabor especial. “A Oficina do Perdiz já é um ícone do teatro de Brasília. Tive a oportunidade de me apresentar no antigo espaço e é honroso participar da reinauguração”. Segundo a atriz, o caminho para a construção da peça, que teve início em junho, foi desafiador, pois reuniu três atores com experiências muito distintas e, por isso, o processo de troca foi rico, se desdobrando em uma montagem dinâmica, ágil e surpreendente. “O texto lança uma visão curiosa acerca das relações humanas e como elas se mantêm diante do caos. Durante os ensaios, isso se concretizou até na marcação das nossas cenas, que surgiram de improviso”, detalha a Lilian.
Apesar de ressaltar que encara o trabalho de forma despretensiosa, Bruno Estrela não esconde a expectativa de propor algum tipo de debate sobre o vazio existencial de uma geração que se vê impotente diante das mudanças bruscas e aceleradas que vivencia. “A peça fala de um mundo que parece estar de cabeça para baixo, e o mais assustador é que quando três pessoas têm a oportunidade de mudar todas as regras e recomeçar de uma maneira mais justa, ética e tolerante, elas não têm a menor ideia do que fazer”, encerra o dramaturgo.
A trilha sonora é de Victorugo. Carregada de elementos eletrônicos sem, no entanto, abrir mão da melodia poética exigida pela história, ela será executada ao vivo, ditando o ritmo e as sensações propostas pelo texto.
Silvia Mello, além de estar na produção de Upside Down, assina os figurinos e a cenografia em um trabalho criterioso, concebido e executado a partir de referências cinematográficas e do universo surreal proposto pela fantasia. Não à toa, a foto escolhida para o cartaz reconstrói a clássica imagem que marcou o filme “Um cão andaluz”, de Luis Buñuel e Salvador Dalí. A reprodução, assinada pelo fotografo Thiago Milreu, parece ser a premissa de que algo incômodo está prestes a acontecer entre as ferragens do subsolo de uma oficina criada para consertar automóveis, mas que, ao cair das noites de dezembro, servirá de espaço para a expressão de alguns dos inúmeros artistas de teatro da capital federal.
Serviço
Data: 4, 5, 6, 11, 12 e 13 de dezembro
Hora:
Local: Teatro Oficina Aprendiz – 710 Norte, Bloco E, loja 48, Brasília- DF
Ingressos: R$20,00 (inteira) e 10,00 (meia)
Informações: (61(-96780440