Brasília completa 66 anos reafirmando não apenas seu papel político, mas também a potência de sua produção cultural. Para marcar a data, o Jornal de Brasília inicia uma série especial que, ao longo da semana, revisita trajetórias de artistas que ajudaram a construir a identidade cultural da capital desde os seus primeiros anos. A abertura é dedicada às artes plásticas, reunindo histórias de quem transformou um cenário ainda em formação em espaço de criação, resistência e permanência.
Antes de galerias consolidadas e circuitos estruturados, fazer arte em Brasília era, sobretudo, um exercício de insistência. Nos anos que sucederam a inauguração da cidade, artistas que chegavam à nova capital encontravam uma paisagem urbana em expansão, mas ainda carente de espaços culturais e de um mercado que sustentasse a produção artística.
Foi nesse contexto que a artista Ray Di Castro desembarcou em Brasília, em 1978, trazendo na bagagem uma formação construída desde a infância. O contato precoce com obras clássicas, ainda na escola, despertou um interesse que atravessaria décadas. Ao chegar à capital, no entanto, encontrou um cenário desafiador, com poucos espaços expositivos e quase nenhuma visibilidade para quem ainda construía sua trajetória.

A ausência de infraestrutura obrigava os artistas a reinventarem os caminhos. Exposições improvisadas em igrejas, comunidades e pequenos espaços substituíam galerias formais.
“Não tinha muitos espaços culturais, não me lembro de museus ou espaços públicos. Para expor em galeria, você já precisava ter um trabalho reconhecido. Então a gente só podia estudar, estudar e pintar”, relembra Ray Di Castro.
Arte da resistência
Mais do que limitação, esse contexto ajudou a formar uma geração marcada pela persistência e pela construção gradual de reconhecimento. A circulação das obras dependia, muitas vezes, de oportunidades pontuais. Ray relembra a importância de exposições em instituições públicas e feiras, como as realizadas no Gilberto Salomão, onde artistas conseguiam apresentar seus trabalhos a arquitetos e possíveis compradores. “Às vezes era na igreja, às vezes na comunidade. Era o que a gente tinha. Mas a gente não desistia, todo mundo continuava pintando”, afirma.
Era nesse contato direto que a arte encontrava espaço para existir e sobreviver. A trajetória do artista Luiz Costa, conhecido como “pintor dos candangos”, revela um caminho ainda mais árduo. Ao decidir viver exclusivamente da arte, enfrentou um mercado praticamente inexistente. Sem galerias acessíveis ou público consolidado, a alternativa era levar as obras diretamente até possíveis compradores.

Com quadros debaixo do braço, ele percorria casas e estabelecimentos oferecendo seu trabalho. A recusa era frequente, mas não suficiente para interromper o percurso. “Eu saía com os quadros debaixo do braço, batendo de porta em porta. Levava muita portada na cara, mas continuava. O desafio era vender para sobreviver e comprar material para continuar pintando”, conta Luiz Costa. Para muitos artistas da época, a dificuldade em se manter levou ao abandono da carreira, realidade que ele conseguiu contornar com persistência.
A precariedade do início contrasta com a força simbólica que Brasília exercia sobre esses artistas. A cidade, planejada e geométrica, não apenas abrigava a produção artística, mas também a moldava. A arquitetura modernista e o traçado urbano influenciaram diretamente as linguagens visuais desenvolvidas ao longo das décadas.
No trabalho de Luiz Costa, essa relação se manifesta de forma evidente. Suas figuras repetidas e estilizadas dialogam com a organização espacial da cidade, marcada por padrões e simetrias. “Brasília é uma cidade repetida, organizada. As tesourinhas são iguais, os blocos são iguais. Isso aparece na minha obra, nessa coisa geométrica e repetida dos candangos”, explica.

Já Ray Di Castro encontrou na arquitetura da capital uma ponte para expandir sua produção para além do Brasil. Em uma de suas experiências internacionais, estabeleceu relações visuais entre Brasília e Jerusalém, explorando semelhanças estruturais e criando narrativas que atravessam territórios e culturas. “A geometria de Brasília é muito inspiradora. Eu consegui levar isso para fora, fazer conexões com outras cidades e construir uma narrativa a partir disso”, destaca.

Novas possibilidades criativas
Se no início a produção artística estava vinculada a referências clássicas e a um processo de aprendizado técnico mais rígido, o cenário atual apresenta outras possibilidades. A passagem do tempo trouxe transformações não apenas nos espaços, mas também nas linguagens e nas formas de expressão. Para Ray, a arte contemporânea representa um momento de liberdade. “Hoje você tem mais liberdade para criar, para contar histórias. A arte está em um excelente momento, principalmente depois da pandemia”, afirma.
A flexibilização das normas estéticas amplia o campo criativo e permite que novas narrativas surjam a partir de experiências diversas, especialmente em uma cidade marcada por múltiplas origens como Brasília.
Luiz Costa observa essas mudanças com um olhar mais crítico. Para ele, a ampliação do acesso à produção artística também trouxe uma diluição de critérios técnicos e formativos. Ainda assim, reconhece que as transformações fazem parte do próprio movimento da arte ao longo do tempo.

Apesar das diferenças de perspectiva, há um ponto de convergência entre os artistas, a percepção de que Brasília ainda pode avançar na valorização das artes plásticas. A ausência de uma crítica especializada consolidada e de espaços dedicados exclusivamente a artistas de carreira são desafios apontados por quem acompanha a cena há décadas.
União move Brasília
A necessidade de maior articulação entre artistas também surge como um caminho possível. “Os artistas precisam se unir mais para criar movimentos. Brasília pode ir mais rápido, com mais força”, avalia Ray Di Castro.

Mesmo diante das lacunas, a história das artes plásticas na capital é marcada por permanência. Dos primeiros anos, quando faltavam paredes para expor, até o cenário atual, os artistas construíram trajetórias que ajudam a compreender não apenas a evolução da arte, mas também as transformações da própria cidade.
Mais do que representar paisagens, a produção artística em Brasília atua como registro sensível de um território em constante construção, um espaço onde memória, crítica e identidade se encontram.

Amanhã, a série especial continua com histórias dos pioneiros da literatura em Brasília.