Será que a humanidade está pronta para tanto conhecimento? A nova empreitada cinematográfica do francês Luc Besson, Lucy, é uma obra metafórica que questiona a relação das pessoas com a memória no século 21. Estamos vivendo em um mundo com amplo acesso a uma infinidade de informações e memórias artificiais, o que nos torna vítimas do caminho sem volta da dispersão constante.
Ficção científica disfarçada de filme de ação, o longa se mune de várias referências, como Matrix e 2001 – Uma Odisseia no Espaço, para contar a saga de uma mulher que se torna uma pseudo-super-heroína ao virar cobaia de experimentos que a permitem conseguir utilizar seu cérebro além da nossa possibilidade.
Todos sabemos da capacidade de Luc Besson para dirigir e escrever cenas de ação, especialmente quando a personagem é mulher (vide box). A protagonista da vez é Scarlett Johansson, atriz que consegue se sair bem em drama, comédia e ação. Mas o diferencial aqui é que o filme vai além de uma estética avassaladora e consegue embutir uma reflexão filosófica numa história que segue fielmente o padrão dos filmes hollywoodianos, cheios de explosões e pancadaria.
Na primeira cena, acompanhamos Lucy – o australopiteco mais antigo conhecido pelo homem – tentando aprender a beber água em um riacho. Somos levados para o presente, quando conhecemos a história de outra Lucy, uma norte-americana que mora em Taiwan, onde acaba caindo nas mãos de traficantes liderados pelo sempre ótimo Min-sik Choi (Oldboy). Ela, então, é obrigada a virar mula para levar uma nova droga para a Europa.
Ótima sacada
Algo acontece e a substância acaba sendo absorvida pelo organismo da jovem, que passa a ter gradativamente uma série de habilidades especiais. Basicamente ela ganha superpoderes bem bacanudos.
Somos convidados a descobrir o progresso das capacidades cerebrais de Lucy de uma forma bem visual graças a uma ótima sacada de Besson de intercalar as cenas de ação de Scarlett com a palestra do professor Samuel Norman, interpretado por Morgan Freeman, que nos explica o poder da capacidade humana. Cada descoberta de Lucy é explicada indiretamente por Norman.
Roteiro ágil e de fácil assimilação
Apesar de questões filosóficas e científicas, tudo no filme é muito bem-amarrado, com um roteiro ágil e de fácil assimilação. A fita peca apenas por ser talvez ser curto demais, já que só tem 89 minutos. Mas a atuação de Johansson nos ajuda a gostar do filme e embarcar na loucura de Besson.
A Lucy criada pela atriz é uma mulher frágil. Aos poucos, quando passa a entender o mundo ao seu redor, ela fica cada vez menos humana.
Fotografia sedutora
Luc Besson assina a direção e o roteiro. Além da direção característica e muito bem-acertada do cineasta francês, Lucy traz um primoroso trabalho de direção de arte. A sedutora fotografia do filme foi crida por Thierry Arbosgast, o mesmo de Femme Fatalle, do Brian DePalma.
Lucy pode não ser tão bom como La Femme Nikita e O Profissional, mas definitivamente mantém a qualidade dos filmes de ação feitos por Besson. Principalmente por mostrar que o cineasta consegue se manter atrativo mesmo quando explora temas um pouco mais complexos que os de blockbusters e franquias tão na moda no momento.
Atrizes boas de briga
Luc Besson adora uma garota bonita de arma na mão. Antes de Lucy, fez Nikita (1990), com a francesa Anne Parillaud, e dirigiu a ex-modelo ucraniana Milla Jovovich em O Quinto Elemento (1997).
Com Milla, que também dispara tiros e pontapés na franquia Resident Evil, ele repetiu a dobradinha em Joana d’Arc (1999).
Falando em belas que assumem grandes franquias de filmes de ação, podemos citar também a inglesa Kate Beckinsale, que deixou filmes água com açúcar para pegar em armas na tetralogia Anjos da Noite.
Já Jennifer Lawrence criou uma nova “categoria” de atriz: ganha Oscar em dramas (O Lado Bom da Vida), mas faz filmes de ação, como a franquia Jogos Vorazes.