Por Natalia Francescutti e Maria Paula Valtudes
A DJ Helenne Sanderson, de 38 anos, conhecida pelo nome profissional de DJ Lenny, é surda desde os dois anos de idade. Ela nasceu em Barreiras (BA) e veio com a família para Brasília em busca de tratamento. Na infância e adolescência, apaixonou-se pela música, e na vida adulta encontrou uma profissão que a faz vibrar.
“Eu quero mostrar para a comunidade toda que é possível quebrar esses tabus que existem. Porque eles tem um fundo preconceituoso. Eles acham que a música não é para o surdo. E eu falo que é sim, a música é para o surdo”.
Para ela, o ditado que exemplifica seu trabalho é “música para quem não ouve, mas sente.”
Diagnóstico
Helenne nasceu na cidade de Barreiras (BA) e, aos dois anos de idade, foi vítima de meningite bacteriana, uma inflamação que se espalha pelas camadas de membranas que protegem o cérebro e medula espinhal. Com o diagnóstico, foi trazida pela família para ser tratada em Brasília, onde ficou hospitalizada por 40 dias. Após o longo tratamento, teve como sequelas a perda auditiva profunda.
Lesões resultadas pela meningite, como a deficiência auditiva, são, de acordo com dados do Ministério da Saúde, frequentes. A Secretaria de Saúde não possui os dados das pessoas que ficaram surdas por conta da meningite dos anos de 2023, 2024 e 2025.
De acordo com a infectologista Sylvia Freire, a maior parte dos casos tem origem infecciosa, podendo ser causada por vírus, bactérias, fungos e parasitas. Ela explica que a transmissão das meningites bacterianas geralmente ocorre por meio de secreções respiratórias, liberadas ao falar, tossir ou espirrar.
Para prevenir a doença, a principal forma de proteção é a vacinação, especialmente contra infecções de origem bacteriana.
“Estimativas apontam que um em cada 10 sobreviventes possa apresentar algum grau de deficiência auditiva, que pode ser permanente”, afirma a infectologista
Adaptação
O processo de adaptação, como relembra Helenne, não foi fácil. “Primeiro, eu comecei a trabalhar minha habilidade de fala com uma fonoaudióloga porque meus pais queriam que eu conseguisse me comunicar com eles, já que não sabiam libras”.
Ainda pequena, foi tratada em Bauru (SP) cidade de referência nacional e internacional em instituições de saúde auditiva, e foi introduzida a médicos e fonoaudiólogos que lhe auxiliaram na oralização. Ela passou a usar aparelho auditivo
Por volta dos seis anos de idade, ela passou a usar aparelhos auditivos. Foi quando as primeiras vibrações começaram a tomar protagonismo em sua vida por meio: da voz, da televisão, do carro, do bater de portas. Sons corriqueiros para a população ouvinte brasileira, mas que gradualmente despertaram o interesse de Helenne pelos sons graves.
Descobrimento
Dentro de casa, a música já ocupava um lugar especial e o piano foi o ponto de partida. A mãe de Helena, que já tocava o instrumento, foi responsável por alimentar a curiosidade da filha aos 9 anos pelo aprendizado musical.
“Minha mãe toca piano e um dia eu perguntei: ‘Posso aprender?’ Foi assim que ela me levou para o curso de piano ”, diz.
Com tempo, prática e esforço, as notas e o ritmo tornaram-se em melodias e conteúdo. Devido à surdez, Helenne fala ter tido mais dificuldades em escutar notas agudas.
Ao longo dos anos, ela expandiu suas habilidades para o violão e o contrabaixo, ambos instrumentos de corda, que devido ao maior contato na região do peito, permitem ela sentir melhor as vibrações.
Nesse mesmo período, com 15 anos de idade, ela se mudou para Brasília e foi na Capital onde teve seu primeiro contato com a comunidade surda. Com um mês de aulas de libras ela já havia se tornado fluente na língua.
Para além de ser algo revelador no âmbito da comunicação e expressão, a libras, ela comenta, também foi essencial para a auto-aceitação de ser surda.
“Eu fui aprendendo [libras] e meus olhos se abriram. Foi quando entendi: ‘Caramba, sou surda.’ Antes eu não me identificava, não queria, não aceitava. E hoje, sabendo libras, eu aceito a questão da surdez.”
Paixão
Ser DJ não foi algo que veio à mente de Helenne espontaneamente. A faísca de atração pela profissão despertou devido a uma festa de rave que ela e sua amiga frequentaram aos 17 anos. As de rave são eventos de música eletrônica de longa duração, podendo durar mais de 12 horas.
