A significação do cinema ao retratar uma figura individual é uma das coisas mais vívidas de presenciar. Mesmo que seja clichê, é uma espécie de padrão de estilo, utilizando a reflexão e evolução da personagem. Harakiri utiliza deste conceito para ganhar força.
Um ronin (samurai sem mestre) chega em um templo do Lord Iyi e pede para cometer harakiri, um ritual suicida. Todo esse contexto nos primeiros cinco minutos de exibição. Parece o início do fim para a saga de um guerreiro, mas o cineasta Masaki Kobayashi faz do filme uma partida de xadrez, com cada elemento e movimento construído para preparar o espectador para uma disputa entre a ideologia e filosofia. Cada movimento se encaixa perfeitamente em seu lugar. È fascinante de acompanhar.
Lembranças
Por meio de flashbacks, o filme narra a trágica história de um samurai forçado a vender sua espada real para sustentar sua esposa doente e seu filho. É incitado à vingança quando descobre que seu genro cometeu harakiri – forma honrosa para um samurai cometer suicídio – com uma espada feita de bambu, também por falta de dinheiro.
Masaki Kobayashi é um jogador experiente. Move cada jogada com cautela, deixando o melhor – obviamente – para o cheque-mate. Um movimento, um avanço na história e na construção do personagem de Tatsuya Nakadai, que interpreta o samurai à procura de redenção pessoal. O diretor usa do preto e branco para salientar a atmosfera depressiva e auto-destrutiva do protagonista. Kobayashi, que tem em sua filmografia poucos filmes, assina aqui uma direção seca e bruta, se igualando ao mestre Akira Kurosawa. Harakiri não é um filme típico de samurai, pós-1800 retratando um Japão feudal e martirizado por seus ocupantes.
O longa-metragem carrega um apanhado de arquétipos sobre a cultura japonesa, deixando o espectador assustado pela brutalidade em que Harakiri impõe aos seus personagens e, ao mesmo tempo, fascinado por uma construção teatral tão espetacular de assistir.