Camilla Sanches, enviada especial a Curitiba
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Um dos principais eventos de artes cênicas do País, o Festival de Teatro de Curitiba, chegou a sua 20ª edição este ano e recebeu, entre 29 de março e ontem (10), 31 espetáculos de grandes companhias e artistas nacionais, na Mostra Oficial, e mais de 300 peças na mostra paralela Fringe, que recebe produções de todos os estados do Brasil e o Distrito Federal. Entre os espetáculos, foi encenado o monólogo A Cela, produção brasiliense com a atriz Tereza Padilha, da Cia. Teatral Mapati.
Ao longo do ano, estas montagens devem percorrer o País, algumas com passagem marcada pela capital federal, como Savana Glacial, que esteve em cartaz no último fim de semana, no Teatro Oi Brasília.
Os musicais ou peças que falavam sobre música lotaram teatros como o Bom Jesus, em que foi encenada a peça Trilhas Sonoras de Amor Perdidas, e o Guairinha, que apresentou Marlene Dietrich – As Pernas do Século. O Guairão recebeu o suspense cômico Os 39 Degraus, um dos mais aguardados da mostra. A montagem, adaptada do longa-metragem homônimo de Alfred Hitchcock, conta com Dan Stulbach no elenco.
Destaques
As pernas de Marlene
A biografia de uma das grandes estrelas do cinema é passada a limpo na peça Marlene Dietrich – As Pernas do Século. O papel da protagonista foi assumido pela a virtuosa Sylvia Bandeira, que magistralmente soube dar vida à cantora alemã, naturalizada norte-americana, durante à 1ª Guerra Mundial.
Cantando em francês, alemão, inglês e português, Sylvia arrancou bons minutos de aplausos do público que lotou o teatro Guairinha.
Vivendo o marido Rude, com quem Marlene foi casada durante toda a vida – apesar de ter vivido ao seu lado poucos anos, nunca se divorciaram legalmente –, o amante e outros personagens, Silvio Ferraria demonstrou uma devoção a mais ao palco que tem como casa.
Depois da estreia do espetáculo na mostra, quando descia da van que transportava o elenco para o hotel, o ator pisou em falso no degrau, caiu e acabou quebrando o pé direito. Entre o impasse de apresentar ou não a segunda sessão prevista para o dia seguinte, a equipe optou pelo respeito ao público, ao Festival e ao teatro.
A produtora avisou aos pagantes, minutos antes do início da peça, sobre o acidente e a decisão tomada pelos artistas: nenhuma cena havia sido alterada ou retirada do roteiro. Ferraria esteve no palco numa performance inesquecível e locomoveu-se com a ajuda de uma cadeira de rodas, único objeto acrescentado à montagem original.
Trilhas de um amor perdido
A plateia que assistiu ao espetáculo Trilhas Sonoras de Amor Perdidas no Teatro Bom Jesus, em pré-estreia nacional dentro da programação do Festival de Teatro de Curitiba, conferiu, em três (cansativas) horas, boa parte da história do pop rock internacional da década de 1980 e início dos nos 1990.
A peça conta a história de amor entre dois jovens, vividos por Guilherme Weber e Natália Lage, ambientada numa Curitiba antiga. O romance é embalado por trilhas sonoras gravadas em fitas cassete, elo de ligação entre o casal, que não tem outro assunto senão música.
Jornalista e locutor de uma rádio da cidade, o protagonista revela-se, ato a ato, um verdadeiro conhecedor da discografia pop da época. As composições utilizadas à exaustão, vão de Velvet Underground, Lou Reed, Husker Du, Cure, The Smiths a Lloyd Cole, Sonic Youth, T-Rex, Gladys Knight , Jesus & Mary Chain e Pretenders. Há, ainda, referências literárias do poeta, romancista e cantor Leonard Cohen e dos escritores J.D. Salinger e Arthur Rimbaud.
É verdade que a plateia estava lotada, mas parte dela deixou a sala durante o intervalo. Palmas também não faltaram ao final da sessão, mas nada que possa ser considerado fora do comum. Apenas respeito pelo trabalho mostrado. O elenco conta, ainda, com as participações de Maureen Miranda e Luiza Mariani. A direção é de Felipe Hirsch.
Hitchcock no Teatro
Premiado internacionalmente, o espetáculo Os 39 Degraus, adaptação do filme homônimo de Alfred Hitchcok, ganhou versão nacional sob a direção do diretor Alexandre Reinecke. A montagem estreou em São Paulo, onde ficou em cartaz com sessões lotadas e extras de agosto de 2010 a março deste ano, e chegou ao Festival de Teatro de Curitiba, sendo a primeira peça a ter ingressos esgotados.
Apresentada no Guairão, com capacidade para mais de duas mil pessoas, a peça, com Dan Stulbach, Danton Mello, Henrique Stroeter e Fabiana Gugli, foi ovacionada pelo público.
Na coletiva, Stulbach, que vive Richard Hannay, o protagonista da trama, garantiu: “Tenho certeza que todos sairão mais felizes depois de assistirem a peça”. Promessa cumprida.
Em uma hora e quarenta minutos, as risadas e os aplausos da plateia confirmavam a afirmativa do ator, que em cena encarna um suspeito de assassinar a agente secreta Annabela Schimit, apunhalada pelas costas no apartamento do moço, em Londres.
Na tentativa de provar sua inocência, Hannay viaja à Escócia com algumas informações repassadas pela dama. Durante a viagem, ele encontra pessoas dispostas a ajudar ou atrapalhar, sempre com muito humor.
“É uma homenagem ao teatro com todos os elementos que o caracterizam: teatro de sombra, mímica, troca de personagem, dupla de clown (vivida por Danton Mello e Stroeter)”, definiu Dan Stulbach.
De acordo com o produtor, Ubirajara Saíde, a montagem já recebeu convites para se apresentar em todo o País, inclusive de Brasília. “A partir do segundo semestre devemos começar a viajar o Brasil”, declarou.
A repórter viajou a convite da organização do evento