Naquela noite, assim que entrou no local, ela encantou-se por tudo, pois podia sentir a vibração, o show, as luzes, e até as movimentações dos festeiros. “O som ia aumentando e diminuindo e eu percebia a intensidade da música”.
Depois das festas, Helenne foi em busca por cursos de DJ, contudo apesar da variedade de aulas disponíveis, nenhuma delas possuía recursos de acessibilidade.
A DJ assistia a vídeos do Youtube e programas de computador, e foi aprendendo como realizar mixagens. Para ajudar no reconhecimento das ondas de som, ela utilizou uma caixinha de som chamada X- Vibe, que pressionava na mão e amplificava as ondas sonoras.
Mas não bastava apenas criar músicas, ela também precisa de uma opinião de um ouvinte para ter certeza de que estava no caminho certo. O amigo elogiou. ” ‘Muito bom’.
Em 24 de setembro de 2022, ela realizou o primeiro show como DJ Lenny, nome artístico escolhido por ela. Como toda DJ debutante, ela sentiu aquele típico frio na barriga ao ser chamada para o palco. Mas nada a preparou para a recepção positiva do público, principalmente dos surdos.
“Eu fiquei nervosa, com medo. Quando eu comecei, eu aumentei o som grave e todos os surdos pararam e olharam para mim. Logo começou a movimentação, e por fim estava todo mundo dançando e pulando. Foi um alívio.”
Lenny acredita que justamente por ser parte da comunidade surda e entender as necessidades musicais dos surdos, como o ajuste de vibrações mais graves ao invés de agudas, as mixagens dela foram capazes de alegrar a todos.

No decorrer dos anos, Helenne continuou a fazer shows nacionais e internacionais e já tocou: na França, no Uruguai, nos Estados Unidos, em Vitória, no Paraná, em São Paulo, no Rio de Janeiro, e no Rio Grande do Sul, onde atualmente mora na cidade de Santa Maria.
A apresentação mais recente que teve foi no Rio de Janeiro e os próximos serão em julho, na França, e em agosto, na Sociedade dos Surdos em Porto Alegre, Rio Grande do Sul.
Desafios
Além da falta de acessibilidade em cursos de DJ, Helenne teve de usar sua criatividade na hora de produzir suas músicas eletrônicas. De acordo com ela, o principal desafio é a vibração.
“Se não tem vibração, eu não consigo trabalhar porque preciso dela para manter o ritmo da música”, explica.
Durante a entrevista, ela mostrou aparelhos eletrônicos, similares a caixas de som, que ampliam as ondas sonoras da música.
O primeiro que ela utilizou, ainda no começo de seus estudos de DJ, foi o X-Vibe. “Eu pressionava ele no dedo, sentia a aviação e a partir daí ia fazendo os ajustes necessários na música.”
Com o avanço nas tecnologias, e depois de diversas pesquisas, Lenny achou acessórios mais práticos, dentre eles o Bass Me, que se acopla no ombro e se estende até a área do peito, facilitando o manuseio durante os shows.

DJ Lenny com seu acessório Bass Me cinza durante a apresentação
Palcos de madeira também são ótimos nesse aspecto. “Nos shows aqueles palco de tablados de madeira vibram bastante, isso é ótimo.” Ela até segue sugerindo que pessoas surdas, durante as apresentações, devessem ser alocadas mais próximas ao palco devido a isso.
Inclusão
A história de Helenne com a música tem sido de autodescobrimento e superação, mas a realidade é que ainda há muito preconceito quanto às pessoas surdas protagonizarem espaços musicais.
Ela ressalta que esse tipo de pensamento existe tanto dentro quanto fora da comunidade surda, e afirma querer ser uma fonte de inspiração para indivíduos como ela.
O primeiro passo para a mudança dessa perspectiva é nas escolas. Como revela a DJ, em muitas escolas para crianças surdas, ou com deficiência auditiva, a disciplina de música não é ofertada na grade curricular.
Uma razão disso, ela expõe, é a falta de formação para professores no ensino musical de surdos.
“É preciso mudar a educação de surdos, porque todas as escolas surdas não têm música. Às vezes o professor não sabe como se adaptar, entende música, mas tem medo de fazer errado porque nunca aprendeu como é possível ensinar música para o surdo.”
Quer ser professora
Frente a esse desafio, Helenne diz que no futuro pretende lecionar música para crianças surdas, e mostrar que a surdez não é um impedimento para quem sonha em trilhar no âmbito musical.
“É diferente uma família e comunidade que estimula esse aprendizado. Eu quero mostrar que a música é boa para o surdo.”
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira