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Música

Orgulho LGBT: músicos trans garantem que a arte é o caminho da resistência

Mickael é transmasculino, autista e músico. Para ele, o palco nunca foi um lugar de vaidade; sempre foi o único espaço possível para continuar existindo

Agência UniCeub

28/06/2026 11h04

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Foto: Instagram

Por Lucas de Moraes e Marcelo Thompson

No silêncio do quarto escuro é onde a poesia começa. Em um cômodo qualquer surge mais uma música, uma voz de liberdade que ainda busca ser ouvida e reconhecida.

Assim, Mickael Pederiva descobriu o próprio talento e, com palavras e cordas de violão, conseguiu expor o seu sentimento para o mundo, fundando uma banda de rock folk que leva o seu nome.

Mickael nunca foi ela, mas insistiam em chamá-lo assim. Mesmo perdido, lutou vigorosamente para arrancar de todos o “ele” que tanto queria ouvir.

Esse “ele” finalmente ganhou corpo, mas exigiu que a própria voz fosse desmontada e reconstruída. Com o início da transição hormonal, as cordas vocais mudaram de tamanho, e ele passou por um processo de quatro anos de reestruturação para reaprender a cantar dentro do novo corpo. 

Hoje, aos 25 anos, o estudante de direito e design musical equilibra a rotina pesada com os palcos de Brasília.

O violão, que antes era o refúgio no quarto escuro, virou um símbolo de preservação da própria história.

Para Mickael, soltar a voz não é apenas fazer arte, é garantir que a trajetória de pessoas transmasculinas nunca mais seja silenciada.

O direito à memória

A história que Mickael carrega nas canções não começou com ele. Ela ecoa a trajetória de Anderson Herzer, escritor transmasculino que viveu sob a sombra da ditadura militar.

Internado na Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem), escreveu poemas, que na época ficaram esquecidos, mas hoje são referência de resistência em um tempo onde ser trans era um desafio ainda maior.

Foi então que o padrinho de Mickael, Felipe Areda, propôs o desafio de transformar a poesia de Herzer em melodia durante um projeto no Instituto de Cultura, Arte e Memória LGBT, localizado na Casa da Cultura da América Latina (CAL). 

Dessa provocação nasceu “João Ninguém”, composição que garantiu o prêmio de música mais votada pela internet no Festival da EBC em 2020.

A faixa carrega uma importância além das notas musicais, pois registra a voz de Mickael antes do início da terapia hormonal.

“Eu quis ter um registro desse momento, já que eu não ia mais ter acesso a essa voz”, conta.

A preservação histórica para ele, no entanto, vai além das composições musicais. Em 2019, Mickael perdeu uma de suas melhores amigas, Vitória Jugnet, mulher trans que quase teve o nome morto escrito na própria lápide.

Por causa disso, Vitória dá nome à lei distrital de retificação de nome e gênero pós morte. Nesse contexto, cantar torna-se uma forma de garantir o direito à memória. 

“Pessoas LGBT de uma forma geral não costumam ter direito à memória. Mas a gente não morre, né? Vira purpurina”, reflete.

Diversidade na banda

Para o artista, ter outras pessoas trans na banda facilita a compreensão de algumas coisas que possam parecer triviais para quem não vive esta realidade.

“Trabalhar com pessoas que compreendam esse lugar faz toda diferença. Porque nós temos especificidades e elas precisam ser respeitadas”, comenta.

No passado, Mickael já teve em sua banda pessoas cis, mas não funcionou como imaginava, então decidiu por trabalhar apenas com pessoas que conhecem sua realidade. Após a reformulação, a banda hoje conta com apenas dois membros.

Letícia Mayr, de 29 anos, também é integrante da banda e autista e toca com Mickael, tem um ano.

Para ela, a música foi uma maneira de melhorar a comunicação e de se auto-regular.

“Eu tive muita dificuldade ao longo da minha vida de aparecer em público, conversar com pessoas e isso é uma coisa que está se resolvendo agora. Então, se você pegasse a Letícia de um ano atrás e tentasse conversar com ela da mesma forma que estamos conversando agora, não teria acontecido muita conversa”, conta. 

No começo a dificuldade era maior, a timidez tinha mais espaço no palco.

“Às vezes ainda me dá um pouco de medo, mas hoje em dia é bem mais tranquilo. Eu lembro de uma apresentação no Espaço Cultural Renato Russo, uma das primeiras da banda e o meu maior show, eu fiquei muito nervosa”, relembra Letícia. 

Mickael e Letícia se conheceram através de um futebol organizado pelo Instituto Menines Bons de Bola (IMBBDF), voltado para pessoas trans e, desde então, formam uma dupla inseparável.

Ambos encontraram na música uma maneira de se expressar, expor sentimentos e dar ao mundo um atestado de existência. Pois o simples ato de existir, pode ser um desafio para quem teve a coragem de decidir o próprio caminho.

O preconceito, porém, sempre esteve no caminho. E, com ele, a preocupação de como a banda lidaria com o problema.

“Como eu vou garantir que todas as pessoas que estão tocando comigo não vão sofrer transfobia? Ou mesmo eu, como eu vou dar um espaço de segurança para aquelas pessoas que estão trabalhando comigo? É complexo”, lamenta.

O direito de voltar a sonhar

Para quem cresceu em meio ao isolamento e às expectativas sufocantes de uma sociedade que insiste em moldar corpos e mentes alheias, o futuro costuma ser um território interditado e hostil.

Olhar pra frente e traçar planos exige uma segurança que a realidade muitas vezes nega.

“Sendo um adolescente trans, eu não sabia que nada disso era possível. Eu desaprendi a sonhar”, relata Mickael.  

Mickael é transmasculino, autista e músico. Para ele, o palco nunca foi um lugar de vaidade; sempre foi o único espaço possível para continuar existindo.

“A população transmasculina é, dentro dos recortes específicos, a que mais tenta o suicídio no mundo”, diz.

“O que eu faço hoje é o que o Hezer fazia há quarenta anos, não é novo. Talvez seja novo para vocês. Mas é só mais uma forma de sobrevivência”. 

Mas no jardim da imaginação, os sonhos tomam conta daqueles que os cativam. Mickael e Letícia, mesmo que já adultos, ainda sonham e imaginam o futuro. Letícia sonha em voltar ao Rock in Rio, mas desta vez, em cima do palco.

“O show mais incrível da minha vida foi no Rock in Rio de 2011. Teve show de Detonautas, Evanescence, Guns N’ Roses e System. Todos os shows foram muito mágicos para mim. Então meu sonho é tocar lá. Seria muito especial se isso acontecesse”, diz.

Já Mickael sonha em viver da música, sem se preocupar em trabalhar com outra coisa.

“Acho que o meu sonho é poder não fazer outras coisas. Poder ter o privilégio de viver da música. Viver da música, da forma mais pura que der, ter o meu estúdio e produzir as minhas coisas com outras pessoas trans”, conta. 

Entre acordes, memórias e sonhos, Mickael e Letícia transformam a música em um ato de existência.

As vozes não apenas ocupam os palcos, mas preservam histórias que outras pessoas insistiram em apagar. Em cada canção, reafirmam que viver, lembrar e sonhar também são formas de resistência, e que nenhuma identidade deve ser silenciada.

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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