O samba volta a ocupar as ruas de Ceilândia em uma edição que aposta no encontro, na memória e no pertencimento. Neste sábado (12), o Espaço do Samba da Guariba, na Entrequadra 20/18 da Ceilândia Sul, recebe a oitava edição do Festival Tardezinha do Samba, com shows gratuitos, rodas de samba, DJs, gastronomia e apresentações de artistas do Distrito Federal e de outras partes do país.
Idealizado pelo cantor, compositor e produtor cultural Marcelo Café e realizado pela Lente Cultural, o festival chega a 2026 com o tema “O Corpo Encantado das Ruas” e a proposta de transformar o espaço público em território de convivência e expressão cultural. Para Marcelo, a escolha da rua dialoga diretamente com a trajetória do projeto e com a relação construída com o público de Ceilândia.
“A oitava edição do Festival Tardezinha do Samba vem com a proposta de reencantamento da rua, indicando que a rua não é só local de passagem, mas de encontro, de risos, de pertencimento”, afirma. Segundo ele, o festival foi construído também com a perspectiva de criar conexão e fruição para os moradores da região. “Nada mais adequado do que estar na rua nessa edição e com esse tema.”
A programação reúne nomes como Alvorecer Mulheres na Roda, Já Chegou Quem Faltava, Samba da Guariba, SarauVá, Milsinho, Marcelo Café e Toninho Geraes, além das participações de Tia Surica, referência histórica do samba brasileiro, Marina Iris e Beco da Rainha. A programação também contará com DJs e praça de alimentação, com opções como feijoada e doces.

Mais do que reunir diferentes artistas em um mesmo palco, a proposta é aproximar gerações e experiências distintas dentro do samba, fortalecendo a circulação da produção cultural e a conexão entre artistas consagrados e nomes que movimentam a cena do Distrito Federal.
Para Marcelo, a força do festival está justamente nessa capacidade de criar encontros e fazer da cultura uma experiência compartilhada. A escolha de Ceilândia como território dessa celebração também reforça a ideia de que a produção cultural periférica não está à margem, mas ocupa um lugar central na identidade artística da capital.
Cultura também é formação
A programação do Tardezinha do Samba não termina com os shows. Entre 22 de setembro e 3 de outubro, o projeto realiza o “Tardezinha do Samba vai à Escola”, levando atividades formativas aos estudantes do CEM 9 e do CEM 12. As oficinas abordam temas como Inclusão Digital e Democracia, Jogos Digitais e Brasil e África, conduzidas por Fernanda Morgani, Vislene Reis e Cristiane Sobral.
A iniciativa parte da compreensão de que a cultura pode desempenhar diferentes papéis na sociedade. “Nós entendemos que cultura pode ser fruição, divertimento ou também lazer. Mas também é elemento fundamental para a formação de pessoas, no que se refere à cidadania, à política, à história”, explica Marcelo.
Para o produtor, levar esse debate às escolas públicas também significa reconhecer a importância do samba na própria formação do país. “O samba faz parte da formação social do Brasil. E essa história pode, deve e precisa ser contada nas escolas públicas”, defende.

A proposta, segundo ele, passa ainda pela valorização das manifestações culturais negras que ajudaram a construir a identidade brasileira. “É honrar quem veio antes e plantou aqui o samba, o candomblé, as mandingas e o pertencimento por meio do corpo.”
Ceilândia como cidade criativa
Ao falar sobre a relação do festival com Ceilândia, Marcelo também destaca a potência criativa da cidade e das periferias brasileiras. Para ele, apesar dos desafios estruturais, esses territórios desenvolvem continuamente novas formas de expressão e sobrevivência por meio da cultura.
“Ceilândia é uma cidade criativa, como toda periferia brasileira. Os desafios para a sobrevivência e a vida com dignidade passam pela necessidade de reinvenção e resistência”, afirma.
A cidade, que durante muito tempo esteve associada principalmente a narrativas de violência, passou a ser reconhecida também pela diversidade de sua produção artística. “A cidade antes conhecida pela violência virou um vendaval onde pulsa rap, samba, cinema, forró, charme e diversas outras possibilidades criativas”, diz Marcelo.
Essa efervescência, no entanto, convive com a falta de equipamentos culturais públicos. O produtor chama atenção para a ausência de estruturas permanentes que poderiam ampliar o acesso à cultura na região. “Isso tudo sem um Centro Cultural, sem um Cinema Público, sem espaços de lazer”, pontua.
Ainda assim, Marcelo vê na capacidade de reinvenção da população uma das principais forças da cidade. “O desafio? Não há o que não possamos superar”, afirma. A frase ganha ainda mais força quando ele recorre à própria identidade de Ceilândia para definir essa capacidade de resistência: “Ceilândia é mulher e, sendo assim como é, se reinventa na dor”.
É nesse cenário que o Tardezinha do Samba se apresenta não apenas como uma programação musical, mas como uma forma de ocupar a cidade e reafirmar a cultura produzida nas periferias. Ao levar o samba para a rua, aproximar artistas e público e estender as atividades para as escolas, o festival transforma a celebração em espaço de memória, formação e pertencimento.
Serviço
Tardezinha do Samba 2026
Data: 12 de setembro
Local: Espaço do Samba da Guariba — Entrequadra 20/18, Ceilândia Sul
Entrada: gratuita
Tardezinha do Samba vai à Escola
Data: de 22 de setembro a 3 de outubro
Locais: CEM 9 e CEM 12 de Ceilândia
Atividades: oficinas de Inclusão Digital e Democracia, Jogos Digitais e Brasil e África