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Música

Jorge Aragão, em turnê com Zeca e Alcione, diz que nunca fizeram música por sucesso

Com quase 30 músicas, o show da turnê “Maior Encontro do Samba” tem direção de Pretinho da Serrinha

Redação Jornal de Brasília

04/06/2026 10h57

Crédito: Yves Lohan

LUCAS BRÊDA
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS)

“Eu vou ter que cantar ‘Verdade’!?”, Zeca Pagodinho resmunga, arrancando risadas dos músicos e técnicos presentes em um dos ensaios da turnê “Maior Encontro do Samba”, que reúne o cantor, 67, Alcione, 78, e Jorge Aragão, 77. “E tu veio aqui para quê?”, responde o sambista que vai dividir o palco com ele. “Para poder ir embora!”, Zeca emenda.

O mais jovem dos três na turnê estava agoniado. Havia chegado antes de todos, reclamou de quem atrasou e parecia contar os minutos para sair do estúdio na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Com shows marcados em sete estádios espalhados pelo país, começando pelo Maracanã, no sábado (6), Zeca nunca gostou de multidões, de trabalhar e muito menos de sua enorme fama.

“Para me adaptar com esse sucesso foi complicado. Até hoje fico meio… Gosto de andar na rua, de ir para o botequim”, diz o cantor, que falou à Folha com a mesma disposição que tinha para ensaiar. Aragão pediu para responder pelo amigo. “Ele reclamava demais que estava fazendo sucesso. Perdeu o sossego dele, a história de ficar sentado nas caixas no meio das feiras.”

Improvisador talentosíssimo no partido alto, Zeca Pagodinho conquistou rápido os bambas que frequentavam as rodas de samba do Cacique de Ramos —entre eles Beth Carvalho, que o convidou para cantar em “Camarão Que Dorme a Onda Leva”, em 1983, inaugurando sua carreira fonográfica. Foi o produtor Milton Manhães quem levou o jovem cantor ao estúdio para uma carreira solo. Primeiro, para participar da coletânea “Raça Brasileira”, de 1985, e depois para lançar seu disco de estreia, no ano seguinte.

Jorge Aragão, coautor com Wilson Moreira de “Quintal do Céu”, uma das faixas do álbum, e que também gravou coros, diz que viu Zeca “literalmente brigando” com Manhães após o estrondoso sucesso do disco. “Por ser o culpado de ele perder a calmaria que tinha”. No primeiro show de Zeca a que Aragão foi, o público derrubou os portões. “Eu não conseguia entender isso. Era literalmente ver uma estrela nascendo.”

Mas Zeca recusava o estrelato. “Não ia ao Chacrinha, faltava em show”, diz. O cantor recebeu um puxão de orelha de Bira Presidente, pandeirista do Fundo de Quintal e líder no Cacique de Ramos. “Ele disse, ‘cara, você está representando o samba. Como você faz isso, acham que todo mundo faz. Você está atrasando a gente. E olha para quanta gente você dá emprego —músico, roadie, técnico de som. Passei a pensar que o sucesso não era só meu —era de todo mundo.”

Tanto Zeca quanto Aragão têm dificuldade de lembrar o que compuseram juntos, quando gravaram seus discos ou informações mais precisas de biografia. “Nessa época vinha tudo embolado. Saía do Cacique, ia à Abolição, voltava ao Cacique, era mulher solteira, muito samba, muita noite. Todo dia tinha uma roda em algum lugar”, diz o mais novo. “Era tudo muito louco, mas bacana, muito musical. Também não sei como era. A gente andava sem dinheiro, bebia sem dinheiro.”

Em 1986, Aragão estava lançando seu segundo disco solo, depois de participar de “Samba É no Fundo de Quintal”, de 1981, estreia do Fundo de Quintal e pedra fundamental do samba, e dar lugar a Arlindo Cruz na banda. Dez anos antes, ele já tinha tido sua composição “Malandro” gravada, e com sucesso, na voz de Elza Soares em 1976. Essa música, por sua vez, havia sido outros quase dez anos antes, ainda na década de 1960.

Ele tocava violão em grupos de baile e tinha alguma influência da bossa nova e “nada a ver com samba”, nem o gênero musical e nem seu ambiente. Aos 18, Aragão serviu ao exército na Base Aérea de Santa Cruz, no Rio, onde conheceu João Batista Alcântara, com quem escreveu “Malandro” e se aproximou do universo do samba. Sua canção já era famosa quando Aragão passou a frequentar o Cacique de Ramos.

Em algum momento do começo dos anos 1980, Zeca e Aragão se encontraram no estúdio da editora Intersong, a convite de Neoci Dias, fundador do Fundo de Quintal. “Eu estava parado, ele entrou com o violão e falou, ‘vamos trabalhar?’ Falei, ‘vamos’”, conta o mais novo. “Ele começou a tocar, peguei papel e caneta e saiu nossa primeira música.”

