A médica e escritora paranaense Cornelia Wendel transforma lembranças familiares em literatura no romance Uma maçã para quatro, publicado pela Editora Labrador. A obra mistura ficção e acontecimentos históricos para abordar os efeitos do Holocausto, da imigração e da herança emocional transmitida entre gerações, mostrando como traumas do passado continuam influenciando a vida de descendentes décadas depois.
Com mais de 400 páginas, o livro acompanha a trajetória de Corina, personagem cuja identidade é marcada pelas experiências da mãe, Bertha, sobrevivente da perseguição nazista. Ao longo da narrativa, também ganham destaque Ernest, avô ligado às tradições judaicas europeias, e Willy, um ex-soldado alemão que tenta reconstruir a vida no Brasil. A partir desses personagens, Cornelia explora temas como pertencimento, culpa, perdão, afeto e a convivência entre passado e presente.

Segundo a autora, a ideia de escrever surgiu após insistentes incentivos de um amigo que conhecia as histórias de sua família.
“Toda vez que eu contava algum caco incompleto da trajetória dos meus avós, ele falava: ‘Alemoa, tu tens que escrever sobre isso, tu tens muito pra contar, isso ainda vira um best-seller!’. E um belo dia rascunhei a primeira página e, de repente, as páginas fluíram uma atrás da outra até virarem Uma maçã para quatro“, relata.
Ao retratar os desafios enfrentados por sobreviventes da Segunda Guerra Mundial e seus descendentes, o romance propõe uma reflexão sobre o legado emocional deixado por experiências traumáticas. A personagem Bertha representa esse processo ao carregar marcas psicológicas que influenciam sua própria trajetória e a formação das filhas, evidenciando como os efeitos da guerra podem atravessar gerações.
Ambientada entre a Alemanha e o interior do Paraná, a narrativa também aborda a adaptação de famílias de imigrantes ao Brasil. O contraste entre culturas, o isolamento, as dificuldades da vida rural e a busca por identidade ampliam o alcance da história, que ultrapassa o contexto histórico para discutir questões universais relacionadas à memória, ao pertencimento e aos vínculos familiares.
Para Cornelia Wendel, a principal mensagem da obra está na permanência das conexões entre diferentes gerações.
“Se há uma mensagem nas entrelinhas dessa obra, o meu desejo é que ela toque o leitor de modo a escancarar o fio invisível que une gerações sem nunca ser cortado, apenas entrelaçado de formas diferentes entre cada personagem. O ar que eu respiro e o chão no qual piso trazem as marcas de cada antepassado meu, com todas as suas dores e alegrias. Eles estão em mim. E eu estarei em cada descendente que vier”, afirma a escritora.