Redação Jornal de Brasília/Agência UniCeub
Por Isabela Gullane
A escritora e filósofa Djamila Ribeiro, de 46 anos, defendeu, durante a Bienal do Livro de Brasília, interlocução com diferentes camadas da sociedade para tratar de temáticas de cidadania e antirracistas. “Não quero ficar numa bolha acadêmica. Quero falar com as pessoas, ao invés de falar para as pessoas. A linguagem é poder e a gente escolhe com quem falar”, disse.
A escritora defendeu a democratização da literatura e dos espaços de acesso ao conhecimento.
Para Djamila Ribeiro, falar sobre literatura vai muito além de discutir livros. Em uma sociedade marcada por desigualdades, o acesso à leitura também envolve a possibilidade de participar do debate público, encontrar representações de si e ocupar espaços historicamente restritos.

“Eu acredito que a gente tem que trabalhar cada vez mais para democratizar o acesso à literatura, políticas públicas, criação de mais bibliotecas”, afirmou.
A preocupação com o acesso ganha ainda mais importância, segundo Djamila, diante das transformações provocadas pelas redes sociais e pelas novas formas de linguagem entre os jovens. Para ela, é preciso pensar em maneiras de aproximar a literatura das novas gerações e garantir que os espaços de leitura permaneçam acessíveis.
A defesa da democratização também passa pela própria forma como Djamila escolhe escrever. Ao falar sobre temas complexos, ela destaca a influência da tradição de intelectuais como Lélia Gonzalez e a importância de não restringir o conhecimento à universidade.
“Ninguém tem obrigação de saber”
Formada em filosofia, Djamila afirma que o leitor não precisa dominar os conceitos acadêmicos para participar das discussões propostas em seus livros.
“Eu estudei filosofia e ninguém tem obrigação de saber”, afirmou. Para ela, escrever de maneira acessível é também uma forma de convidar diferentes públicos para o debate.
Reconhecimento
Essa aproximação entre literatura e vida cotidiana também aparece em Cartas para minha avó, obra em que Djamila revisita memórias familiares e experiências pessoais. Entre elas, estão as lembranças relacionadas às experiências amorosas e à maneira como o racismo atravessa a construção da autoestima e do desejo.
A percepção de que o racismo também influenciava a forma como meninas negras eram vistas começou, para a escritora, ainda na infância. Na escola, experiências aparentemente comuns já revelavam uma hierarquia de beleza.
“Eu acho que desde criança, na escola, festa junina, os meninos faziam as listas das meninas mais feias da sala. Desde criança já fui percebendo que meninas como eu não eram vistas dessa maneira e, pela própria TV, com só mulheres loiras na TV”, contou.
Para Djamila, essas experiências mostraram desde cedo que o racismo não estava restrito às relações institucionais, mas também atravessava a maneira como as pessoas aprendiam a olhar umas para as outras e a si mesmas.
“Desde cedo, eu entendi que o racismo tinha uma forma fundamental na forma de se relacionar”, afirmou.
É nesse encontro entre experiência pessoal e debate público que Djamila encontra parte da potência da literatura. Para ela, democratizar o acesso aos livros também significa abrir espaços onde as pessoas podem construir conhecimento, elaborar suas próprias experiências e participar da sociedade.
“Falar de literatura é falar de cidadania”, afirmou.
Na visão da escritora, portanto, a democratização não está apenas em colocar livros à disposição, mas em garantir que bibliotecas, políticas públicas e outros espaços de leitura sejam efetivamente ocupados pela população. Em um cenário em que as redes sociais disputam a atenção das novas gerações e multiplicam as formas de linguagem, a literatura continua sendo, para Djamila, um espaço de emancipação.
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira