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Aniversário de Brasília

De pau de arara ao Minhocão, o livreiro que construiu sua história nos 66 anos de Brasília

Há mais de cinco décadas na capital, Francisco Joaquim de Carvalho mas conhecido como Chiquinho construiu, entre páginas e afetos, uma trajetória que se confunde com a própria história da cidade, que celebra 66 anos

Alexya Lemos

21/04/2026 5h00

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Foto: Alexya Lemos/Jornal de Brasília

“O que aguarda o futuro?” A pergunta veio antes do aperto de mão. Francisco Joaquim de Carvalho, o Chiquinho, me recebeu assim, com uma interrogação no lugar de boas-vindas. Livreiro na Universidade de Brasília há mais de meio século, ele é uma dessas figuras que o tempo insiste em guardar. Homem e cidade cresceram juntos, envelheceram no mesmo compasso, acumularam as mesmas marcas de quem ficou. Brasília completa 66 anos nesta terça-feira (21), e Chiquinho é parte dessa conta.

Do Piauí para o Planalto Central, Chico chegou em 1967 como chegou tanta gente, num pau de arara, espremido entre outros 16 familiares, depois de dez dias de estrada poeirenta. Brasília ainda engatinhava, e ele também. A cidade prometia um futuro; ele veio cobrar a promessa.

Ainda jovem, começou a trabalhar vendendo jornais pela cidade em formação, acompanhando de perto o crescimento urbano e humano do quadradinho. Anos depois, após perder o emprego em uma livraria, voltou às ruas até ser chamado para atuar na Universidade de Brasília, entre 1975 e 1979. Em 1980, recebeu o espaço que ocupa até hoje no Minhocão, próximo à Faculdade de Arquitetura, ambiente que, ao longo do tempo, deixou de ser apenas ponto de venda para se tornar espaço de convivência, cultura e troca.

Chico livreiro
Foto: Arquivo pessoal

A relação com o curso é tão próxima que estudantes passaram a integrar iniciativas no local, como a “Roda de leitura com o Chico” e sessões de cinema organizadas por alunas, ampliando o alcance da livraria para além dos capítulos. As alunas Anna Beatriz Rubin e Ana Luiza ainda lutam para que Seu Chico se torne, juntamente com a livraria, patrimônio imaterial da cidade.

A trajetória de Chiquinho acompanha, em escala humana, a consolidação de Brasília como centro cultural e universitário. Assim como a capital, que nasceu de um projeto e se construiu a partir de encontros e deslocamentos, sua história também é marcada por travessias e permanências. No coração da universidade, seu espaço se tornou ponto de memória viva, onde diferentes gerações de estudantes, professores e visitantes encontram não apenas livros, mas também histórias compartilhadas.

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Foto: Alexya Lemos/Jornal de Brasília

Desde 1982, Chiquinho também constrói um acervo especial: uma coleção de autógrafos que hoje soma 570 assinaturas. O primeiro deles foi da escritora brasileira Cora Coralina, peça que ele guarda como relíquia e que segue exposta no espaço. Ao longo dos anos, nomes como Raoni, Fernanda Torres e Maria Bethânia assinaram obras para o “Chico da UnB”, deixando não apenas dedicatórias, mas histórias que ele preserva com o mesmo cuidado.

“A universidade me deu carinho, me deu um mimo, e eu sei que Darcy Ribeiro está dentro da livraria. Ele tá vendo que eu faço bem pra humanidade, pros leitores. Eu acho que [fazer um livro com os autógrafos e suas histórias] seria um reconhecimento da legitimidade.”

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Foto: Alexya Lemos/Jornal de Brasília

A vivência de décadas entre leitores também moldou suas opiniões sobre transformações contemporâneas, especialmente em relação à tecnologia. Ao abordar a inteligência artificial, ele recorre a referências filosóficas como Hegel e Walter Benjamin para fazer sua crítica. “A inteligência artificial não tem inteligência, ela não tem afeto, primeiramente, e ela não tem autoria. Então, portanto, ela não existe. É uma imaginação meio bestializada do ser humano. Não é o saber, é o des-saber.”

Para Chiquinho, o cenário atual da leitura reflete um afastamento institucional e social do livro, em contraste com o potencial cultural de uma cidade que chega aos 66 anos ainda em construção simbólica. “Hoje existe um desconhecimento, governamental, até estrutural, municipal, local, esse falta de conhecimento com a leitura. A leitura tá esquecida. Você fala mais em política do que sobre a leitura e a cultura do livro.”

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Foto: Alexya Lemos/Jornal de Brasília

Ainda assim, ele observa movimentos que apontam para uma possível retomada, especialmente entre jovens adultos. “Tem um público novo que é o os jovens de 18 a 26 anos, que estão cansados de tanta tela e estão redescobrindo o livro físico. Até para para sair com a namorada, para conversar sobre o livro, sobre as afinidades do mundo, o livro tem essa importância vital.”

Outro fenômeno recente que o surpreendeu foi o aumento de estudantes/leitores mais velhos ingressando na universidade, resultado da primeira turma aprovada nas 224 vagas disponibilizadas pela Instituição no primeiro ano do projeto “Unb 60mais”, reflexo de uma Brasília que amadurece junto com seus habitantes. “Esse jovem de 60 anos é um leitor importante, tradicional ele tem uma paciência e prudência para esperar o livro chegar, porque o jovem não tem tanta paciência.”

Entre diferentes gerações, ele identifica no livro físico uma experiência de concentração e profundidade que, em sua visão, se perde no ambiente digital. “Eu acho que, na leitura física, você para para ler 3 horas e nesse tempo você foca. Agora as 3 horas na internet, eu acho que você perdeu as 3 horas porque você não conseguiu focar e entender porque foi passageiro. Essa informação foi rasa. O livro físico é essencial para juventude, para toda do ser humano.”

Mais do que comerciante, Chiquinho se define pela rede de relações construída ao longo dos anos. “ A maior riqueza que eu tenho na minha vida é o capital, como diria Pierre Bourdieu, o capital cultural, é o capital da amizade, da sociabilidade, da espontaneidade, da amizade.” Em meio à rotina acelerada que observa ao redor, ele aponta a leitura como caminho de desaceleração e reflexão.

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Foto: Alexya Lemos/Jornal de Brasília

“Hoje as pessoas estão desembestadamente correndo, e eu não sei para quê, para o nada. A leitura aquieta as pessoas.”

Após mais de meio século dedicado aos livros e à convivência universitária, Chiquinho mantém um vínculo afetivo profundo com o espaço que ajudou a transformar, uma permanência rara em uma cidade relativamente jovem. “Acho que o melhor ouro que eu tenho não é o ouro do dinheiro, é o da memória, da amizade e da universidade. A universidade para mim é tudo na vida. A universidade me deu o que eu tenho. Eu quero morrer feliz na universidade, aqui nesse espaço que é de memória, de afetos e de encantos.”

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Amanhã, a série especial continua com histórias dos pioneiros do teatro em Brasília.

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