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Música

Jota Quest revisita raízes da soul music em álbum dedicado a Tim Maia

“Jota Quest & Tim Maia – Dance Enquanto é Tempo” reúne 16 faixas, participações de nomes como Thiaguinho, Negra Li e Tony Tornado e marca os 30 anos do primeiro disco da banda

Alexya Lemos

28/08/2026 11h06

jota quest tim maia

Foto: Divulgação

Três décadas depois de lançar o primeiro álbum, o Jota Quest retorna ao ponto de partida de sua trajetória para reverenciar um dos artistas que mais influenciaram sua formação. “Jota Quest & Tim Maia – Dance Enquanto é Tempo” chegou ontem às plataformas digitais com 16 faixas que percorrem diferentes momentos do repertório de Tim Maia, entre sucessos conhecidos e canções menos exploradas de sua obra.

Produzido musicalmente pelo baixista PJ e lançado em parceria com a Universal Music, o projeto também será disponibilizado em formato de vinil duplo. A homenagem acontece no ano em que o álbum de estreia da banda, “J.Quest”, completa 30 anos. O trabalho será relançado em versão remasterizada e, pela primeira vez, em uma edição inédita em vinil.

A relação entre Jota Quest e Tim Maia começou justamente durante a preparação do primeiro disco. Em 1996, o grupo decidiu regravar “Dance Enquanto é Tempo”, composição de Tim Maia que acabou se tornando a música de abertura dos shows da primeira turnê da banda. Para conseguir autorização para a gravação, os integrantes precisaram entrar em contato diretamente com o cantor.

“Nossa ligação com Tim Maia, apesar de breve, foi muito forte e intensa”, conta PJ. Segundo o baixista, Tim se interessou pela banda justamente porque o grupo havia escolhido uma música que não estava entre os maiores hits de seu repertório.

O encontro entre os artistas, no entanto, foi breve. Tim Maia morreu dois meses depois, após se encontrar com o Jota Quest no festival Planeta Atlântida. Desde então, a banda carregava a ideia de dedicar um projeto à obra do cantor. Trinta anos depois do lançamento de “J.Quest”, a homenagem finalmente ganhou forma.

“É uma volta do Jota Quest às raízes”, resume Rogério Flausino. O vocalista destaca que, apesar de a banda ter percorrido diferentes gêneros ao longo da carreira, a soul music e a black music estão na origem do grupo. “Voltar às raízes através de um disco do cara que a gente mais ama tem uma força surreal”, afirma.

Entre clássicos e lados B

O repertório foi construído a partir do equilíbrio entre músicas amplamente conhecidas e faixas menos recorrentes na obra de Tim Maia. Antes da chegada do álbum completo, sete faixas haviam sido apresentadas em singles e bundles digitais desde dezembro.

Entre elas estão “Acenda o Farol”; “Você / I Don’t Know What To Do With Myself”, com Mãeana; “Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar) / Estrela do Meu Show”; e “Imunização Racional (Que Beleza) / Vou com Gás”. Esta última ganhou a participação de Os Garotin e Carlinhos Brown.

“Estrela do Meu Show” é um dos exemplos de como a pesquisa para o álbum levou a banda a músicas menos conhecidas de Tim Maia. A faixa fazia parte do lado B de um compacto lançado nos anos 1980 e foi apresentada a PJ por Carmelo Maia. A descoberta chamou a atenção do baixista, que decidiu incluí-la no projeto.

“Meu pai ouvia essa música. Essa música era o lado B de um compacto dos anos 80. Eu acho que ela nem foi muito trabalhada na época, porque o lado A é o principal. Não achamos o lado A do compacto no sistema. Então, imagina gravar o lado B de um compacto”, conta PJ. “Você ouve, fala: ‘Cara, mas essa música é boa demais, a gente tem que gravar isso’. E gravamos. Eu acho essa gravação no nosso disco uma das melhores gravações do disco. Se o Carmelo não me mostrasse ela, eu nunca mais ia lembrar dessa música, porque não foi uma música que teve sucesso.”

A presença de faixas menos conhecidas reforça uma das propostas centrais do projeto: ir além dos grandes sucessos e revisitar diferentes momentos do repertório de Tim Maia. A pesquisa também contou com o apoio de Carmelo Maia, que compartilhou histórias, sugeriu faixas e ideias para o álbum e autorizou o uso de vozes originais do cantor em algumas das gravações.

