Uma estrutura de mais de sete toneladas chama a atenção de quem circula pela área externa do SESI Lab, em Brasília. Suspensa por cabos e formada por grandes chapas de aço, A Queda de Atlas, do arquiteto e urbanista Anderson Schneider, brinca com a percepção do público ao criar a impressão de que uma das partes da obra está “pendurada” sobre a outra.
A instalação foi inaugurada na terça-feira (25) e passa a integrar o espaço externo do museu. A escolha do local não é por acaso, além de ocupar um ponto de grande circulação, a obra dialoga diretamente com a proposta do SESI Lab de aproximar arte, ciência e tecnologia.
Para Schneider, o interesse pela estrutura começou justamente pela curiosidade em relação às chamadas tensegridades e às possibilidades que elas oferecem. O resultado é uma obra que, segundo ele, fica em uma espécie de fronteira entre diferentes áreas. “Eu entendo que ela está numa zona cinzenta entre arquitetura, engenharia e arte”.

A estrutura utiliza o princípio da tensegridade, no qual elementos submetidos à compressão e à tração trabalham juntos para manter o equilíbrio. É justamente essa combinação que produz o efeito visual que surpreende quem observa a instalação. “Boa parte do segredo e do sucesso da obra, do que chama atenção nela, é justamente essa contraintuitividade estrutural que ela tem”, explica o arquiteto.
O peso de Atlas
O nome da obra faz referência ao personagem da mitologia grega condenado a sustentar os céus. Na instalação de Schneider, a imagem ganha uma leitura contemporânea. O artista relaciona o peso carregado por Atlas às cobranças presentes na vida atual. Produtividade, desempenho, eficiência e até a busca pela felicidade aparecem como pressões que se acumulam em uma sociedade cada vez mais conectada.
Para Schneider, a hiperconexão também contribui para uma sensação permanente de vigilância. “A gente vive com esse peso gigante em cima dos nossos ombros.” A inspiração também se aproxima do conceito de “sociedade do cansaço”, desenvolvido pelo filósofo sul-coreano Byung-Chul Han. A ideia ajudou o artista a pensar na relação entre o mito e a realidade de quem vive submetido a constantes cobranças.
Ciência que provoca reflexão
Apesar de partir de princípios estruturais e matemáticos, a instalação não pretende ser apenas uma demonstração de engenharia. Schneider espera que a obra provoque diferentes interpretações em quem passa pelo local. O próprio processo de criação nasceu do desejo de experimentar algo diferente. Fascinado pelas possibilidades estéticas e conceituais das tensoestruturas, o arquiteto decidiu transformar esse interesse em uma obra de grandes proporções. “Eu estava atrás de fazer coisas que eu nunca tinha feito antes”, conta.
A coordenadora de Exposições e Ações Culturais do SESI Lab, Carolina Villas Boas, destaca justamente essa combinação como um dos motivos para a escolha da instalação. Segundo ela, a obra se conecta à proposta do museu por utilizar conceitos matemáticos e científicos dentro de uma criação artística. “É uma obra muito conectada com as temáticas e o propósito do SESI Lab”.
Museu para além das paredes
A chegada de A Queda de Atlas também faz parte de um movimento do SESI Lab de ocupar os espaços externos e ampliar a relação do museu com a cidade. A instalação pode ser observada por pessoas que circulam pela região da Rodoviária do Plano Piloto, mesmo sem necessariamente entrar no museu. Para Carolina, essa aproximação ajuda a criar novas formas de contato entre o público e as exposições.
O espaço já desenvolve outras iniciativas nesse sentido, como a instalação do Banco Vermelho e a apresentação de aparatos do próprio museu em áreas externas. A proposta é levar parte dessa experiência para quem está no território e não apenas para quem visita as exposições.
A escolha também reforça a intenção de aproximar o SESI Lab de artistas locais. Carolina explica que, embora atualmente não exista um edital permanente para receber propostas, o museu possui diferentes formas de inserir artistas na programação, incluindo festivais, ocupações do painel de LED, oficinas e o Night Lab.
Para Schneider, estar no SESI Lab representa justamente a possibilidade de apresentar uma obra que transita entre diferentes campos em um espaço voltado à ciência, à tecnologia e à cultura. “A peça dialoga muito com a filosofia expositiva do próprio museu”, afirma.