“Mutirão de Amor”, que também tem Sombrinha como coautor, era um desabafo de Zeca. “Minha família estava de mau comigo —com razão, diga-se de passagem. Andei pelo mundo aí”, ele diz. “Entrei numa festa de família, todos me olhando de cara feia. Pedi a meu tio para mostrar uma música. Quando cantei, todo mundo ficou de bem comigo.”

Um dos grandes momentos da nova turnê, realizada pela 30e, a canção é o elo dos três gigantes do samba. Em 1983, foi Alcione quem gravou a primeira de oito parcerias entre Zeca e Aragão registradas no Escritório Central de Arrecadação e Distribuição, o Ecad. “Não Sou Mais Disso”, uma delas, estará no novo show.

Àquela altura, Alcione já era uma rainha. Mas como Aragão, e diferente de Zeca, uma majestade que não nasceu no berço do samba. “A minha origem é o bumba meu boi do Maranhão, certo?”, diz a Marrom sobre seu estado Natal, onde aprendeu criança a tocar trompete, sax e clarinete com o pai, maestro da banda da Polícia Militar.

Alcione não tinha 20 anos quando desembarcou no Rio para ficar hospedada na casa do irmão Ribamar e tentar a vida como cantora —levando seu trompete aonde ia. “Fiz programa de calouros, cantei na noite.

Comecei no Beco das Garrafas. Era bossa, era jazz, era tudo”, ela diz. Entre suas influências estavam cantoras da era do rádio, como Dalva de Oliveira e Ângela Maria, mas também jazzistas americanas.

“Gostava muito de escutar Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan”, diz. “Aprendi a cantar com elas.”

Quando Jair Rodrigues apresentou Alcione a Roberto Menescal, o produtor e ícone da bossa nova disse à novata que ela cantava tudo bem, mas havia uma brecha no samba que ela poderia aproveitar. O primeiro compacto, com “Figa de Guiné”, saiu em 1972, e três anos depois ela botou o álbum de estreia durante 22 semanas na parada de sucesso. Nele já estava “Não Deixe o Samba Morrer”, que se tornou um hino do gênero, e integra o repertório da próxima turnê.

Ela não tinha noção da força dessa canção, que colou para sempre os nomes Alcione e samba. “Quando ouvi, achei bonita e mostrei para meu produtor à época, que era Roberto Sant’Ana, além do Menescal”, ela diz. “O samba não é para qualquer um. [Também] Não é privilégio de ninguém. E no Brasil nós é que sabemos fazer isso.”

Ao Cacique de Ramos, diz Alcione, ela foi uma ou outra vez, mas não se tornou frequentadora assídua.

Foi diferente com a Mangueira, escola de samba cujas cores ornamentavam a roupa que ela usou no ensaio, e que se tornou parte importante de sua vida.

Nenhum dos três se lembra como se conheceram, mas os hoje compadres afirmam que isso se deu nos bastidores de eventos da música. Alcione gravou músicas de Aragão outras vezes, sendo que “Novo Endereço”, lançada em 1987, talvez seja a mais emblemática. E o novo show terá “Sufoco”, mais das românticas da Marrom, e a que Zeca mais gosta.

“Estava tocando no rádio quando eu vinha andando na rua para encontrar uma namorada que eu tinha. E quando era sábado e domingo, eu sempre ouvia na casa de um ou de outro. Foi a trilha sonora minha com essa namorada. É uma música muito linda”, ele afirma. “E ele me persegue até hoje com ‘Sufoco’”, emenda Alcione. “Em todo lugar que vou, tenho que cantar.”

Em cada apresentação da nova turnê, Alcione vai homenagear uma mulher do samba em suas roupas, entre elas Leci Brandão, Dona Ivone Lara, Elza Soares, Beth Carvalho e Clara Nunes. Os três ainda receberão convidados como Martinho da Vila, Gilberto Gil, Seu Jorge, Péricles e Alexandre Pires.

Com quase 30 músicas, o show da turnê “Maior Encontro do Samba” tem direção de Pretinho da Serrinha. O trio titular se reveza entre as performances, formando duplas, sozinhos ou todos juntos nos microfones. Há canções de Cartola, Dona Ivone Lara e Zé Ketti no repertório, além dos clássicos das carreiras de cada um deles —e não são poucos.

Serão dias de muita pompa, mas a postura dos três deve continuar na base da espontaneidade que marca suas trajetórias, maneiras e obras. “Nós não estávamos fazendo música para acontecer, comprar um carro, fazer sucesso. Toda semana a gente queria fazer uma música nova para cantar, mostrar um para o outro. [O sucesso] É fruto de ter sido feito é orgânico. Depois a gente quer ter o retorno disso para poder sobreviver, ser provedor da família da gente. Mas isso é só uma consequência.”

MAIOR ENCONTRO DO SAMBA

Quando Sábado (6 de junho); às 19h

Onde Estádio do Maracanã – r. Prof. Eurico Rabelo, s/n – Maracanã – Rio de Janeiro

Preço de R$ 122,50 (entrada social para cadeira superior) a R$ 1.090 (pacote VIP)

Autoria Alcione, Jorge Aragão e Zeca Pagodinho

Produção 30e

Convidado Martinho da Vila

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