Vencedor do último Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e com estreia marcada para esta quinta-feira (23), Futuro Futuro consolida Davi Pretto como uma das vozes mais ousadas do cinema nacional recente. O diretor não se contenta em imaginar um futuro distante e abstrato: ele funde as ansiedades do presente brasileiro, as enchentes, a desigualdade, a dependência de telas, a um universo devastado onde a memória humana se esvai e a inteligência artificial passa a preencher os vazios da mente. O resultado é um filme que incomoda pelas razões certas, porque nos obriga a reconhecer, em cada fragmento de tela avermelhada, um pedaço do nosso próprio cotidiano hiperconectado e fraturado.
A trajetória do protagonista, batizado apenas de K por não recordar seu próprio nome, funciona como bússola emocional para o espectador. Vindo do Nordeste e vivendo isolado no Sul do país, ele atravessa uma paisagem social brutalmente dividida entre luxo tecnológico e escassez material. Essa jornada sem memória nem certezas sobre o amanhã transforma o filme em algo maior que ficção científica tradicional: torna-se uma meditação sobre pertencimento, deslocamento e a fragilidade daquilo que consideramos identidade.

O tratamento visual talvez seja o maior triunfo da obra. Pretto contrapõe a estética suja e naturalista do mundo real a fragmentos digitais criados por inteligência artificial, hiper coloridos, propositalmente artificiais, quase hipnóticos em sua estranheza. Essa dualidade estética não é mero exercício de estilo: ela materializa, com uma coragem rara no cinema brasileiro, a sensação de viver entre duas realidades que não se comunicam mais.
Um dos méritos mais celebrados por quem já assistiu ao filme é a recusa em explicar tudo. Pretto confia na inteligência do público para decifrar símbolos, associar imagens e preencher lacunas narrativas com sua própria bagagem de leituras e experiências. Essa escolha narrativa, longe de afastar o espectador, cria um convite generoso à reflexão coletiva, algo cada vez mais raro em produções que preferem entregar respostas prontas.

Vale destacar também a naturalidade com que o elenco conduz um material tão denso e simbólico. As atuações equilibram estranhamento e humanidade, evitando o exagero que poderia transformar a distopia em caricatura. Há delicadeza mesmo nos momentos mais duros, e é justamente esse equilíbrio entre desolação e ternura que sustenta o interesse do público do início ao fim.
Futuro Futuro se torna, assim, um marco por antecipar de forma crítica e sofisticada um debate que o cinema mundial ainda engatinha em tratar com seriedade, o papel ambíguo da inteligência artificial em nossas vidas. Enquanto grandes festivais internacionais celebram produções feitas com IA de maneira quase ingênua, o filme brasileiro escolhe examinar essa tecnologia com desconfiança lúcida, sem discursos moralistas ou vilões evidentes.

Conclusão
Ao final, o que resta não é desespero, mas um convite à contemplação. Futuro Futuro prova que o cinema brasileiro pode arriscar, experimentar gêneros e ainda assim tocar profundamente quem assiste. É um filme necessário, de coragem estética rara, que merece ser celebrado como um dos eventos culturais mais importantes do ano.
Confira o trailer:
Ficha Técnica
Direção: Davi Pretto;
Roteiro: Davi Pretto;
Elenco: Zé Maria Pescador, João Carlos Castanha, Carlota Joaquina, Clara Choveaux, Higor Campagnaro, Olivia Torres;
Gênero: Drama, Lo-fi, Sci-fi;
Duração: 86 minutos;
Distribuição: Atelier W e Cajuína Filmes;
Classificação indicativa: 16 anos;
Assistiu à cabine de imprensa a convite da Sinny Assessoria