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Literatura

Gravidez na adolescência mantém mulheres negras em ciclo de pobreza, diz jornalista em novo livro

A obra, lançada em junho, reúne dados para mostrar que a gravidez na adolescência não é uma falha individual das meninas

Redação Jornal de Brasília

23/07/2026 13h20

Joyce Ribeiro jornalista

Foto: Reprodução/ Instagram

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

Em 20 anos de carreira, a jornalista Joyce Ribeiro reportou inúmeras notícias sobre gravidez na adolescência. A cada novo dado, com diferença de um ou cinco anos, ela percebia a falta de avanços.

Eram esses dados que vinham à sua mente, diz, quando meninas adolescentes perguntavam o que poderiam fazer para chegar ao mesmo lugar que ela profissionalmente. Joyce se tornou a primeira mulher negra a apresentar sozinha um jornal diário em horário nobre em 2018 e hoje apresenta o Jornal da Tarde com Aldo Quiroga, ambos na TV Cultura.

Para que as meninas alcançassem esse sucesso, diz, ela respondia que era necessário um foco total na educação, e acrescentava: “Não ter uma família com 16 anos”. Antecipar essa gravidez iria dificultar um cenário já muito difícil, especificamente para mulheres negras e vulnerabilizadas, afirma Joyce, escritora do livro “Nem cresci e já sou mãe: relatos sobre gravidez na adolescência”.

A obra, lançada em junho, reúne dados para mostrar que a gravidez na adolescência não é uma falha individual das meninas. É um reflexo de vulnerabilidades sociais, raciais e de gênero que mantêm meninas e mulheres, principalmente negras, em um ciclo de pobreza.

Segundo o IBGE, 7 em cada 10 mães adolescentes são negras, e 6 em cada 10 não trabalham nem estudam.

“Dados também mostram que essas meninas já vieram de um contexto de mães muito jovens e de poucos recursos. Pais mais escolarizados dão um suporte maior para filhas adolescentes, que postergam a gravidez”, diz Joyce.

Conforme o livro, em cenários de pobreza extrema e ausência de lazer ou oportunidades, algumas adolescentes podem ver a maternidade como uma única via de busca por autonomia ou realização pessoal.

Além disso, quando a menina engravida antes dos 19 anos, diz Joyce, a responsabilidade pelo sustento e cuidado da criança recai quase que exclusivamente sobre um núcleo familiar feminino, composto pela jovem mãe, a avó e a bisavó.

Pesquisa citada no livro mostra que 25% dos meninos deixam de estudar após se tornarem pais, contra 60% das meninas, e apenas 35% acompanham o pré-natal.

Segundo a FGV (Fundação Getúlio Vargas), 52 em cada 100 lares brasileiros são chefiados por mulheres, em sua maioria negras com ensino médio ou superior incompleto. Elas ganham 30% menos que os homens e, como mães-solos, a diferença chega a 41%.

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Todas as jovens mães entrevistadas relataram solidão durante a gestação. Fora da escola, abandonadas pelos pais e rechaçadas pela família, carregam sozinhas o ônus de um problema coletivo.

“Sempre fui eu por mim mesma, desde muito cedo e, quando você se sente sozinha no mundo, é tudo mais complexo”, diz Gabriela Pires Gomes, moradora de Ceilândia, na periferia do Distrito Federal, em relato publicado no livro. Quando descobriu a gravidez, seu pai parou de falar com ela, o que durou quatro anos. O namorado foi embora uma semana depois do nascimento do filho.

“Nessa época, eu já tinha parado de estudar. No fim da gestação, não estava mais dando conta de ir à escola; as pernas inchavam, e eu já não suportava o peso do corpo. Não tinha cabeça para fazer deveres, estudar ou prestar atenção”, diz Gabriela no relato. Ela afirma que passou anos dependendo da caridade de parentes, sem apoio emocional ou financeiro.

“Essa gravidez antecipada muitas vezes determina o futuro das meninas, ali naquele momento, com 17, 18 anos. Nada acaba sendo como elas planejaram ou deixaram de planejar. Isso me deu mais motivação [para escrever o livro]”, diz Joyce.

Ainda assim, as meninas escolhidas por Joyce para terem seus relatos publicados conseguiram superar as adversidades da maternidade precoce e reconstruir suas trajetórias.

Gabriela enfrentou solidão, depressão pós-parto e problemas financeiros com ajuda de uma cunhada. No projeto “Jovem de Expressão”, fez cursos gratuitos de fotografia e audiovisual.

Hoje, profissional da área, é responsável pelo coletivo “Mães no Audiovisual”, que oferece formação para outras mães que enfrentam hostilidade no mercado de trabalho.

Joyce buscou traçar como as meninas e mulheres negras podem sair do ciclo de pobreza. A resposta é que elas precisam de apoio. O livro defende uma responsabilidade coletiva que retire o ônus exclusivo das meninas e envolva o Estado, a escola e a família em um acolhimento sem julgamentos.

Para alcançar esse objetivo, por exemplo, leis que garantem o direito aos estudos de meninas grávidas deveriam funcionar, assim como a educação sexual na escola e dentro de casa. Ela destaca ainda a urgência de uma “ejaculação responsável”, na qual homens assumam seu papel na contracepção.

“As histórias das meninas me fizeram acreditar que [o resultado após a gravidez na adolescência] pode ser diferente do fatalismo. Mas desejo que a nossa busca enquanto mulheres não precise ser sobre superar algo que deu errado e sim sobre se construir nas fases e momentos certos”, diz Joyce.

NEM CRESCI E JÁ SOU MÃE: RELATOS SOBRE GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA

  • Preço R$ 69,90 (168 págs.)
  • Autoria Joyce Ribeiro
  • Editora Geração

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