A releitura de “Imunização Racional (Que Beleza)”, originalmente lançada no controverso “Tim Maia Racional (Vol. 1)”, aproxima a banda de uma nova geração da música brasileira. Para Flausino, a combinação entre a percussão de Brown e a energia de Os Garotin ajudou a criar uma nova leitura para a faixa.

Com o lançamento do álbum completo, outras oito releituras chegam ao repertório, além de “SEROMA”, faixa inédita que abre o disco. A seleção inclui “Gostava Tanto de Você”, “Vale Tudo”, “Réu Confesso”, “Primavera”, “Sossego”, “Azul da Cor do Mar” e “Racional Culture”.

Também está no disco “Descobridor dos Sete Mares”, escolhida como single de trabalho e que ganhou uma nova versão com participação de Negra Li. A cantora e rapper também aparece no clipe da faixa, dirigido por Batman Zavareze, responsável pelo conceito visual de todo o projeto.

Participações conectam diferentes gerações

As participações especiais foram pensadas pela banda a partir da relação de cada convidado com a sonoridade do projeto. Thiaguinho participa de “Réu Confesso”, faixa que Flausino classifica como uma das mais próximas do samba-soul dentro do repertório escolhido.

A aproximação com Tony Tornado tem ainda um componente histórico. O cantor, que participa de “Sossego” ao lado do filho, Lincoln Tornado, também esteve no primeiro álbum do Jota Quest, em “Há Quanto Tempo”. Aos 96 anos, ele retorna ao trabalho da banda três décadas depois, em uma colaboração que os mineiros consideram simbólica.

“É muito bonito e simbólico tê-lo no álbum novamente, 30 anos depois, para celebrarmos o ‘Sebastião’”, afirma Flausino, em referência ao nome de batismo de Tim Maia.

Mãeana também foi escolhida pela conexão com a proposta de “I Don’t Know What To Do With Myself”. PJ conta que conheceu a cantora em Salvador, onde ela se apresentava com repertório de João Gomes e João Gilberto, e pensou nela ao ouvir o caráter bossa-nova da canção.

Já Negra Li entrou no projeto durante o processo de produção. Embora “Descobridor dos Sete Mares” inicialmente não estivesse entre as escolhas, a banda decidiu incluí-la e buscou uma participação do rap para apresentar a música sob outra perspectiva.

“Para mim, os feats têm que ter realmente uma identificação com a banda. Em todos os artistas que fazem parte do álbum, a gente buscou isso”, explica PJ.

Modernizar sem perder a essência

Para construir as novas versões, o Jota Quest buscou atualizar os arranjos sem descaracterizar as composições. A banda tomou as gravações originais como referência durante todo o processo, tentando imaginar também como Tim Maia reagiria às releituras. “A ideia era modernizar as canções, claro, mas de maneira nenhuma mexer na essência delas. Tudo foi gravado olhando e respeitando sempre as originais”, afirma PJ.

O processo também contou com a participação de Carmelo Maia, filho de Tim Maia e responsável pela gestão do espólio artístico do cantor. Além de apoiar o projeto, Carmelo compartilhou histórias, sugeriu músicas e ideias e autorizou o uso de vozes originais de Tim Maia em algumas faixas.

Para o Jota Quest, a colaboração acrescenta uma dimensão especial ao álbum, que não se limita a novas versões de músicas conhecidas, mas estabelece uma ligação direta entre a obra original e a história da banda.

“É o início da banda”, afirma Flausino sobre a influência da soul music na identidade do grupo. Ao revisitar Tim Maia, o Jota Quest retorna, portanto, não apenas a um repertório que admira, mas à própria formação musical que marcou seus primeiros passos.

“Dance Enquanto é Tempo” ganha nova fase nos palcos

A homenagem também será levada para os palcos. A banda estreia a turnê “Jota Quest Toca Tim Maia” em 6 de setembro, no palco Sunset do Rock in Rio, às 20h. Depois da apresentação, o grupo segue para outras cidades brasileiras com o novo espetáculo.

A escolha do nome da turnê acompanha a do álbum e recupera uma música que ocupa um lugar particular na trajetória do Jota Quest. “Dance Enquanto é Tempo” foi a primeira composição de Tim Maia gravada pela banda e esteve presente na abertura dos shows de sua primeira turnê.

Trinta anos depois daquele primeiro encontro, a canção volta a representar a relação entre os dois artistas. Agora, em um projeto que reúne diferentes gerações da música brasileira, o Jota Quest transforma a influência de Tim Maia em repertório, novas interpretações e uma turnê dedicada à obra do artista que ajudou a definir suas raízes.

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