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Viva

O marco dos personagens gays na televisão

Arquivo Geral

18/11/2014 7h00

Na tevê é cada mais comum a inclusão das paixões e dramas de casais homossexuais nas tramas. Os gays são retratados nas mídias brasileiras  desde as pornochanchadas, filmes com  doses de erotismo realizados nas décadas de  1970 e 1980. Já na televisão, o marco se deu com o casal Cecília (Lala Deheinzelin) e Laís (Cristina Prochaska), personagens de Vale Tudo, novela de 1988. Mas foi a partir do vilão Félix, de Amor  À Vida, que  a tendência de ter  um núcleo gay na trama das 21h da Globo pegou e permaneceu. 

O retrato das relações homoafetivas nessas mídias ainda gera polêmica. Ainda mais após a  trama  Império ter mudado o destino dos, até então gays, Cláudio (José Mayer) e Leonardo (Klebber Toledo).  

Tiros dos dois lados

Críticas em redes sociais, a  limitação na exibição cenas de beijos mais quentes  entre casais do mesmo sexo nas emissoras e, por outro lado, a tendência para  estereotipação desses personagens, tratados muitas vezes como cômicos escrachados ou como  excluídos, têm incomodado tanto os mais conservadores quanto os mais libertários.

 As reclamações permeiam os dois lados. Seja na exigência de contenção dessas cenas picantes ou seja a favor dos  beijos e da igualdade de representação nas produções audiovisuais. 

Pesquisa de audiência divulgada recentemente pela Rede Globo revelou que o  romantismo entre casais gays nas telinhas já é hoje respeitado, mas a erotização ainda ofende e afasta o público maioritário. A última polêmica se deu em torno da relação entre Cláudio e Leonardo, personagens vividos pelos atores José Mayer e Klebber Toledo.

Cortes

Dados da pesquisa revelaram que aproximadamente 40 milhões de telespectadores da novela do autor Aguinaldo Silva condenam episódios de beijos e sexo entre eles. Fato que  culminou no corte de cenas que tendiam a pedir uma sequência mais picante entre Cláudio e  Leonardo. Mas, segundo a própria emissora, o “pegar leve” nas cenas se estende também para  as cenas de amor entre casais heterossexuais.

Os gays são retratados na sétima arte brasileira há muito tempo. No entanto, sempre com pitadas estereotipadas e elevadas doses de humor. Entretanto, a produção  cinematográfica mais atual tem mudado o modo de retratar os homossexuais nas telonas. 

Exemplos como Carandiru, de Hector Babenco; Cazuza – O Tempo Não Para, dirigido por  Sandra Werneck e Walter Carvalho; Madame Satã e Praia do Futuro, de Karim Aïnouz; e o  grande representante nacional para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2015, Hoje eu  Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro, provam que há uma tendência para uma nova safra  de filmes. Obras que mostram gays, travestis e lésbicas com um olhar normal, real,  sensível, longe do estereótipo clichê.

Sutilezas recentes

Em 2013, estreou nos cinemas a produção brasileira Flores Raras, com direção de Bruno Barreto. A trama do longa-metragem é focada no relacionamento amoroso entre a arquiteta Lota de Macedo Soares (Gloria Pires) e a poetisa Elisabeth Bishop (Miranda Otto).  

Sem rodeios, para mostrar a história de amor entre duas mulheres, o filme é marcado pela conturbada relação entre as duas. Na produção, o fato de as protagonistas serem homossexuais, apesar do tratamento de maneira aberta, não norteou a obra.

No mais recente sucesso do cinema nacional com temática homoafetiva, o filme Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, o casal é formado por dois estudantes adolescentes em fase de descobertas. O relacionamento também é mostrado sobretudo pela ótica do sentimento, sem estereotipação e sem cair para a questão social em que vivem os jovens gays.

Um caminho até aqui

Nas telinhas, já é possível traçar casais homossexuais marcantes nas telenovelas brasileiras, desde Laís (Cristina Prochaska) e Cecília (Lala Deheinzelin), personagens de Vale Tudo (1988), que introduziram as relações entre personagens do  mesmo sexo na TV. As duas moravam juntas e andavam de  mãos dadas pelas ruas na trama de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères.

Quem não se lembra também do casal que realmente beijou e quebrou tabus: a Marina (Giselle Tigre) e Marcela (Luciana Vendramini), da novela Amor e Revolução? A trama do SBT foi escrita por Tiago Santiago e exibida às 22h, em 2011. Em entrevista ao site Terra, a atriz Giselle Tigre argumentou, na época, não ter sido vítima da censura do politicamente incorreto: “Acho que a maioria do público é a favor dessas cenas. Eles desejam se ver retratados. Novelas falam sobre diferentes temáticas e essa é apenas mais uma”, avaliou . 

Veto

Já Junior (Bruno Gagliasso) e Zeca (Erom Cordeiro), da novela América, exibida em 2005, na Globo, se apaixonaram e não se beijaram. A trama de Glória Perez deixou aquele gostinho de continuidade.

Outro casal que também caiu na boca do povo foi Jefferson (Lui Mendes) e Sandrinho (André Gonçalves), na novela A Próxima Vítima. Há ainda Leila (Silvia Pfeifer) e Rafaela (Christiane  Torloni), na novela Torre de Babel, e Rafaela (Paula Picareli) e Clara (Alinne Moraes), em  Mulheres Apaixonadas.

Marco recente

Mas o marco da contínua exibição de casais gays em horário nobre, às 21h, deu-se com o vilão  Félix, personagem de Mateus Solano, em Amor à Vida. Félix conquistou o público com frases como “Se eu gostasse de mulher, tinha virado ginecologista” e “Bofe bom é bofe burro”. A novela foi exibida entre maio de 2013 e janeiro de 2014.

De lá para cá, as atrizes Giovanna Antonelli e Tainá Müller também marcaram presença ao viver as românticas e apaixonadas Clara e Marina na trama Em Família, de Manoel Carlos, televisionada entre  fevereiro e julho de 2014.

Gays e a ótica do cinema nacional

Interessados pelo tema, os comunicólogos Felipe Tostes e Rafaela Dias resolveram fazer um  documentário sobre a representatividade dos gays nas telas brasileiras. O projeto de conclusão  do curso de Rádio e TV na UFRJ, em 2008, resultou no média-metragem Cinema Em 7 Cores,  filme já projetado em diversos festivais do Brasil.
 
Entrevistas com personalidades do cinema como o diretor do Festival Mix Brasil, André  Fischer,  Karim Aïnouz, diretor de Praia do Futuro e de Madame Satã e, ainda com o deputado federal Jean Wyllys, militante da causa gay, adentram nesse panorama histórico, na forma de como  o homossexual é retratado  desde a pornochanchada. Os preconceitos e os estereótipos são debatidos de forma profunda.
 
“Vimos que, por muito tempo, esses personagens foram retratados de forma bem clichê. Ou  como marginais ou como os estereotipados. Claro que há o gay mais afeminado, mas há uma  imensa pluralidade de homossexuais. O que falta é adentrar nesses vários. Creio que, com o personagem Félix (Mateus Solano), ocorreu uma quebra. Estamos em um processo de  mudança, de novos retratos das relações homoafetivas”, realça o diretor do filme, Felipe Tostes.
 
Sem estereotipar
 
Outro diretor do Mix Brasil  – festival de cinema que exibe produções com conteúdo LGBT – João Federici mostra que um dos critérios para a seleção dos filmes exibidos no festival é justamente dar prioridade àqueles que não retratem o gay em seu estereótipo. Segundo ele, a produção de obras com conteúdo homossexual  cresce no País. Nesse ano, o Mix Brasil entrou na sua 22ª edição e contou com mais de 300  filmes inscritos. Em cartaz em São Paulo, o Festival irá exibir  149 filmes até domingo.
 
“Creio que  no cinema há uma maior liberdade para retratar o homossexual em suas diversas formas. As telenovelas entram em milhares de casas de famílias conservadoras” pontua Federici.
 
Ponto de vista
 
Doutor em Sociologia da Educação e do Trabalho, Erlando da Silva Rêses mostra que a crescente representatividade dos gays em novelas e filmes tem um lado muito positivo, que é  o de dar mais visibilidade e, de certa forma, até estimular as pessoas a “saírem do armário”.  Mas, por outro lado, Erlando destaca que  ainda há uma certa estereotipação do gay nas telinhas. “Como vivemos em uma sociedade religiosa e conservadora, temos ainda uma contenção  e um preconceito com os gays exibidos nas mídias. Eles são, muitas vezes, tratados de uma só maneira,  consequência direta da sociedade em que vivemos. É o jogo da  espetacularização que coloca o homossexual cheio de trejeitos. Mas estamos vivendo um  momento de abertura. Já tivemos casais mais comedidos nas mídias, como a Clara e a Marina, da trama Em Família (foto)”, destaca Erlando.

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