Um livro comprado com o pai, algumas páginas lidas antes de começar o dia ou a companhia de uma obra durante a espera por uma consulta. O hábito da leitura pode começar de diferentes maneiras e encontrar espaço nas situações mais simples da rotina. No Distrito Federal, essa relação com os livros aparece em números superiores aos da média brasileira, 52% da população do DF é considerada leitora, enquanto o índice nacional caiu para 47%, segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro.
Entre 2019 e 2024, o Brasil perdeu cerca de 6,7 milhões de leitores. Na região Centro-Oeste, o percentual de leitores também é de 47%. O resultado coloca Brasília em uma posição mais favorável do que o cenário nacional, onde os não leitores passaram a representar a maioria da população pela primeira vez na série histórica do levantamento.
No Dia Nacional do Livro, celebrado hoje (29), os dados ajudam a ampliar a discussão sobre o espaço que a leitura ocupa no cotidiano. Entre as telas, as tarefas diárias e as diferentes formas de entretenimento, manter o contato com os livros depende de interesses pessoais, oportunidades de acesso e, muitas vezes, de exemplos encontrados dentro de casa.

Para quem cultiva esse hábito, no entanto, ler não significa apenas acumular páginas ou títulos. A experiência pode representar uma maneira de compreender outras realidades, questionar ideias e até descobrir novas formas de enxergar a própria vida.
Uma paixão que começa de diferentes formas
A relação da funcionária pública Maria Eduarda Roriz, de 24 anos, com os livros começou em um momento simples da infância. Quando o pai recebia um vale-cultura, os dois descobriram que o benefício poderia ser utilizado em uma livraria da cidade. Foi assim que compraram Fala Sério, Amor, da escritora Thalita Rebouças, obra que despertou o interesse da jovem pela leitura. “A leitura foi conquistando espaço na minha vida aos poucos e, com o tempo, deixou de ser apenas um hábito para se tornar uma forma de me conectar comigo mesma e com o mundo”, conta.
Hoje, Maria Eduarda procura manter os livros presentes na rotina, mesmo quando o tempo disponível é curto. Em vez de estabelecer uma meta rígida de títulos por mês, ela tenta reservar alguns minutos diários para ler. Quando não consegue estar com um livro físico ou o Kindle em mãos, recorre aos audiolivros. “Acredito que o segredo está em entender que não precisamos ter horas livres para ler, às vezes, alguns minutos já são suficientes para avançar na leitura e manter esse contato com os livros”, afirma.
Para ela, a leitura também modificou a maneira de interpretar situações e compreender pessoas com experiências diferentes das suas. O contato com outras histórias ampliou seu senso crítico e contribuiu para a forma como organiza e expressa os próprios pensamentos. “Ler também é uma maneira de me conhecer melhor, porque alguns livros nos fazem refletir sobre quem somos, no que acreditamos e quem queremos nos tornar”, diz.
Ler nos intervalos da vida
Para o psicoterapeuta Alexandro Barcelos, de 46 anos, a leitura já faz parte da rotina a ponto de acompanhar os pequenos intervalos do dia. Na sala de espera de um consultório, durante o deslocamento ou em qualquer momento livre, ele procura ter um livro por perto. “Eu leio livros praticamente todo dia. Onde eu conseguir parar ou tiver um minutinho, cinco, dez, esperando no médico, dentro de uma condução, onde estiver, eu tenho que ter um livro para ler”, conta.

Sem estabelecer uma quantidade fixa de obras por mês, Alexandro mantém a frequência diária e alterna leituras voltadas ao aprendizado com outras que servem como distração. Há também aquelas que, segundo ele, provocam mudanças mais profundas. “Para mim, a leitura tem esse caráter de transformação. Então, eu estou sempre lendo para aprender algo que eu não sei. Porque, por mais que se leia, quanto mais eu leio, mais eu sei que não sei”, afirma.
