Do regionalismo brasileiro ao realismo fantástico, passando pela complexidade da política em “escrevinhados” únicos, sarcásticos e bem-humorados. Em outra frente, poesia, filosofia, teologia, o amor à educação e ao ensino. No mês passado, grandes escritores, poetas e dramaturgos nos deixaram. A eleição para substituir os imortais João Ubaldo Ribeiro, Ariano Suassuna e Ivan Junqueira na Academia Brasileira de Letras já tem data certa.
Dentre os pré-requistos exigidos para a inscrição à vaga na ABL estavam as exigências de ser brasileiro nato e ter ao menos uma obra literária publicada. Os imortais da academia devem eleger os substitutos de Junqueira, Ubaldo e Suassuna nos dias 9, 23 e 30 de outubro, respectivamente. O período de inscrição para a substituição se deu num prazo de 30 dias após a data de falecimento.
Em reunião realizada no início deste mês, os membros da ABL anunciaram as candidaturas do escritor e poeta Ferreira Gullar para a vaga de Junqueira; do historiador Evaldo de Mello para a cadeira de João Ubaldo; e o jornalista e escritor Zuenir Ventura para a sucessão de Suassuna. Tudo indica que não deve haver disputa com outros candidatos.
Além de bradarem o Brasil, ambos ocupavam as cadeiras da Academia Brasileira de Letras. Poeta e tradutor, Ivan Junqueira também deixou suas letras conhecidas, além de dois livros inéditos, que serão lançados pela editora Rocco. Autor que refletia a transitoriedade da literatura brasileira, suas obras Reflexos do Sol Posto e Essa Música têm previsão de lançamento para outubro.
Brasileiríssimo
Ao citar o autor de Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, o escritor Eduardo Alves da Costa é quem destaca a linguagem regional e delicada do mestre. “Suassuna sabia valorizar a literatura de cordel, que herdamos de Portugal. Ele fala do Nordeste com propriedade, adentra nos sertões”, opina.
Outras grandes perdas literárias
Julho foi mesmo um mês marcado pela tristeza no mundo das letras. E o legado único desses grandes homens que, coincidentemente, partiram na mesma época, é agora imortalizado entre nós. Suas letras, palavras e importância para a literatura permanecem vivas para nosso deleite.
Quem também partiu em julho foi o escritor, teólogo e educador Rubem Alves, que costumava dizer que “ensinar é um exercício de imortalidade”. De alguma forma, continuaremos a vivenciar suas lições por meio de seus livros, pela magia de suas palavras. “Rubem criou uma bagagem humanista e filosófica que revolucionou a educação”, explica a doutora em literatura brasileira Sylvia Helena Cyntrão.
Internacional
Não foi só o universo literário brasileiro que ficou triste este ano. Em abril, nos deixava o escritor colombiano ganhador do Nobel de Literatura Gabriel José García Márquez, autor de obras como Cem Anos de Solidão e Memória de Minhas Putas Tristes.
“Só me dói morrer se não for de amor”, escreveu Gabo em seu delicado e intenso romance O Amor nos Tempos do Cólera. Um dos primeiros escritores a partir este ano, Garcia Márquez se foi, mas deixou um rico legado composto por obras como Crônica de Uma Morte Anunciada, Do Amor e Outros Demônios, dentre tantos outras que ficaram para a posteridade.
Conhecido por ser um dos criadores do gênero realismo fantástico na literatura latino-americana, em seus livros, o irreal se aglomera no cotidiano de uma forma sutil e única, fazendo o leitor viajar por esse universo de magia.
Ponto de vista
Escritor e cronista, o baiano João Ubaldo Ribeiro marcou a literatura com romances como Sargento Getúlio, O Sorriso do Lagarto e Viva o Povo Brasileiro. “E também com seu modo de traduzir e falar de política com finesse, com humor. Ele traduzia e adentrava no Brasil e nas suas entranhas”, destaca a doutora em literatura brasileira Sylvia Helena Cyntrão.