Existem filmes que nascem de uma obrigação afetiva, e Honestino é um deles. Dirigido por Aurélio Michiles, ex-colega de Honestino Guimarães na Universidade de Brasília, o longa carrega desde a concepção um compromisso que vai além do cinema: o de devolver rosto, voz e humanidade a um nome que a história oficial insistiu em silenciar. Assistir ao filme é participar de um gesto de reparação, e isso já bastaria para justificá-lo. Mas a obra vai além, entrega também uma experiência cinematográfica sensível e bem costurada.
O protagonista é interpretado por Bruno Gagliasso, que veste a pele de um dos líderes estudantis mais influentes do país nos anos 1960. Presidente da Federação dos Estudantes da Universidade de Brasília e depois da União Nacional dos Estudantes, Honestino foi preso em 1973, aos 26 anos, e nunca mais voltou para casa. Sua história só ganhou um desfecho formal em 2013, quando o Estado brasileiro reconheceu oficialmente sua morte sob tortura. O filme transforma essa lacuna histórica em narrativa viva, e faz isso com delicadeza.

Um dos grandes acertos de Michiles é situar boa parte da trama em Brasília, cidade que nos anos retratados ainda respirava novidade. A capital recém erguida, o esforço de Darcy Ribeiro para viabilizar a criação da UnB, o clima de efervescência intelectual dos primeiros anos da universidade: tudo isso compõe um cenário raramente explorado com tanto cuidado pelo cinema nacional. Brasília deixa de ser pano de fundo burocrático e se torna personagem viva da história.
A opção por misturar documentário e ficção enriquece o resultado final. Depoimentos de colegas de geração, entre eles nomes que se tornariam cineastas relevantes e outros que seguiriam para a luta armada, dão densidade humana ao relato. Essas vozes reais dialogam com a reconstituição dramática conduzida por Gagliasso, criando um mosaico afetivo que aproxima o espectador da figura de Honestino sem transformá-la em mito distante.

O filme não esconde as contradições e camadas da vida do líder estudantil. Há espaço para a atividade política intensa, para a coragem diante da repressão, mas também para a dimensão afetiva, incluindo a relação com a filha pequena, hoje adulta e sem memórias diretas do pai. Esse contraste, entre o homem público que enfrentava tropas nas portas do campus e o pai que deixou lacunas privadas, é um dos momentos mais comoventes da narrativa.
A trajetória política de Honestino também ganha espaço generoso. Ainda no ensino secundário, ele se aproxima da Ação Popular, organização de inspiração católica que depois se radicaliza em direção ao marxismo leninismo. Diferente de outras correntes de esquerda da época, a organização priorizava a mobilização popular à luta armada direta, e o filme retrata com clareza essa escolha estratégica, sem simplificações.
Um dos traços mais marcantes do personagem, e que o filme sublinha com inteligência, é a recusa de Honestino em deixar o país mesmo diante da repressão crescente. Enquanto companheiros partiam para o exílio, ele permanecia, seguia frequentando bares e amigos, recusava reclusão. Essa postura evoca, de certa forma, a lógica da carta roubada do conto clássico de Edgar Allan Poe: esconder-se exatamente onde ninguém pensaria em procurar.

A reta final do filme trata do desaparecimento com a seriedade que o tema exige. As hipóteses levantadas sobre o destino do corpo de Honestino, nunca encontrado, são apresentadas sem sensacionalismo, mas com o peso necessário para que o espectador dimensione a crueldade do período. Ainda assim, o longa evita transformar a dor em espetáculo, optando por um tom de testemunho respeitoso.
A atuação de Gagliasso surpreende positivamente por sua contenção. Em vez de construir um herói inatingível, o ator entrega um Honestino de carne e osso, cheio de contradições, afeto e convicção. É essa humanidade que sustenta o filme e o afasta do risco de se tornar apenas um monumento histórico. Há vida pulsando em cada cena, mesmo nas mais sombrias.

Conclusão
Ao final, Honestino cumpre uma dupla missão: presta uma homenagem justa a um dos grandes nomes esquecidos da resistência estudantil brasileira e devolve ao público uma parte incômoda, porém essencial, da história recente do país. É um filme necessário, feito com cuidado e sensibilidade, que chega aos cinemas nesta quinta-feira (14) para lembrar que memória também é forma de resistência.
Confira o trailer:
Ficha Técnica
Direção: Aurélio Michiles;
Roteiro: Aurélio Michiles e André Finotti;
Elenco: Bruno Gagliasso;
Gênero: Drama, Biografia, Documentário;
Duração: 86 minutos;
Distribuição: Pandora Filmes;
Classificação indicativa: 12 anos;
Assistiu à cabine de imprensa a convite da Sinny Assessoria