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Exposições

Artista transforma deslocamentos em arte na exposição Passageiro

Residência em Yokohama inspira mostra na sobre memória, identidade e deslocamento

Larissa Barros

14/07/2026 14h07

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Artista João Angelini. – Foto: Larissa Barros/Jornal de Brasília

Seis meses vivendo no Japão mudaram a forma como o artista plástico João Angelini enxerga a arte. O período de residência artística em Yokohama, realizado a convite da Embaixada do Brasil em Tóquio e do Instituto Guimarães Rosa, deu origem à exposição Passageiro, em cartaz na Referência Galeria, na Asa Norte. A mostra reúne cerca de 20 obras produzidas durante a experiência e marca um novo momento em sua trajetória, com a ampliação da carreira para o circuito internacional.

Mais do que retratar uma viagem, a exposição propõe um diálogo entre Brasil e Japão a partir de temas como memória, identidade, deslocamento, comércio, colonização e efemeridade. As obras transitam por diferentes linguagens, como pintura, escultura, instalação, fotografia, vídeo e animação.

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Foto: Larissa Barros/Jornal de Brasília

Segundo Angelini, a residência permitiu desenvolver uma pesquisa aprofundada sobre as aproximações entre os dois países. “Desenvolvi uma série de pesquisas fazendo aproximação entre questões culturais brasileiras e japonesas, entre contextos políticos e econômicos que impactam os dois países. A exposição foi muito baseada nos meus afetos, em como eu percebo essas aproximações, incluindo memórias de infância com os mangás, os games e o entretenimento japonês”, explica.

Entre as obras está uma reflexão sobre o matcha, tradicional chá verde japonês que, segundo o artista, vive um momento de escassez no próprio Japão devido à crescente demanda internacional.

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Foto: Larissa Barros/Jornal de Brasília

“É uma discussão muito parecida com o que acontece no Brasil, quando a gente perde a nossa riqueza natural para atender uma indústria voltada à exportação. Essas aproximações e, às vezes, essas distâncias entre Brasil e Japão estão presentes em toda a série de trabalhos”.

Além das referências ao cotidiano japonês, a produção também evidencia as origens de Angelini. Uma das instalações aproxima fragmentos de uma antiga casa colonial de Planaltina de padrões inspirados na arquitetura de um templo budista de Kyoto.

“O meu vocabulário imagético é goiano, do Centro-Oeste. Eu levei um pedaço dessa parede que eu tinha em casa e, quando encontrei aquele padrão no templo, percebi que ali havia uma conexão interessante. Essa aproximação acontece exatamente porque eu sou quem eu sou e estava vivendo aquela experiência”.

Embora tenha nascido no Distrito Federal, o artista afirma que sua identidade está profundamente ligada à cultura goiana. “As pessoas costumam me apresentar como artista brasiliense, mas minha memória de infância não é feita de pilotis ou da arquitetura modernista. Ela é povoada por casas coloniais, carroças, cavalos e pelo cerrado. Foi viajando pelo Brasil que compreendi o quanto essa formação goiana está presente na minha produção”.

A experiência internacional também ampliou seu processo criativo por meio da convivência com artistas de diferentes países. “Foi muito rico estar durante seis meses em contato com artistas indonésios, coreanos, filipinos e chineses. Minha forma de criar foi ampliada por essas trocas e isso passa a fazer parte do meu repertório”, conta. 

Após a temporada no Japão e a abertura da exposição em Brasília, Angelini segue para uma nova residência artística, desta vez na Alemanha. Para ele, o processo faz parte de uma estratégia de internacionalização construída em parceria com as galerias que representam seu trabalho e com o Espaço Cultural Pé Vermelho, em Planaltina.

“Estamos construindo uma rede de intercâmbio com instituições do Japão e da Alemanha para promover a circulação de artistas, curadores e pesquisadores. É um processo que fortalece tanto a minha produção quanto os espaços culturais que construímos aqui”. 

Apesar das diversas interpretações que suas obras despertam, Angelini afirma que não produz pensando em uma reação específica do público. “Eu não penso muito no efeito que elas vão causar nas pessoas. O que me move é a necessidade de que esses trabalhos existam. Quero que eles cheguem na melhor forma possível. Depois disso, cada pessoa vai construir a sua própria experiência”.

Serviço
Exposição: Passageiro
Artista: João Angelini
Local: Referência Galeria 
Período: Até 28 de agosto
Visitação: Segunda a sexta-feira, das 10h às 19h; sábados, das 10h às 14h
Entrada: Gratuita
Informações: Instagram @referenciagaleria

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