A percepção de Alexandro passa pela compreensão de que o conhecimento não se encerra em uma quantidade de livros lidos. Cada obra pode abrir novas perguntas e mostrar que ainda existem experiências, ideias e perspectivas a conhecer. Ao falar sobre a importância desse contato com as palavras, ele resume a experiência: “A vida fica mais rica quando você lê e você vive mil vidas em uma”.
A leitura como exercício de pensamento
O artista Victor Prôa, de 42 anos, não identifica um episódio específico que tenha despertado seu interesse pelos livros. Segundo ele, a leitura ganhou espaço inicialmente por meio das demandas escolares e, com o tempo, passou a se aproximar de seus interesses pessoais. Foi a partir do ensino médio que começou a ler com mais frequência, primeiro literatura e, posteriormente, obras técnicas.
Atualmente, parte de seu contato com os livros está relacionada a pesquisas para o trabalho artístico. Ainda assim, a leitura permanece como uma atividade que vai além da busca por informações. “Contribui muito para a qualidade do pensamento, para as influências. Serve de inspiração”, afirma.
Com formação em Filosofia, Victor descreve a leitura como um processo de questionamento. Ao encontrar uma ideia em um livro, procura compreender de onde ela veio, quais argumentos a sustentam e se concorda com o que está sendo apresentado. “Eu leio um negócio, eu não concordo. De onde veio isso aqui? Ou então começo a ver mais ou menos de onde veio essa ideia, para onde essa pessoa está indo”, explica.
Para ele, ler é estabelecer um diálogo que ultrapassa o próprio tempo e espaço. Por meio dos livros, é possível entrar em contato com pensamentos de autores que já morreram e confrontar diferentes formas de interpretar a realidade. Victor também considera que o interesse pessoal pode ser uma porta de entrada para quem ainda não desenvolveu o hábito. Em vez de começar por obras extensas ou títulos considerados obrigatórios, a sugestão é procurar assuntos que despertem curiosidade.
“Existem todo tipo de histórias sendo contadas. A literatura tem uma fonte infindável de entretenimento, de provocações”, diz. Contos curtos, poemas e outras formas de texto podem aproximar novos leitores dos livros sem exigir, logo no início, o compromisso com uma obra longa. Para o artista, o importante é encontrar algo que faça sentido para cada pessoa.
O exemplo começa dentro de casa
As experiências dos leitores ajudam a mostrar que não existe uma única maneira de desenvolver o hábito. Mas, para Henrick Oprea, diretor-geral da SIS Swiss International School Brasília, a convivência e as referências sociais também desempenham um papel importante na aproximação entre crianças, jovens e livros. O educador lembra que a queda no número de leitores brasileiros já era observada antes do período mais recente da pesquisa. Entre 2015 e 2019, o país havia perdido outros 4,6 milhões de leitores.
Na avaliação dele, a presença cada vez maior dos celulares na rotina contribui para transformar os comportamentos que crianças e adolescentes observam ao redor. Como o mesmo aparelho concentra atividades profissionais, comunicação e entretenimento, o tempo dedicado à leitura passa a disputar espaço com outras formas de consumo de conteúdo. “Crianças e jovens que veem seus pais (e os adultos de sua convivência em geral) sempre com celulares nas mãos acabam também por normalizar e reproduzir esse comportamento”, afirma.
Para Oprea, não basta dizer às crianças que ler é importante se elas não encontram exemplos desse hábito nos ambientes em que vivem. O incentivo precisa aparecer na prática, com adultos que também reservem tempo para os livros e compartilhem suas experiências de leitura.
Ele cita como exemplo a repercussão dos vídeos publicados pelo jogador de futebol Gustavo Scarpa sobre seu interesse pela literatura. Ao falar sobre o livro A Morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói, o atleta ajudou a ampliar a visibilidade da obra e despertou a curiosidade de pessoas que acompanham seu trabalho.
O episódio, segundo o diretor, mostra como referências admiradas pelo público jovem podem influenciar escolhas e despertar novos interesses. A formação do leitor, portanto, não precisa começar com uma cobrança ou uma lista de títulos obrigatórios. Pode surgir da observação de alguém próximo lendo, de uma conversa sobre uma história ou da vontade de conhecer um livro que despertou a curiosidade de outra pessoa.
