Calma, delicadeza, suavidade e respeito impressos em sofridas cenas cotidianas enfrentadas pela mulher brasileira. A ambiguidade entre temática e representação visual é marca registrada de Nair Benedicto. Com 42 anos de carreira, a fotógrafa é a principal homenageada do Mês da Fotografia no Centro Cultural Banco do Brasil (Setor de Clubes Esportivos Sul), com a exposição Fé Menina, em cartaz até 24 de agosto. Entrada franca, de quarta a segunda, das 9h às 21h.
Assim como Glauber Rocha brilhava no cinema ao mostrar um outro lado da realidade no audiovisual, Nair faz com que enxerguemos a beleza de cada descuido através de suas lentes.
Tendo a política como temática, o foco principal sempre foi a mulher, tema que explora desde a década de 1970. Em entrevista ao JBr., a artista fala sobre a simplicidade no olhar da mulher. “Gosto da tensão em que elas aparecem, seu olhar. De observar onde se encontram”, explica.
Falar de mulheres com direitos limitados usando um espectro simples e claro – sem perder o medo existente no momento da foto – é uma das muitas habilidades da artista. Suas fotografias podem ser comparadas, em fatores da linguagem visual, a imagens pictóricas clássicas. Desde a delicadeza da luz impressionista até o forte enquadramento, com linhas verticais radiando estabilidade.
Apesar de ser reconhecida no âmbito do fotojornalismo, a artista confessa que prefere não se limitar ao termo. “Nunca me preocupei com o fato em si, mas com o som ao redor do fato. Minha obra não tem furo, mas sim constatação. Fotografar uma mulher em uma marcha em favor ao aborto é fácil. Quero fotografar a mulher trabalhadora, com seu olhar terno e preocupado perante o filho, sem saber onde deixá-lo para poder trabalhar”.
Fotos inéditas e viagens pessoais
A curadoria da mostra é feita pelo fotógrafo e galerista Egberto Nogueira. Segundo ele, a obra da artista é “um instrumento de politização, que levanta questionamentos à sociedade, ressaltando expressão e luta”.
Entre as 40 fotos exibidas, algumas inéditas, destaque para uma série de fotografias que retrata a artista dentro de seu quarto, em sua intimidade. “Suas obras não são puramente estéticas, você sai de lá pensando. Algumas fotografias foram tiradas há 34 anos, mas poderiam ter sido fotografadas agora”, conclui Egberto.
Depoimentos
Além de um documentário de 27 minutos, que conta a história e obra da artista; tem também outros dois audiovisuais, de 17 minutos cada, com 80 depoimentos apanhados durante as viagens de Nair.