O que parecia ser a realização de um sonho virou pesadelo para muitos fãs. Impulsionados pela alta demanda por ingressos para o show do BTS no Brasil, milhares de pessoas que não conseguiram comprar pelas plataformas oficiais recorreram à compra por terceiros, e acabaram vítimas de golpes.
Com negociações feitas principalmente pelas redes sociais, os casos se multiplicam e expõem um cenário de fraudes que se aproveitam da urgência e da emoção dos fãs. Diante disso, integrantes do próprio fandom passaram a se mobilizar para alertar, investigar perfis suspeitos e tentar evitar novas vítimas.
Foi assim que surgiu a página “Aviso de Golpe BTS”, criada após a identificação de perfis suspeitos no X (antigo Twitter). “Eu estava no meu perfil pessoal quando vi um seguidor comentando em um post de venda de ingresso. Abri o perfil do vendedor e percebi que era muito estranho: não tinha nenhuma postagem sobre o BTS”, conta a administradora.
A desconfiança inicial levou a uma investigação mais ampla. “Comecei a pesquisar outros perfis parecidos e percebi que eram muitos, todos com características semelhantes. Então resolvi criar um perfil voltado exclusivamente para isso.”
Desde então, o volume de relatos não parou de crescer. “Assim que criei o perfil e pedi ajuda para que outras pessoas engajassem, comecei a receber muitas DMs. E é assim o dia todo: sempre mais perfis suspeitos, sempre mais vítimas.”
Segundo ela, os golpistas costumam repetir padrões claros de comportamento. “A maioria usa frases parecidas, como: ‘um amigo que está vendendo’, ‘eu ia com meu namorado, mas ele não vai mais’, ‘até então vou pedir reembolso, mas não sei…’, ‘sou army desde 2019’”, relata.
Além dos discursos ensaiados, há também tentativas de manipulação emocional. “Já vimos até golpista fingindo ser autista para justificar não conseguir assinar contrato”, afirma.
Outros sinais frequentes estão no próprio perfil. “Geralmente são contas com pouquíssimas postagens, criadas recentemente, ou então perfis antigos que estavam inativos há muito tempo e reaparecem do nada vendendo ingressos”, explica.
Durante a negociação, novas inconsistências costumam surgir. “Muitos também se recusam a abrir a câmera em chamada de vídeo, a assinar contrato via gov.br ou a mostrar o comprovante da compra em PDF.”
A atuação da página também depende da colaboração coletiva. “Recebemos denúncias o tempo todo. Muitas pessoas estão procurando ingressos e acabam percebendo que é golpe por causa das dicas que já compartilhamos.”
Mesmo com os alertas, casos de vítimas continuam frequentes. “Já vimos o mesmo perfil enganando várias pessoas. Nosso alcance não chega em todo mundo.”
Uma das vítimas é Gabryella Corvelo, de 24 anos. Ela conta que encontrou um anúncio nas redes sociais e iniciou a negociação por mensagem. “A pessoa mandou identidade, CNH e até gravação de tela dos ingressos na plataforma oficial. Eu acreditei”, relata.
Após o pagamento via Pix, o vendedor desapareceu. “Assim que fiz a transferência, fui bloqueada. E agora a pessoa está usando os meus dados para fazer novas vítimas.”
Para quem já caiu em golpes, o perfil orienta os próximos passos. “Indicamos fazer boletim de ocorrência, contestar a compra no banco e entrar em contato com a instituição financeira”, afirma. Além disso, o acolhimento emocional também é parte do trabalho. “Tentamos consolar da melhor forma possível.”
Para a administradora, o principal fator de risco não é exatamente a confiança entre fãs, mas a urgência. “Eu não chamaria de confiança, e sim de desespero. O BTS é um grupo muito querido e representa conforto, lazer e até um tipo de escape para muitas pessoas. A possibilidade de não conseguir ir ao show gera um sentimento muito forte, que deixa muita gente vulnerável aos golpes.”
Diante do cenário, o conselho é direto: evitar negociações informais. “Hoje está cada vez mais difícil distinguir o que é verdadeiro do que é falso. Perder dinheiro dessa forma não vale a pena.”
Como alternativa, iniciativas dentro do próprio fandom tentam criar ambientes mais seguros. Um exemplo é o perfil Acesso Army, que propõe intermediação com verificação por vídeo e contratos formais. “Não é uma solução milagrosa, mas pode tornar a compra mais tranquila”, diz.
Enquanto isso, o alerta segue sendo a principal ferramenta. Em meio à expectativa pelos shows, fãs continuam usando as redes não apenas para celebrar o grupo, mas também para se proteger.