AMANDA CAVALCANTI
(FOLHAPRESS)
Quanto maior o voo, maior a queda. Apesar da quantidade de rappers internacionais de sucesso na década passada que caíram em desgraça nos últimos anos Nicki Minaj e Ye, o Kanye West, são os exemplos mais extremos talvez ninguém tenha sentido esse baque tão publicamente quanto Drake.
Há dez anos, ele lançava “Views”, seu quarto álbum de estúdio, de onde saíram os enormes hits “Hotline Bling” e “One Dance”. Naquele ponto, era difícil achar um nome que rivalizasse com o canadense pelo posto de rapper mais popular do mundo.
Mas os anos seguintes trouxeram uma sequência de trabalhos imemoráveis e brigas públicas que mancharam sua reputação a principal, com Kendrick Lamar, rendeu um megahit ao californiano em 2024, “Not Like Us”.
Nesta sexta, Drake retorna com não um, não dois, mas três álbuns de estúdio seus primeiros trabalhos solo desde “For All the Dogs”, de 2023, e a infame briga com Lamar. “Maid of Honour” e “Habibti” são álbuns mais curtos, dançantes e descontraídos; a estrela do show é “Iceman”, álbum que o artista promete desde 2024 e que toca em temas mais pessoais e contemporâneos. A referência da capa a Michael Jackson é um toque nada sutil.
Mesmo em seus períodos de sucesso extremo, Drake sempre foi uma espécie de saco de pancadas para o público de rap. Primeiro, por sua origem suburbana nascido em Toronto, o rapper foi, antes de sua carreira musical, uma estrela de série adolescente e, em segundo, pela facilidade com que punha suas vulnerabilidades em sua música. Às vezes, de forma tão sincera que beirava o ridículo numa cultura que, por muitos anos, condecorou a hombridade viril.
Mas a ridicularização não impediu, ou talvez tenha até contribuído, para que o rapper se tornasse um dos mais influentes da década passada. Seu hip-hop com toques de R&B e soul foi um dos pontos de partida de artistas de trap que passaram a fazer um som mais suave e sentimental. Como escreveu o filósofo e crítico musical Mark Fisher em seu blog K-Punk sobre “Take Care”, álbum de 2010, a capa é perfeitamente descritiva da fórmula de Drake o homem que tinha tudo, mas a quem ainda faltava algo real.
O problema que mais diretamente atinge “Iceman”, e que atingiu muitos lançamentos do canadense antes deste, é que Drake parece completamente alheio a esse aspecto de sensibilidade que torna a sua música atrativa em primeiro lugar.
Em muitas faixas do álbum que tem desnecessários 68 minutos de duração, Drake parece mais preocupado em fazer pose do que em mostrar o que ele realmente sente. Faixas como “Janice STFU” e “What Did I Miss?” passam batido por esse exato motivo. (Esta segunda, ele começa dizendo “não ligo se você me ama/ não ligo se você gosta de mim”. Será mesmo, Drake?)
Sua maior fraqueza é seu maior poder. Quando Drake mostra medo, mágoa e fragilidade, sua música ganha força. Um exemplo é o quarteto de faixas irmãs “Make Them Cry”, “Make Them Pay”, “Make Them Remember” e “Make Them Know”. Rimando sobre o diagnóstico de câncer de seu pai, a preocupação com sua imagem na imprensa e as paranoias que se instalaram em sua cabeça após a batalha pública com Kendrick Lamar, o rapper tira da manga suas melhores qualidades a voz suave cantada, o flow descompromissado, as escolhas de instrumentais cheios de alma.
O rapper também volta a expor seu ótimo ouvido para “beats”, aspecto que fez falta em lançamentos mais recentes. Com suas múltiplas trocas de batida numa única música e um uso distinto de “samples” de R&B, o álbum chega a lembrar alguns dos melhores momentos de Drake em trabalhos como o clássico “Nothing Was the Same”, de 2013, e “Scorpion”, de 2018. A incorporação de batidas de pista, presente também nos álbuns adjacentes a “Iceman”, também é interessante destaque para o electro de “2 Hard for the Radio”.
No geral, “Iceman” é um álbum inflado, que poderia usar de um bom corte em seu repertório, mas com bons momentos. A fase que ele e, logo, também “Maid of Honour” e “Habibti” representa na carreira de Drake só vai ficar mais clara com o passar dos anos. No agora, os álbuns foram uma tentativa de virar a página de sua disputa com Lamar, que foi claramente perdida pelo canadense. Serviram, também, ao que tudo indica, para livrar Drake de seu contrato com a UMG, gravadora dos dois rappers, com a qual ele está insatisfeito desde o sucesso de “Not Like Us”.
É difícil saber para onde ele vai daqui, mas uma coisa é certa Drake seguirá sendo o rapper que todos amam odiar e seguirá alcançando o sucesso comercial que sempre teve. O homem que tem tudo principalmente a falta.
ICEMAN, MAID OF HONOUR E HABIBTI
- Avaliação Bom
- Quando 15 de Maio de 20226
- Onde Canadá
- Autoria Drake
- Gravadora Universal Music Group