Na tevê é cada mais comum a inclusão das paixões e dramas de casais homossexuais nas tramas. Os gays são retratados nas mídias brasileiras desde as pornochanchadas, filmes com doses de erotismo realizados nas décadas de 1970 e 1980. Já na televisão, o marco se deu com o casal Cecília (Lala Deheinzelin) e Laís (Cristina Prochaska), personagens de Vale Tudo, novela de 1988. Mas foi a partir do vilão Félix, de Amor À Vida, que a tendência de ter um núcleo gay na trama das 21h da Globo pegou e permaneceu.
O retrato das relações homoafetivas nessas mídias ainda gera polêmica. Ainda mais após a trama Império ter mudado o destino dos, até então gays, Cláudio (José Mayer) e Leonardo (Klebber Toledo).
Tiros dos dois lados
Críticas em redes sociais, a limitação na exibição cenas de beijos mais quentes entre casais do mesmo sexo nas emissoras e, por outro lado, a tendência para estereotipação desses personagens, tratados muitas vezes como cômicos escrachados ou como excluídos, têm incomodado tanto os mais conservadores quanto os mais libertários.
As reclamações permeiam os dois lados. Seja na exigência de contenção dessas cenas picantes ou seja a favor dos beijos e da igualdade de representação nas produções audiovisuais.
Pesquisa de audiência divulgada recentemente pela Rede Globo revelou que o romantismo entre casais gays nas telinhas já é hoje respeitado, mas a erotização ainda ofende e afasta o público maioritário. A última polêmica se deu em torno da relação entre Cláudio e Leonardo, personagens vividos pelos atores José Mayer e Klebber Toledo.
Cortes
Dados da pesquisa revelaram que aproximadamente 40 milhões de telespectadores da novela do autor Aguinaldo Silva condenam episódios de beijos e sexo entre eles. Fato que culminou no corte de cenas que tendiam a pedir uma sequência mais picante entre Cláudio e Leonardo. Mas, segundo a própria emissora, o “pegar leve” nas cenas se estende também para as cenas de amor entre casais heterossexuais.
Os gays são retratados na sétima arte brasileira há muito tempo. No entanto, sempre com pitadas estereotipadas e elevadas doses de humor. Entretanto, a produção cinematográfica mais atual tem mudado o modo de retratar os homossexuais nas telonas.
Exemplos como Carandiru, de Hector Babenco; Cazuza – O Tempo Não Para, dirigido por Sandra Werneck e Walter Carvalho; Madame Satã e Praia do Futuro, de Karim Aïnouz; e o grande representante nacional para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2015, Hoje eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro, provam que há uma tendência para uma nova safra de filmes. Obras que mostram gays, travestis e lésbicas com um olhar normal, real, sensível, longe do estereótipo clichê.
Sutilezas recentes
Em 2013, estreou nos cinemas a produção brasileira Flores Raras, com direção de Bruno Barreto. A trama do longa-metragem é focada no relacionamento amoroso entre a arquiteta Lota de Macedo Soares (Gloria Pires) e a poetisa Elisabeth Bishop (Miranda Otto).
Sem rodeios, para mostrar a história de amor entre duas mulheres, o filme é marcado pela conturbada relação entre as duas. Na produção, o fato de as protagonistas serem homossexuais, apesar do tratamento de maneira aberta, não norteou a obra.
No mais recente sucesso do cinema nacional com temática homoafetiva, o filme Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, o casal é formado por dois estudantes adolescentes em fase de descobertas. O relacionamento também é mostrado sobretudo pela ótica do sentimento, sem estereotipação e sem cair para a questão social em que vivem os jovens gays.
Um caminho até aqui
Nas telinhas, já é possível traçar casais homossexuais marcantes nas telenovelas brasileiras, desde Laís (Cristina Prochaska) e Cecília (Lala Deheinzelin), personagens de Vale Tudo (1988), que introduziram as relações entre personagens do mesmo sexo na TV. As duas moravam juntas e andavam de mãos dadas pelas ruas na trama de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères.
Quem não se lembra também do casal que realmente beijou e quebrou tabus: a Marina (Giselle Tigre) e Marcela (Luciana Vendramini), da novela Amor e Revolução? A trama do SBT foi escrita por Tiago Santiago e exibida às 22h, em 2011. Em entrevista ao site Terra, a atriz Giselle Tigre argumentou, na época, não ter sido vítima da censura do politicamente incorreto: “Acho que a maioria do público é a favor dessas cenas. Eles desejam se ver retratados. Novelas falam sobre diferentes temáticas e essa é apenas mais uma”, avaliou .
Veto
Já Junior (Bruno Gagliasso) e Zeca (Erom Cordeiro), da novela América, exibida em 2005, na Globo, se apaixonaram e não se beijaram. A trama de Glória Perez deixou aquele gostinho de continuidade.
Outro casal que também caiu na boca do povo foi Jefferson (Lui Mendes) e Sandrinho (André Gonçalves), na novela A Próxima Vítima. Há ainda Leila (Silvia Pfeifer) e Rafaela (Christiane Torloni), na novela Torre de Babel, e Rafaela (Paula Picareli) e Clara (Alinne Moraes), em Mulheres Apaixonadas.
Marco recente
Mas o marco da contínua exibição de casais gays em horário nobre, às 21h, deu-se com o vilão Félix, personagem de Mateus Solano, em Amor à Vida. Félix conquistou o público com frases como “Se eu gostasse de mulher, tinha virado ginecologista” e “Bofe bom é bofe burro”. A novela foi exibida entre maio de 2013 e janeiro de 2014.
De lá para cá, as atrizes Giovanna Antonelli e Tainá Müller também marcaram presença ao viver as românticas e apaixonadas Clara e Marina na trama Em Família, de Manoel Carlos, televisionada entre fevereiro e julho de 2014.
Gays e a ótica do cinema nacional