Todo filme de Anna Muylaert fala de família. Mãe Só Há Uma não foge à regra. Inspira-se num episódio que ficou célebre na crônica policial de Brasília, o do garoto Pedrinho, que foi sequestrado quando bebê na maternidade. Ele foi devolvido à família biológica, a sequestradora, chamada Wilma, foi presa, mas Pedrinho não rompeu seus laços com elas e nunca deixou de visitá-la, depois que foi solta.
A versão ficcionalizada de Anna incrementa ainda mais a história. O garoto apresenta um comportamento trans. A diretora, também roteirista, explica-se. “Durante muito tempo, por motivos familiares, vivi de forma muito doméstica. Nos últimos anos, voltei à noite e me deparei com uma nova juventude”, conta a cineasta.
“A questão de gênero deixou de ser tabu. Garotos com garotos, garotas com garotas, garotos que se vestem como mulheres sem afetação, garotas que se vestem como homens. Os carinhas estão usando saia e bigode sem constrangimento. É uma mudança de comportamento muito interessante que resolvi incorporar. Tive a ajuda de um pesquisador que foi muito valioso, o também diretor Marcelo Caetano, do curta ABC Bailão”, comenta.
Temática
O novo trabalho foi selecionado para o Festival de Cinema de Berlim deste ano. Identidade é a tônica dos dramas brasileiros exibidos no evento internacional. Identidade que esbarra na sexualidade, como mostram Mãe Só Há Uma e Antes o Tempo Não Acabava, de Sérgio Andrade e Fábio Baldo.
“Esse não é um filme sobre se sentir bem, mas sobre se sentir autêntico”, disse Muylaert, momentos antes de exibir seu filme em sessão lotada.
O primeiro longa da diretora paulista após o furor de Que Horas Ela Volta? (2015) gira em torno da história de Pierre (Naomi Nero), adolescente que descobre ter sido roubado na maternidade e tem de se adaptar à nova família.
Seus pais biológicos (Matheus Nachtergaele e Dani Nefussi) também têm de se adaptar à transexualidade do filho, que começa a irromper. O pai entra em rota de colisão com o filho. E o apoio mais inesperado vem do irmão que, no começo, o olha torto, estranhando as unhas pintadas e o desinteresse de Pierre pelo futebol.
Comparado ao filme com Regina Casé, Mãe Só Há Uma é uma produção bem menor, mais econômica e que lembra mais os filmes do início da carreira de Muylaert, como Durval Discos e É Proibido Fumar, com um olhar mais detido na sutileza dos gestos e nos diálogos espontâneos.
A tônica sexual aparece já na primeira cena: Pierre transa com uma garota e a câmera revela que ele usa cinta-liga.
Longa foi bem recebido pela plateia alemã
Apesar de a diretora ter introduzido o trabalho no festival na defensiva, dizendo que relutou em voltar a Berlim após o filme anterior ter levado o prêmio de público, a nova obra foi bastante aplaudida. “Minha função não é fazer gols, é fazer flores”, disse à plateia, lotada de brasileiros (como o presidente da Ancine, Manoel Rangel).
Ela admitiu que estava nervosa. No fim, aplaudida pelo público, comemorou o nascimento “do bebê”. “Vacilei um pouco para voltar aqui porque pensei comigo que não ia ganhar de novo o prêmio do público. Mas, depois, dei-me conta de que amo esse festival, as amizades que fiz e seria bom voltar. Cada filme é um flor. Essa é a nova flor que oferto a Berlim.”
O filme ganhou elogios da revista The Hollywood Reporter: “cheio de cenas rápidas e eficientes” e “elenco incrível”, escreveu Jordan Mintzer.
No fim da sessão, abraçada por amigos e felicitada pelo público, a diretora tinha motivos para se sentir feliz. Entre os que abraçaram estava o também diretor Karin Aïnouz. “Gostei do filme. A Anna vai para o lado da loucura e se sai superbem”, analisou o autor de Praia do Futuro.
Saiba mais
A Berlinale vai exibir, em suas diversas seções (competição, Panorama, Forum, Generation etc) 51 produções de 33 países.
Talvez atendendo a uma solicitação da Ministra da Cultura da Alemanha, que, no festival passado, cobrou do diretor artístico – e presidente da Berlinale –, Dieter Kosslick, uma maior presença feminina, o festival deste ano terá o comando de uma mulher, a premiadíssima Meryl Streep, que preside o júri.