Entre a obrigação e o prazer
Se a família tem papel importante na formação dos hábitos, a escola também pode criar condições para que os estudantes desenvolvam uma relação mais próxima com os livros. Para Oprea, porém, é necessário evitar que a leitura seja associada exclusivamente a avaliações, tarefas e exigências curriculares.
Uma das alternativas é oferecer liberdade de escolha dentro de um ambiente preparado para estimular o contato com diferentes obras. Bibliotecas com acervos variados e atualizados, espaços confortáveis, profissionais capacitados e momentos de compartilhamento podem tornar a experiência mais convidativa.
O diretor também defende que os interesses dos estudantes sejam respeitados. Histórias em quadrinhos, livros de aventura e textos curtos podem funcionar como portas de entrada para outros gêneros e obras mais complexas. “A leitura deve ser celebrada sem julgamentos”, defende.
Em casa, a recomendação é manter as obras acessíveis e permitir que as crianças explorem os títulos com autonomia. A familiaridade com os livros pode começar antes mesmo da alfabetização, quando eles passam a fazer parte do ambiente cotidiano. Para o educador, esperar que a escola seja a única responsável por despertar o interesse pela leitura é insuficiente. A formação do hábito exige a participação das pessoas que convivem com a criança, especialmente nos primeiros anos de vida.
Ler para além das provas
A importância da leitura também aparece no desenvolvimento de habilidades necessárias à vida escolar, como interpretação de texto, argumentação e construção de repertório sociocultural. Às vésperas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), essas competências ganham destaque, mas Oprea avalia que o valor dos livros não deve ser reduzido à preparação para uma prova.
O contato com a literatura permite conhecer experiências diferentes das vividas pelo próprio leitor e construir uma compreensão mais ampla da sociedade. Ao acompanhar os personagens e seus conflitos, o estudante é convidado a interpretar situações, reconhecer contradições e elaborar suas próprias conclusões.
Entre as obras que recomenda aos estudantes estão 1984 e A Revolução dos Bichos, de George Orwell; Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis; A Hora da Estrela, de Clarice Lispector; Vidas Secas, de Graciliano Ramos; e Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus. As obras abordam temas como desigualdade social, relações humanas, poder e organização da sociedade. Oprea também destaca a contribuição de livros de História e Filosofia para ampliar as referências dos estudantes.
Na avaliação do diretor, a redação do Enem não recompensa simplesmente a memorização de citações, mas a capacidade de utilizar conhecimentos de maneira pertinente na argumentação. “Um aluno que leu Vidas Secas com atenção não precisa de uma frase pronta sobre desigualdade social; ele tem uma imagem, uma família, uma experiência para argumentar”, afirma.
A leitura, nesse sentido, deixa de ser apenas uma ferramenta para melhorar o desempenho escolar e passa a contribuir para a autonomia intelectual. Ao entrar em contato com diferentes perspectivas, o leitor amplia suas referências e desenvolve recursos para interpretar a realidade.
Um hábito que se constrói todos os dias
A diferença entre os índices do Distrito Federal e do Brasil oferece um ponto de partida para discutir como a leitura se insere na rotina da população. Embora a pesquisa não explique, por si só, as razões para o percentual mais alto no DF, as experiências dos leitores mostram que o hábito pode ser construído de maneiras distintas: a partir de um livro descoberto na infância, da leitura durante os intervalos do dia ou da curiosidade despertada por uma ideia.
Para Maria Eduarda, manter esse contato com os livros é especialmente importante em um mundo no qual as informações chegam de maneira constante, mas nem sempre há tempo para refletir sobre elas. “A leitura nos convida a desacelerar, aprofundar o pensamento e desenvolver nossa capacidade de interpretar o mundo com mais autonomia”, afirma. A funcionária pública acredita que ler é também uma forma de ampliar o conhecimento e a compreensão sobre outras pessoas e realidades. “Manter esse hábito é investir na nossa liberdade de pensar, na nossa capacidade de compreender o outro e no nosso desenvolvimento pessoal”, diz.