Feito Pipa, novo filme do cearense Allan Deberton, diretor de Pacarrete, merece lugar entre os grandes lançamentos nacionais do ano. Gravado em Quixadá, no interior do Ceará, o longa conta a história de um menino de 11 anos que descobre quem é enquanto enfrenta o preconceito da família e da cidade. O resultado é um filme sensível, engraçado e emocionante, que faz o público sair da sala tocado do começo ao fim.
O sertão sempre esteve presente nas telas do país, quase sempre vestido de sofrimento. A seca, a fome e a aridez viraram uma espécie de uniforme obrigatório para a região. Deberton decide rasgar esse figurino antigo e costurar outro, cheio de lantejoulas. Com os monólitos imponentes de Quixadá e seu céu imenso, o filme enxerga cor onde muitos só viram cinza, e faz isso sem negar as dificuldades do lugar.

No centro da história está Gugu, um garoto que corre atrás da bola de dia e ensaia passos de dança à noite, que sonha subir numa moto e não resiste a um batom ou a uma roupa que brilha. Yuri Gomes entrega uma atuação de uma naturalidade desconcertante. Não há um único momento em que o garoto pareça estar interpretando. Ele simplesmente existe diante da câmera, com uma alegria tão verdadeira que contagia a plateia inteira.
A câmera de Deberton olha para Gugu com admiração, nunca com pena. O filme celebra cada gesto do menino, cada rodopio, cada cor que ele escolhe vestir, e deixa claro que não há nada nele que precise de conserto. A tensão nasce dos adultos e da cidade pequena, que observam tudo com estranheza. Essa forma de narrar, simples e corajosa, transforma o longa numa celebração da infância em toda a sua liberdade.

Lázaro Ramos vive Batista, o pai, e tem nas mãos um dos personagens mais difíceis da trama. É um homem rude, moldado por uma criação dura, que demonstra carinho do único jeito que aprendeu, desajeitado e cheio de tropeços. O ator trabalha com o corpo travado e a voz baixa, deixando escapar aos poucos o amor que ele não sabe dizer. Cada cena entre pai e filho é um pequeno duelo entre o medo e o afeto, e o público acompanha torcendo pelo encontro.
Se o pai é a dúvida, a avó Dilma é a certeza. Teca Pereira está luminosa no papel da mulher que mima o neto, dança com ele na sala e aplaude suas invenções. Quando o Alzheimer começa a roubar suas lembranças, e ela teimosamente se recusa a se tratar, Gugu assume tarefas de gente grande para esconder a doença e continuar ao lado dela. As cenas entre os dois estão entre as mais ternas do cinema nacional recente.

Deberton ainda amplia o olhar para o coletivo ao incluir a construção de uma barragem que tira famílias inteiras de suas casas. Enquanto a seca revela as ruínas de uma cidade que um dia foi submersa, o filme mostra que memórias, tanto de pessoas quanto de lugares, podem ser apagadas. A metáfora é bonita e nunca soa forçada, porque está costurada com cuidado na paisagem, nos figurinos e numa trilha sonora que encontra em Time After Time, de Cyndi Lauper, um momento de pura magia.
Parte dessa verdade vem dos bastidores. O roteirista André Araújo buscou nas lembranças de sua própria infância no interior nordestino a matéria prima da história. Essa experiência real aparece nos detalhes, no jeito de falar dos personagens, nas brincadeiras de rua, nos almoços de família e nos silêncios dentro de casa. É por isso que o filme tem tanta autenticidade e emociona até quem nunca pisou no sertão.

A trajetória do filme comprova sua força. Lançado no Festival de Berlim, onde conquistou dois prêmios, o longa vem colecionando reconhecimentos em mostras no Brasil e no exterior. Feito Pipa chega às telas nesta quinta (29), durante o Festival do Cinema Brasileiro em redes de cinema, e tem estreia oficial no dia 5 de novembro. Escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o país na disputa por Melhor Filme Internacional no Oscar 2027, o longa aguarda a lista de pré-selecionados, que será divulgada em dezembro. Poucas apostas recentes pareceram tão merecidas.
Conlusão
Feito Pipa é daqueles filmes que deixam o coração mais leve e a cabeça mais aberta. Fala de aceitação sem discurso, de família sem idealização e de sertão sem clichê. Como uma pipa que dança no vento sem pedir licença, o longa voa alto, leve e livre, e merece ser visto na tela grande. Imperdível do primeiro ao último minuto.
Confira o trailer:
Ficha Técnica
Direção: Allan Deberton;
Roteiro: André Araújo e Camila Agustini (com colaboração de Allan Deberton);
Elenco: Yuri Gomes, Teca Pereira, Lázaro Ramos, Carlos Francisco, Georgina Castro, Alda Pessoa, Beatriz Carwile, David Santos, Luan Vasconcelos, Nathyel Martins, Manuela Paulino, Pablo Vinicius e Enzo Uejo;
Gênero: Drama;
Duração: 93 minutos;
Distribuição: Paris Filmes;
Classificação indicativa: 14 anos;
Assistiu à cabine de imprensa a convite da Espaço Z