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Profissão de dublê é arriscada e precisa de mais reconhecimento

Arquivo Geral

17/06/2014 8h30

Eles se atiram de viadutos e prédios de diferentes alturas, são atropelados, dirigem aeronaves e são praticamente onipresentes em cenas de tiro e explosão, tanto nas telinhas como na tela grande. Apesar de se dedicarem de corpo e alma e serem responsáveis pela concretização de filmes, novelas, comerciais e qualquer outra produção que envolva cenas de riscos, os dublês ainda são pouco valorizados no mercado brasileiro.

“Por detrás de um ator, há sempre um dublê contratado para fazer as tomadas de alto risco. Eles são essenciais para a viabilização de uma produção”, afirma o diretor de cinema brasiliense Iberê Carvalho, sócio da produtora Pavirada.

Diretor de nove curtas-metragens e do longa O Último Cine Drive-In, Iberê destaca a importância dos profissionais que participaram ativamente em seus filmes e que foram fundamentais para a concretização de cenas que envolviam riscos, ausência de um ator e restrições por parte dos artistas. “Os dublês são parte da essência do filme e substituem os atores em milhares de situações. Além das cenas de alto risco, são usados quando uma atriz não quer mostrar partes do corpo ou até para substituir um ator que não pode estar presente no set”, pontua.

Prata da casa

Em Brasília, o mercado de dublê tem nome certo: José Ricardo Matos. Fundador da empresa Dublê Car, especializada em dublística no Centro-Oeste, ele garante ser o único profissional especializado no ramo da região. Com ele, o medo não tem vez. “Já fiz cenas em que me queimei, pulei de carros, prédios. Me quebrei e tive diversas fraturas. Já saltei de um viaduto para cair em cima de um caminhão. Apesar disso tudo, amo o que faço”, conta o dublê.

Brasiliense de 41 anos, Zé começou a carreira bem cedo, na época que saltava de prédios com amigos e praticava “pegas” em alta velocidade pelas ruas de Brasília. Se especializou em pilotagem para direção defensiva avançada e tem no currículo a preparação do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), Detran-DF e Força Nacional.

“Praticando esportes radicais, fui chamado para fazer uma cena onde deveria saltar de bicicleta do primeiro andar de um prédio. Fui convidado pelo ex-bombeiro e cineasta Afonso Brazza, que infelizmente já faleceu”, explica. Impulsivo e amante de desafios cada vez mais ousados, ele destaca: “Depois dessa cena, não parei mais de trabalhar no mercado cinematográfico”.

Sem medo do fogo e da alta velocidade

A habilidade em lidar com o perigo rendeu frutos. Zé Ricardo bateu o recorde mundial ao pular de um carro em movimento a 240 km por hora em 2011. O feito foi registrado pelo Guiness World Records e pelo Rank Brasil. “Em setembro, vou saltar de um avião da Esquadrilha da Fumaça a 400 km por hora”, planeja.

Entre as produções de destaque em que trabalhou está o filme Ratão, de Santiago Dellape. No curta, ele teve que jogar o carro que dirigia de um viaduto em uma tomada única. “Tinha o tempo certo porque o carro iria explodir. Saí andando, mas confesso que tive problemas de saúde depois”, lembra.

Em A Noite Por Testemunha, de Bruno Torres, obra inspirada na trágica morte do índio Galdino dos Santos, ele foi o dublê da cena em que o índio pega fogo. “Gravei seis vezes. Passaram o gel e me ataram inteiro como uma múmia. Deixei uma piscina de criança montada no fundo do set porque se extrapolasse o tempo, iria me queimar todo. No final, deu tudo certo e ainda saímos para beber”, conta orgulhoso.

Quando não há final feliz
 
O prazer é grande, assim como o risco que correm os profissionais que colocam suas vidas em jogo para viabilizar produções cinematográficas.
Além de serem pouco valorizados, os dublês podem ter um triste fim.
É o caso do dublê Art School, piloto de 53 anos que morreu ao fazer um giro de ponta cabeça em uma aeronave durante a gravação do clássico Top Gun, de Tony Scott. O corpo do dublê caiu no Oceano Pacífico.
 
Outro caso foi o de Harry L. O’ Connor, dublê do ator Vin Diesel no filme Triplo X, de Rob Cohen. Harry não conseguiu descer de rapel no tempo certo e morreu ao bater em uma ponte.
 
Em Os Mercenários 2, de Simon West, o dublê do ator Jet Li, Kun Liu, morreu durante as filmagens de uma cena de explosão.
 
Um dos casos mais conhecidos, e que chocou o mundo, foi a morte do ator Brandon Lee, filho de Bruce Lee, atingido por uma bala no set de filmagem de O Corvo, de Alex Proyas.
Vários dublês foram machucados durante as filmagens do filme, adaptação da HQ homônima de James O’Barr.

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