A relação entre corpo, natureza, memória e território está no centro da pesquisa da artista visual e pesquisadora Fabiana Queiroga, que participa da exposição coletiva “6 Centelhas”, aberta ao público até 21 de setembro, na Casa Vento, no Lago Sul, em Brasília. Com curadoria e crítica de Elsa Paranaguá Elvas, a mostra reúne obras de seis artistas contemporâneos e propõe diferentes olhares sobre as relações entre tempo, corpo, memória e território.
Além de Fabiana, integram a exposição Cláudio Montanari, Gabriel Nehemy, M. Cavalcanti, Marcos Dutra e Marina Fontana. A realização é da Divino Galeria em parceria com a Casa Vento. Na produção de Fabiana, materiais orgânicos, resíduos, metais e superfícies fragmentadas aparecem como caminhos para pensar as transformações provocadas pelo tempo e as marcas que permanecem na matéria.
Para a artista, esses elementos não estão separados. “Para mim, corpo, matéria e paisagem nunca estiveram realmente separados. A paisagem não é apenas aquilo que está fora de nós; ela também atravessa o corpo, produz memória e, ao mesmo tempo, é transformada por ele”, explica.
É dessa relação de troca que parte a pesquisa de Fabiana. Segundo ela, o trabalho desenvolvido desde a série “Botânica” investiga inicialmente os vínculos entre natureza e humanidade e, com o passar do tempo, passou a incorporar questões relacionadas a território, pertencimento, permanência e transformação.
“Meu trabalho nasce justamente dessa porosidade”, afirma. Em “6 Centelhas”, a matéria ganha uma dimensão próxima à do próprio corpo. “A matéria funciona quase como um corpo: acumula marcas, cria resistências e carrega vestígios. A paisagem, por sua vez, não aparece necessariamente como uma representação, mas como algo que permanece inscrito na superfície das coisas.”

A artista se interessa justamente pelo ponto em que essas fronteiras começam a desaparecer. “Interessa-me esse lugar de encontro, em que já não sabemos exatamente onde termina o corpo e onde começa a paisagem.”
O tempo como transformação
Os processos de erosão e desgaste também atravessam o trabalho de Fabiana, mas não necessariamente como técnicas aplicadas diretamente sobre os materiais. Para ela, esses conceitos funcionam principalmente como metáforas para compreender a ação do tempo sobre corpos, paisagens e relações.
“A erosão e o desgaste aparecem no meu trabalho muito mais como metáforas do que como procedimentos aplicados diretamente à matéria”, explica. “O que me interessa é pensar o tempo como uma força capaz de transformar corpos, paisagens, memórias e relações.”
Embora trabalhe com materiais orgânicos, resíduos e metais, a intenção não é necessariamente provocar neles um processo de deterioração. “É a própria ideia do tempo, aquilo que ele deposita, retira, transforma ou deixa como vestígio, que atravessa a minha pesquisa.”
Nesse processo, a memória ocupa um lugar fundamental. Fabiana entende que lembrar também é transformar. “Ela nunca permanece intacta: é atravessada pelo tempo, pelos deslocamentos, pelos apagamentos e pelas reconstruções.”
Por isso, o desgaste não é associado somente à perda. “Ele também pode revelar outras camadas, produzir novas formas e transformar aquilo que, em algum momento, parecia permanente”, afirma.
A artista resume sua relação com o tempo a partir de uma perspectiva menos interessada em representar sua passagem e mais voltada para observar seus efeitos. “Interessa-me menos representar a passagem do tempo e mais perceber o que o tempo faz permanecer e aquilo que, inevitavelmente, ele transforma.”

Memórias que não são literais
A infância também está presente na pesquisa de Fabiana, especialmente por meio das lembranças dos jardins que fizeram parte desse período. “Minha pesquisa tem uma relação muito forte com a infância e com os jardins que fizeram parte desse período da minha vida. Acredito que foi ali que começou a se formar uma percepção da natureza que permanece até hoje no meu trabalho.”
Essas memórias, porém, não aparecem nas obras como reproduções diretas de experiências pessoais. “Não me interessa reconstruir essas lembranças de maneira literal ou autobiográfica”, conta.
Em vez disso, elas são transformadas em elementos e formas que carregam diferentes sentidos. “Elas aparecem transformadas em uma flor, um espinho, uma raiz, um fragmento, uma superfície ou mesmo em determinada maneira de organizar a matéria.”
Outro aspecto importante da pesquisa é o universo doméstico. A casa e os objetos cotidianos, segundo a artista, podem revelar relações que ultrapassam a esfera pessoal.
“Também existe uma relação muito forte com o universo doméstico. A casa, o jardim, a mesa, os objetos e os gestos cotidianos são territórios aparentemente íntimos, mas que carregam relações culturais, históricas e políticas muito maiores.”
Essa perspectiva ajuda a compreender a maneira como Fabiana enxerga a memória. “Nós não acessamos o passado de forma intacta. Cada vez que lembramos, reorganizamos seus fragmentos.” É nesse intervalo entre permanência e transformação que, para ela, o trabalho artístico se constrói.
“Talvez meu trabalho aconteça justamente nesse espaço entre aquilo que permanece e aquilo que, inevitavelmente, se transforma.”
Brasília como novo território
Natural de Goiânia e atualmente baseada em São Paulo, Fabiana Queiroga já participou de exposições no Brasil e no exterior, incluindo as Bienais de Santiago e Lisboa, além de mostras realizadas na Europa e nos Estados Unidos. A passagem por Brasília acontece antes de novos compromissos internacionais, entre eles uma agenda em Portugal.
Para a artista, chegar à capital neste momento representa mais do que uma etapa em uma sequência de exposições. “Brasília chega em um momento importante porque sinto que meu trabalho está atravessando um processo de expansão, sem abandonar aquilo que o constituiu.”
A cidade também estabelece um diálogo particular com temas que já fazem parte de sua produção. “Estar em Brasília antes de seguir para Portugal cria, para mim, uma espécie de passagem entre diferentes momentos dessa trajetória.”
A própria configuração da capital chama a atenção da artista. “Também existe algo muito interessante em apresentar esse trabalho em Brasília, uma cidade em que arquitetura, paisagem, vazio, projeto e dimensão política convivem de maneira muito particular. São questões que, de formas diferentes, também atravessam a minha pesquisa.”
Depois da exposição em Brasília, Portugal será outro território de investigação. “Portugal será outro deslocamento importante, inclusive porque algumas das pesquisas que estou desenvolvendo passam pelas relações históricas e culturais entre Brasil e Portugal, pelo território, pela domesticidade e pelos objetos como portadores de memória.”
A artista prefere, no entanto, não definir esse momento apenas como uma expansão internacional de sua carreira. “Não penso esse momento simplesmente como uma sequência de exposições ou como uma ideia de internacionalização. Penso como uma ampliação do campo da pesquisa, em que cada novo território e contexto também abre possibilidades para olhar novamente para o meu próprio trabalho.”
Serviço
Exposição: 6 Centelhas
Artistas: Cláudio Montanari, Gabriel Nehemy, Fabiana Queiroga, M. Cavalcanti, Marcos Dutra e Marina Fontana
Curadoria e crítica: Elsa Paranaguá Elvas
Realização: Divino Galeria + Casa Vento
Período: 21 de agosto a 21 de setembro
Horários: segunda a sexta, das 10h às 19h; sábado, das 9h às 13h
Local: Casa Vento — SHIS QI 07, Conjunto 2, Casa 4, Lago Sul, Brasília/DF
Entrada: gratuita