Há um ano, o Brasil perdeu um dos mais importantes artistas visuais contemporâneos brasileiros: Francisco Galeno. Em um justo tributo a quem encantou – e ainda encanta – amantes da arte, a CAIXA Cultural Brasília abre amanhã a exposição gratuita “Galeno, o mistério do simples”. A mostra, que foi pensada ainda em vida pelo artista, apresenta um amplo panorama da trajetória do piauiense radicado no Distrito Federal.
Para mergulhar no “universo Galeno”, a exposição, que fica aberta até outubro, conta com grandes obras do artista produzidas desde o início da sua carreira. O acervo reúne pinturas, esculturas em madeira, gravuras e objetos de diferentes dimensões, entre eles três do acervo do Museu de Arte de Brasília (MAB) e o documentário “Galeno, Curumim Arteiro”, do cineasta Marcelo Diaz.
A mostra também propõe uma imersão no universo poético do artista, com fotos, matérias de jornais, objetos pessoais e sua forte relação com o futebol, em especial o Botafogo – time do coração do artista. O objetivo é valorizar a memória da infância, a cultura popular brasileira e as experiências afetivas que estão presentes em suas obras.

Ao Jornal de Brasília, o curador da exposição, Paulo Herkenhoff, ressalta a dificuldade de apontar as principais obras de Galeno na mostra – tanto pela qualidade quanto pelo fato de o artista dificilmente ter titulado suas obras. “Há várias obras que merecem atenção individualmente, que vão desde os autorretratos do artista quando jovem a pinturas como ‘pacotão’ [apanhado de obras]. No entanto, é difícil apontar aqui outras obras porque Galeno, como Tomie Ohtake, raramente dava título às suas obras.”
Obras como o mural da Igrejinha da 308 Sul e o calçadão de Brazlândia – espaços já incorporados ao cotidiano e à paisagem urbana de quem vive no Distrito Federal – também estão presentes na exposição.
Em relação ao processo de criação da mostra, Herkenhoff conta que, até 2025, a exposição estava sendo pensada com Galeno. Após sua morte, em 2 de junho do ano passado, o trabalho de curadoria precisou seguir sem as trocas com o artista. “Ele, quando vivo, sempre enriquecia nosso projeto com novas obras, novas ideias e informações desconcertantes. Visitei com ele o ateliê na Parnaíba; era uma bagunça de encantamentos! Ele me lembrou o loft de Hélio Oiticica, no Bowery, em Nova York, e o de Louise Bourgeois.”
Sem Galeno, o trabalho se tornou mais difícil e cauteloso – não que antes não fosse. “Sem ele, foi necessário ‘ler’ as pinturas, interpretar os objetos, ter abertura fenomenológica para apreender significados. Faltando Galeno, faltava a indicação de suas obras prediletas, dos desafios que enfrentou, de sua intencionalidade”, ressalta Herkenhoff. Nos filhos de Galeno e nas galeristas Onice Moraes e Kátia Osório, o curador encontrou formas de preservar parte da memória do artista.

“A exposição individual do meu pai na CAIXA Cultural é algo que vínhamos conversando e tentando realizar há alguns anos. Infelizmente, ele não estará aqui para viver esse momento da forma como gostaríamos, mas sabemos que continuará presente por meio de suas obras, de sua história e das memórias que deixou em cada pessoa que teve a oportunidade de conhecê-lo e admirar sua arte”, conta João Francisco de Andrade Galeno, filho do artista.
Para João, a mostra é uma forma de manter vivos os anos de dedicação de Galeno à arte brasileira. “Para nossa família, é um momento muito especial e emocionante, principalmente por ver seu trabalho ocupando um espaço tão importante para a cultura brasileira. Tenho certeza de que essa exposição será também uma forma de manter vivo todo o legado que ele construiu ao longo da vida.”
Para Onice Moraes de Oliveira, da Referência Galeria de Arte, responsável pela coordenação geral da mostra, o projeto ganhou novos significados após a morte precoce de Galeno. “O projeto, que era para ser uma retrospectiva da vida dele, depois de sua morte passou a ser uma celebração”, destaca, ao acrescentar sobre o fascínio que as obras do piauiense despertam nas pessoas. “A obra dele é simples, colorida, alegre, transmitindo autenticidade e verdade. A simplicidade das obras de Galeno é tão querida e tão desejada que passa a ser um mistério.”
Sobre Galeno
Nascido no dia 13 de maio de 1956, na Parnaíba (PI) – onde manteve um ateliê ao longo da vida –, e criado em Brazlândia (DF), Galeno construiu uma obra profundamente atravessada por suas origens e pelas experiências vividas entre o Nordeste e o Cerrado brasileiro. Seu olhar curioso e afetuoso para as manifestações culturais, os brinquedos populares, os objetos cotidianos e a história da arte consolidou uma produção singular, reconhecida nacional e internacionalmente.
Considerado um dos principais nomes das artes visuais no Brasil, Galeno participou recentemente da 14ª Bienal do Mercosul, da exposição Brasília, Arte da Democracia e realizou a individual O Piauí é aqui – o Piauí não é aqui, na Galeria Galatea. Em 2025, sua obra As Quatro Estações passou a integrar o acervo do Palácio do Planalto.
SERVIÇO:
Exposição: “Galeno, o mistério do simples”
Período: 16 de junho a 4 de outubro
Horário: De terça a domingo, das 9h às 21h
Local: CAIXA Cultural Brasília
Entrada gratuita