A Brasília que existe para além dos palácios, dos prédios públicos e das manchetes políticas é o ponto de partida de “Setor de Contos”, primeiro livro da jornalista paraibana Fernanda Cunha. A obra foi lançada na sexta-feira (21), durante a Bienal Internacional do Livro de Brasília, e reúne 18 contos ambientados em diferentes espaços e momentos da capital federal.
Selecionado pela Editora Urutau em uma seleção que reuniu autores de seis estados, o livro apresenta uma Brasília vista por diferentes vozes. Nativos, pessoas que chegaram de outras partes do país e estrangeiros que escolheram a cidade para viver aparecem entre os personagens que dão vida às histórias.
A relação da autora com a capital começou há 16 anos, quando se mudou para Brasília. Desde então, Fernanda percebeu que a cidade costuma ser associada, principalmente, à política e ao poder. A partir dessa percepção, surgiu o desejo de construir uma narrativa que apresentasse outros aspectos da vida brasiliense.
“Brasília é, sim, política, mas é também arte, é literatura, são os ipês florescendo e a seca nos castigando e, principalmente, Brasília é vida. Aqui se vive, aqui mora gente. E gente passa pelos mesmos dramas em qualquer cidade do mundo. Solidão, relações familiares, pertencimento, saudade, culpa, mágoa, amor, questões mentais e problemas sociais”, afirma.
Para Fernanda, embora esses sentimentos sejam universais, cada cidade encontra maneiras próprias de vivenciá-los. “E eu quis olhar para essas questões a partir de Brasília”, explica.
Um setor para histórias que não viram manchete
O próprio título do livro brinca com a organização característica da capital. Brasília tem Setor de Clubes, Setor de Autarquias, Setor Hoteleiro e tantos outros. Fernanda criou, então, o seu próprio espaço: o “Setor de Contos”.
É nesse território imaginário que estão histórias que normalmente não aparecem nas manchetes ou nos cartões-postais da cidade. São personagens comuns, situações cotidianas e conflitos particulares que ajudam a construir uma outra imagem da capital.
Um dos contos acompanha uma mulher que está presa dentro do próprio apartamento e tem no cobogó sua única conexão com o mundo exterior. A passagem do tempo é percebida pelas mudanças na luz, pelos sons da cidade e pela paisagem observada através da estrutura.
“São tantas as coisas que o cobogó deixa mais bonitas. Aqui de cima, a poeira é dourada e cai mais lentamente”, escreve a autora.
Em outra história, o protagonista é um trabalhador que vive em uma cidade-satélite e questiona a própria ideia de Distrito Federal. Para ele, Brasília seria como um avião que precisa estar constantemente em movimento, enquanto as pessoas que garantem seu funcionamento permanecem invisíveis.
“E o povo que trabalha no avião? Quem leva a comida para os passageiros, quem limpa esse avião para ele voar todo dia?”, questiona o personagem.
A obra também conversa diretamente com quem visita Brasília rapidamente. Em um dos contos, uma voz critica o olhar superficial de um turista que permanece apenas um fim de semana na capital e não chega a conhecer as diferentes camadas da cidade.
“Se você tivesse ficado mais teria saído das linhas retas e entrado nas curvas da cidade que eu bem sei, você achou parecida com uma maquete. Brasília é cidade. Mais respeito, por favor.”
A narrativa ainda brinca com elementos do cotidiano brasiliense, como as passarelas, o Eixão, os pontos de ônibus e até o carnaval. A intenção é reforçar que a arquitetura planejada não determina a experiência de quem vive na cidade.
Uma Brasília que vai além do Plano Piloto
Expandir o conceito de Brasília foi uma das prioridades de Fernanda durante a construção do livro. Por isso, os personagens transitam por diferentes regiões do Distrito Federal, em histórias que mostram como os deslocamentos fazem parte da rotina de quem vive na capital.
“As pessoas estão sempre indo e vindo entre Plano e Satélites, e nessas idas e vindas a vida acontece e esses encontros produzem histórias”, conta.
A autora também buscou reunir diferentes perspectivas sobre a cidade, dando espaço a personagens com origens e experiências diversas.
“Longe de mim querer fazer um catálogo das pessoas que vivem aqui até porque isso seria humanamente impossível em apenas 18 contos. Eu quis, antes de tudo, mostrar a diversidade de olhares que pode existir dentro de uma mesma cidade”, explica.
Essa multiplicidade aparece não apenas nos lugares retratados, mas também nas relações dos personagens com Brasília. A cidade pode ser acolhedora para alguns, hostil para outros e, em muitos casos, as duas coisas ao mesmo tempo.
Uma capital de contrastes
Apesar de ser construído como uma declaração de afeto à cidade, “Setor de Contos” não apresenta uma Brasília idealizada. A capital aparece marcada pelas suas contradições, pelas belezas naturais e também pelos problemas sociais.
“Brasília tem belezas naturais, mas também tem feiuras sociais, como em todo lugar”, afirma Fernanda.
Na obra, a cidade assume diferentes papéis. Em determinados momentos, aparece como vilã; em outros, como vítima de quem a conhece apenas superficialmente. Há personagens que a amam, outros que não se identificam com ela e aqueles que vivem uma relação ambígua com o lugar que escolheram para morar.
É justamente essa multiplicidade que a autora quis colocar no centro do livro: uma Brasília que não cabe apenas na Esplanada dos Ministérios, nos cartões-postais ou na imagem de cidade planejada. Uma capital feita também de pessoas, encontros, deslocamentos, afetos, conflitos e histórias que continuam acontecendo todos os dias.