A escritora e socióloga goiana Carolina Santos participa da 4ª edição do Festival Literário de Paracatu (Fliparacatu) com o lançamento de Bocas Mestiças, publicado pela editora orlando. A autora apresenta a obra no dia 30 de agosto, às 10h, durante uma sessão de autógrafos no Centro Histórico de Paracatu, em Minas Gerais.
Vencedor do 2º Prêmio Tato Literário, na categoria Contos, o livro reúne narrativas escritas ao longo de 12 anos. Os textos se conectam para formar um mosaico sobre identidade, ancestralidade e resistência no Brasil contemporâneo, explorando as relações entre raça, gênero, classe, família, território e desejo.
Com uma escrita que combina realismo, lirismo e elementos fantásticos, Bocas Mestiças coloca mulheres, crianças e corpos dissidentes no centro das narrativas. Em vez de ocupar apenas o lugar de vítimas, essas personagens aparecem como sujeitos que enfrentam estruturas de opressão, reivindicam autonomia e reinventam suas próprias histórias.
O processo de construção do livro acompanha também transformações na trajetória pessoal e política da autora. Carolina explica que o primeiro e o último conto foram escritos com um intervalo de 12 anos, período que atravessou três eleições presidenciais e três Copas do Mundo.
“Eu comecei com a história de uma mulher jovem e solteira buscando sua revolução erótica e íntima, na defesa de uma solidão prazerosa e terminei com uma mulher que se vê empurrada de forma violenta e até mesmo trágica para uma revolução íntima e política”, afirma.
A relação entre experiências individuais e questões coletivas aparece como um dos eixos da obra. O conto de abertura conduz o leitor das margens do rio Araguaia às periferias de Brasília, aproximando violência histórica, memória e desejo de liberdade. A capital federal também ganha espaço em outras narrativas, apresentada a partir das marcas do Cerrado, das promessas de futuro e das camadas de memória e desigualdade que atravessam a cidade.
Outro elemento central é a boca, que funciona como símbolo da palavra, do desejo e das diferentes heranças que se encontram e se transformam. “Bocas Mestiças é um livro sobre corpos em disputa”, define Carolina. “Os contos abordam ancestralidade, raça, gênero, desejo, erotismo, afetos, espiritualidade, memória e território”.
O erotismo feminino também ocupa papel importante na obra. O prazer é apresentado como instrumento de autonomia e transformação, especialmente para mulheres e corpos dissidentes que reivindicam o direito de decidir sobre seus próprios desejos.
Entre as referências literárias da autora estão Jorge Amado, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Mia Couto, Conceição Evaristo, Gloria Anzaldúa e María Lugones. “Aprendi com eles que território, linguagem, memória e corpo podem ser inseparáveis”, conta.
Formada em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Carolina Santos é mestre em Literatura Pós-Colonial e Estudos de Gênero pelas universidades de Bolonha, na Itália, e Granada, na Espanha. Radicada em Brasília, sua trajetória reúne produção literária, pesquisa e atuação em defesa dos direitos das mulheres.
A experiência de transitar entre diferentes territórios também aparece em sua produção. “Sinto como se eu estivesse constantemente viajando entre-mundos”, afirma a escritora, que constrói sua ficção a partir do Cerrado, da experiência da mestiçagem e do diálogo entre diferentes geografias e linguagens.
Além do Prêmio Tato Literário, recebido em 2025, Carolina foi vencedora do Agente Jovem de Cultura, em 2011, e do Expressões Culturais Afro-Brasileiras, em 2012. Em 2014, foi finalista do Prêmio Sesc de Literatura.
Serviço
Lançamento de Bocas Mestiças, de Carolina Santos
Data: 30 de agosto
Horário: 10h
Local: Centro Histórico de Paracatu, Minas Gerais
Evento: 4º Festival Literário de Paracatu (Fliparacatu)
O livro está disponível no site da editora orlando.