Menu
Literatura

Livro-reportagem sobre aborto investiga violações contra mulheres e uso político do tema

O livro-reportagem escrito por Angela Boldrini e Carolina Moraes acompanha casos emblemáticos de aborto legal no Brasil que definiram o rumo do debate acerca do tema no país

Redação Jornal de Brasília

10/09/2026 17h48

livro reportagem agencia ceub

Foto: Reprodução

Redação Jornal de Brasília/Agência UniCeub
Por Ana Carolina Rubo

O tema do aborto no Brasil se transformou em um dos protagonistas do debate público brasileiro a partir de estigmas relacionados à moral e à religião. Nesse contexto, as jornalistas, Angela Boldrini e Carolina Moraes lançam, nesta semana em Brasília (DF), o livro Coreografia da Escolha .

A obra investiga a discussão sobre o tema a partir de casos noticiados, que tomaram o rumo das discussões nas últimas décadas. As jornalistas participam de uma roda de conversa nesta quinta (10), com a professora Flávia Biroli, na UNB, a partir das 18h.

Colapso

As repórteres, que são autoras do podcast “O Caso das 10 mil”, investigaram o maior processo criminal, no Brasil, relacionado ao aborto. O princípio parte do colapso da Clínica de Planejamento Familiar de Campo Grande (MS). Elas relatam as consequências do caso e colhem relatos de mulheres afetadas após as investigações policiais.

A exposição midiática do caso tornou o aborto como centro no debate público brasileiro, em 2007, sendo tratado como tema religioso e moral — não como um tema de saúde pública.

Motivação

A ideia da obra surgiu em 2022 após uma entrevista para o podcast “Sufrágio”, realizada por Angela Boldrini com a feminista Jaqueline Pitanguy, que foi presidente nacional do Conselho dos Direitos das Mulheres.

“Eu percebi, no escritório dela, um cartaz de uma campanha que tinha uma mulher nua com a escrita ter ou não ter filhos: uma escolha. Era uma propaganda do Ministério da Justiça. Tínhamos acabado de presenciar o episódio em Santa Catarina, no qual uma juíza perguntou a uma menina de 11 anos se ela não conseguiria aguentar mais um pouquinho (a gravidez)”.

Mudança de cenário

Angela relata que depois disso, decidiu investigar em que momento a discussão do direito do aborto havia mudado completamente.

“Nosso desejo é dar um rosto, um contorno, uma biografia para essas mulheres. Mostrar que essa pergunta de se você é a favor ou contra o aborto, ela não é suficiente para lidar com a nuance da vida real das pessoas”, explica a repórter Carolina Moraes

Em ano eleitoral, a instrumentalização do tema volta ao debate, mas dificilmente tratado com a atenção e seriedade necessária. “(O tema) sempre aparece num tom de acusação, acusar o oponente de ser a favor do aborto. Ele nunca é debatido enquanto uma proposta de política pública, enquanto um procedimento de saúde concreto”, elucida Boldrini , sobre o uso da pauta como moeda de troca em palanque eleitoral.

Aborto no Brasil

Segundo o Datasus, de janeiro a março, de 2026, um total de 1.140 mulheres realizou aborto pelo SUS por razões médicas ou legais. Segundo o IBGE 7,4 mihões de brasileiras já realizaram aborto, por ano, cerca de 800 mil mulheres, dessas, 200 mil recorrem ao SUS para tratar sequelas de procedimentos de aborto ilegal. A interrupção da gravidez, feita de forma inadequada, é o quinto causador de mortes maternas no Brasil.

“Quando a gente fala de público vulnerável ao aborto clandestino, podemos pensar nas mesmas desigualdades que a gente vê em outras outros recortes da sociedade”, afirmou Angela Boldrini.

Segundo dados do abortonobrasil.info as mulheres que abortam têm perfis diversos, mas há maior proporção está em casos daquelas que têm menor escolaridade, ganham até um salário mínimo e é maior entre mulheres pretas, pardas e indígenas.

Legalização

O serviço de aborto no Brasil foi instucionalizado em 1940, mas apenas em 1989 o serviço legal foi implementado, e em 1999 o procedimento passou a ser estruturado, após a publicação da Norma Técnica do Ministério da Saúde sobre atendimento á vítimas de violência sexual. Em 2012, o Supremo Tribunal Federal (STF) incluiu casos de anencefalia fetal como uma hipótese permitida para a interrupção da gravidez.

Entre os casos emblemáticos, investigados em “A Coreografia da Escolha”, está a interrupção da gravidez de uma menina de 10 anos, do Espírito Santo, que foi vítima de estupro de vulnerável e estava gestante de mais de 20 semanas.

A repercussão midiática e exposição do caso geraram forte comoção nacional, ativistas religiosos protestaram na frente do hospital onde a menina— que precisou entrar escondida, para realizar o procedimento.

O Código Penal não estabelece limite de tempo para realização do aborto, em casos permitidos por lei. “(A disponibilidade do serviço) é necessária porque afeta principalmente mulheres e meninas em situação de vulnerabilidade, que não tiveram como acessar esse procedimento antes”, esclarece Boldrini.

O grande gargalo de contar essas histórias é não revitimizar as mulheres que passaram pelo procedimento e violências institucionais, segundo Angela Boldrini, não expor e não insistir para que envolvidos em casos de aborto legal se pronunciem.

“Pesquisamos muitas coisas que estavam na época de transição tecnológica, então, tem reportagens de jornal que são difíceis de encontrar em acervos, jornais menores não têm arquivos, os arquivos dos jornais grandes também só mantêm o que foi publicado no jornal impresso”, diz a jornalista.

Barreira

Segundo Carol Moraes, a maior barreira que cerca o tema é o acesso à informação: “Muitas mulheres não sabem que têm acesso ao aborto previsto em lei. Inclusive, nós conversamos com várias mulheres que tentaram o aborto de maneira clandestina primeiro e só depois acessaram o aborto legal, porque encontraram informações depois de ter falhas no procedimento feito de maneira clandestina”.

As redes de apoio e médicos sofrem forte ofensiva, sem respaldo do governo, conforme explicam as jornalistas. “Nós temos médicos fazendo pesquisa de ponta e liderando serviços de aborto legal com muita qualidade. Os próprios médicos que decidem trabalhar com isso sofrem ataques da própria classe”, lamenta Carolina Moraes.

Serviço:
Coreografia da escolha: a disputa pelo aborto no Brasil

Fórforo Editora – 304 páginas

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado