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Cinema com ela
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“Obsessão” prova que o terror mais aterrorizante sempre nasceu dentro da gente

O novo longa de Curry Barker chega às telas nesta quinta-feira (14) para sacudir as certezas de quem já se achou do lado certo numa paixão não correspondida

Tamires Rodrigues

14/05/2026 5h00

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Foto: Divulgação/Universal Pictures

Há uma crueldade elegante em transformar o lugar-comum da paixão não correspondida num horror de carne e osso. É exatamente essa a aposta de Curry Barker em Obsessão, filme que chega às telas nesta quinta-feira (14), com a brutalidade de um soco no estômago disfarçado de declaração de amor, e que não dá ao espectador o luxo de se sentir inocente diante do que está vendo.

A premissa é quase fabulesca na sua simplicidade: Bear, um jovem nerd funcionário de uma loja de instrumentos musicais, compra por míseros US$ 6,99 um talismã que promete realizar desejos. Em vez de presentear sua paixão platônica Nikki com o objeto, ele o usa para si mesmo. O que se segue é uma escalada perturbadora que começa como fantasia e termina como julgamento. Barker conhece a diferença entre o que queremos e o que merecemos, e faz questão de confundir as duas coisas ao longo de cada cena.

É impossível não enxergar na trama um espelho deformante da cultura do desejo masculino, tão martelada em narrativas pop que raramente ousam questionar suas próprias premissas. Obsessão não tem essa timidez. Barker pega o arquétipo do cara bom preso na friendzone e o desmonta peça por peça, mostrando que a vitimização romântica pode esconder algo bem mais sombrio do que simples infelicidade amorosa. O talismã não é o vilão da história. Bear é.

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Foto: Divulgação/Universal Pictures

Michael Johnston entrega uma performance corajosamente antipática. Não há nenhum esforço do ator para tornar Bear palatável além do necessário; ele deixa o personagem ser covarde, fraco e autodestrutivo com uma naturalidade que, paradoxalmente, o torna mais real do que qualquer herói impecável. Há momentos em que Johnston parece quase envergonhado por conta do próprio personagem, e esse desconforto visível é precisamente o que o papel exige.

Mas é Inde Navarrette quem rouba a alma do filme. Como Nikki enfeitiçada, a jovem atriz opera em dois registros simultâneos e opostos: a ameaça ardente e a vítima inconsciente de si mesma. Nos raros momentos em que sua personagem retorna à lucidez, há uma confusão tão genuína nos olhos de Navarrette que o horror migra do susto para o pesar. É uma atuação de intensidade rara, calibrada com inteligência, e que certamente abrirá muitas portas para ela nos próximos anos.

Barker vem de um percurso incomum: vídeos de comédia no YouTube e um filme de terror de baixíssimo orçamento chamado Milk & Serial. Em Obsessão, ele demonstra uma maturidade técnica que poucos debutantes de Hollywood exibem. A montagem sabe quando acelerar e quando deixar o silêncio trabalhar. Há uma cena de ataque repentino e brutal que surge tão abruptamente que desarma qualquer preparo do espectador, deixando uma cicatriz narrativa que dura até os créditos finais.

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Foto: Divulgação/Universal Pictures

O humor negro, presente especialmente nos dois primeiros atos, é o contrapeso que impede o filme de desabar em puro melodrama. Há piadas sobre gatos que farão o público rir e imediatamente sentir culpa por isso, numa dinâmica que o gênero raramente maneja com tanta precisão. A comédia não alivia o peso, ela o carrega de maneira diferente, tornando a queda posterior ainda mais vertiginosa.

A possessividade de Nikki escalona com uma lógica interna aterrorizante. O que começa como carinho exacerbado vai se revelando uma prisão afetiva de paredes invisíveis, e Barker filma essa deterioração com a paciência de quem sabe que o verdadeiro horror não precisa de sangue para começar a doer. Quando o sangue finalmente aparece, chega com toda a força de algo inevitável.

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Foto: Divulgação/Universal Pictures

O único senão é a duração. Com 110 minutos, o filme demora um tanto a encerrar o que já disse, especialmente no segundo ato, onde alguns momentos de tensão parecem girar em falso antes de chegarem a algum lugar. Uma tesoura um pouco mais agressiva na edição teria deixado o ritmo ainda mais afiado. Mas esse é um pecado menor diante de tudo o que Barker acerta.

Conclusão

A notícia de que o diretor assumirá o reboot de O Massacre da Serra Elétrica, que soou como um sinal de alarme quando anunciada, agora inspira algo completamente diferente: expectativa genuína. Obsessão prova que Barker entende que o verdadeiro terror não mora em facas ou talismãs baratos. Mora nas escolhas que fazemos quando finalmente conseguimos o que pensávamos querer, e percebemos que éramos o monstro desde o início.

Confira o trailer:

Ficha Técnica
Direção: Curry Barker;
Roteiro: Curry Barker;
Elenco: Michael Johnston, Inde Navarrette, Cooper Tomlinson, Megan Lawless, Andy Richter, Haley Fitzgerald;
Gênero: Terror, Suspense, Terror Sobrenatural;
Duração: 108 minutos;
Distribuição: Universal Pictures;
Classificação indicativa: 18 anos;
Assistiu à cabine de imprensa a convite da Espaço Z

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