A CAIXA Cultural recebe, até o dia 23 de agosto, a exposição Cidadela, da artista visual Maria Ezou, que convida o público para uma experiência imersiva no universo das infâncias, suas sensações e subjetividades. O projeto circula o Brasil desde 2022 e já passou por estados como Minas Gerais, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal, alcançando mais de 69 mil visitantes.
A mostra apresenta uma instalação interativa que materializa uma cidade imaginária e biocêntrica, uma fortaleza onírica onde seres humanos, corpos, casas e natureza coexistem como partes de um mesmo sistema harmônico e fantástico.
“A ideia de transformar as emoções da infância em ‘casas-corpos’ e universos em miniatura nasceu, primeiramente, de uma história chamada ‘A Casa das Mil Janelas’, que criei para ninar minha filha. Eu contava para ela todas as noites para fazê-la dormir. Mais tarde, grávida do meu segundo filho, compreendi que aquelas casas e emoções habitavam o meu próprio corpo, um espaço repleto de sentimentos, descobertas e outras questões complexas relacionadas à infância”, afirma Maria Ezou.

Logo na entrada da exposição, o público encontra um portal que remete a raízes aéreas de mangue e à silhueta de uma montanha. A estrutura, chamada “Estufa”, abriga vasos biodegradáveis com matéria orgânica, sementes e mudas de plantas nativas do Cerrado, além de lápis e papel para interação dos visitantes.
Segundo a artista, a exposição propõe um mergulho na escala da infância. “Esse convite traz reflexões urgentes para os dias de hoje. Primeiro, estabelece uma relação de igualdade e acolhimento. Assim como na educação infantil, onde a professora se agacha para olhar nos olhos da criança, esse gesto físico na exposição gera um diálogo direto. O adulto se permite habitar o universo infantil, exercitando uma empatia profunda ao se colocar nesse lugar de escuta. Segundo, o convite resgata o direito da criança ao sensível”, detalha.
Para Maria Ezou, as infâncias vivem hoje em meio a uma hiperestimulação constante, marcada por telas, sons altos, excesso de informação e cores saturadas. “Quando o adulto percebe que a criança é perfeitamente capaz de absorver e decodificar o mundo através da sensibilidade e da arte, ele compreende a urgência de desacelerar. Arte para a infância é, portanto, um ato de resistência e um refúgio contra essa superexposição contemporânea”, afirma.

Ao avançar pela mostra, o visitante encontra 15 esculturas produzidas a partir do molde do tronco da própria artista. Cada “casa-corpo” revela um universo particular ligado às emoções e experiências da infância. Os cenários em miniatura ganham vida por meio de autômatos mecânicos e eletrônicos, transições de luz, trilhas sonoras próprias e sons da natureza, como água, vento, passos na terra e fogo crepitando. Todas as obras também contam com audiodescrição, promovendo acessibilidade ao público.
A relação entre arte, infância e meio ambiente também ocupa papel central na exposição. “Essa conexão se materializa logo na entrada da exposição com a obra Estufa. No dia da abertura, as crianças inauguraram a mostra plantando mudas de árvores. Ao longo de toda a temporada, cada visitante é convidado a cuidar, regar e acompanhar o crescimento dessas plantas, cultivando uma noção ativa de cuidado coletivo”, explica a artista.
Posteriormente, as mudas serão destinadas a assentamentos por meio de uma parceria com o Plano Nacional “Plantar Árvores, Produzir Alimentos Saudáveis”, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). “Essa dinâmica mostra que a arte, assim como a natureza, pode ser singela e vital, sem a necessidade de ser inserida na lógica do espetáculo. A infância encontra no meio ambiente e na Cidadela um território comum, ambos são espaços vivos, dinâmicos e essencialmente interativos, onde a relação se constrói pelo afeto e pela experiência prática”, completa.

A exposição propõe ainda uma experiência de visitação livre, na qual cada espectador escolhe o próprio percurso e descobre diferentes universos ligados à infância. Em “Cidadela”, o corpo de Maria Ezou se transforma em território simbólico, raízes, montanha, natureza e memória se misturam em uma cartografia afetiva que aponta para o coletivo.
“Após percorrer diferentes estados e tocar a vida de mais de 69 mil pessoas, a chegada da Cidadela a Brasília marca um momento de profunda maturidade e expansão para o projeto. Sob a perspectiva ecológica, esta é a nossa estreia no Cerrado. Já passamos pela Mata Atlântica nas regiões Sul e Sudeste, e pela Caatinga no Nordeste, agora, adentrar o Cerrado, com toda a sua resiliência, suas raízes profundas e sua beleza singular, enriquece imensamente o nosso diálogo sobre regeneração ambiental, sustentabilidade e diversidade de espécies e culturas”, destaca Maria Ezou.
A artista afirma ainda que trazer a exposição para Brasília representa também um gesto político e poético. “Representa a oportunidade de semear o direito à sensibilidade, ao brincar e ao cuidado coletivo no coração político do Brasil, criando pontes entre a arte, a preservação de um bioma vital e o futuro das nossas crianças. É a consolidação de que a Cidadela não é apenas uma exposição, mas uma rede viva de afetos que se ramifica por todo o país”.
SERVIÇO
Exposição Cidadela
Local: CAIXA Cultural Brasília
Período: até 23 de agosto de 2026
Funcionamento: terça a domingo, das 9h às 21h
Entrada: gratuita
Classificação indicativa: livre